Tenho certeza que você adoraria poder se aposentar antes dos 40 anos e não depois dos 65 anos. É claro que as pessoas que buscam antecipar a aposentadoria não estão querendo ficar sem trabalhar por 40 ou 50 anos. Elas só gostariam de aliviar o peso que é trabalhar por 30 dias para garantir a sobrevivência pelos próximos 30 dias.

É fácil medir esse peso respondendo uma pergunta simples:

Se você perdesse a sua fonte de renda hoje (exemplo: você foi demitido). Por quanto tempo você conseguiria manter as despesas mensais geradas pelo seu atual estilo de vida sem quebrar ou mergulhar em dívidas? Quanto tempo levaria para sua conta bancária ficar no vermelho?

Quanto menos tempo, maior o peso.

Agora imagine se diante de uma interrupção da sua renda, você fosse capaz de viver tranquilamente apenas com a renda gerada pelos seus investimentos, tendo total calma e tranquilidade para escolher uma boa oportunidade de emprego ou até uma atividade que possa ser mais gratificante que o seu antigo trabalho.

Esse é o objetivo daquele que busca a aposentadoria antecipada. Você não irá se aposentar do trabalho, mas irá se aposentar daquela obrigação de carregar as pedras (despesas) até receber o próprio salário no interminável ciclo de trabalhar e pagar contas… trabalhar para pagar contas. A aposentadoria antecipada equivale a sua independência financeira. Ela simboliza a libertação do “trabalho de Sísifo”

Trabalho de Sísifo

Quadro do pintor italiano Ticiano Vecellio (1549) retratando o trabalho de Sísifo

O cidadão que aparece no quadro acima se chama Sísyphos (Sísifo). Veja que ele está subindo uma montanha carregando uma pedra nas costas. Essa situação tornou a vida de Sísifo um verdadeiro inferno. Nem parece que Sísifo foi o humano mais astuto de toda a mitologia grega.

Sísifo era um sujeito indisciplinado, sofria as consequências da sua indisciplina, mas se achava muito esperto. Para tudo ele conseguia encontrar um jeitinho. Era grego, mas seguia a famosa Lei de Gerson, divulgada por aquele esportista brasileiro que fumava, comprava cigarro barato e achava que isso era uma grande vantagem (assista).

Sísifo era tão “esperto” que conseguiu enganar a morte por duas vezes e no fim, acabou sendo condenado a um apena que considerada pior que a própria morte.

Por toda a eternidade, Sísifo foi condenado a rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida, invalidando completamente o duro esforço despendido.

Por esse motivo, a expressão “trabalho de Sísifo”, em contextos modernos, é empregada para representar qualquer tarefa que envolva esforços longos, repetitivos e inevitavelmente fadados ao fracasso – algo como um infinito ciclo de esforços que, além de nunca levarem a nada útil ou proveitoso, também são totalmente desprovidos de quaisquer opções de desistência ou recusa em fazê-lo.

Nas nossas finanças pessoais não existe espaço para jeitinho. O dinheiro é regido por leis matemáticas muito rígidas e os jeitinhos que tentamos dar com o dinheiro acaba nos aprisionando no eterno trabalho de Sísifo. Decisões equivocadas com relação ao nosso consumo, como fez o Gerson, nos aprisionam no inferno que é o trabalho infrutífero.

Aquele que tenta dar um “jeitinho” nas finanças, empurrando os problemas para frente, acumulando dívidas, alimentando vícios, permitindo abusos da vaidade diante da escolha de imóveis e carros, acaba condenado a fazer o eterno “trabalho de Sísifo” carregando a pedra (despesas) até o topo da montanha todos os meses e tendo que repetir esse trabalho infinitas vezes para conseguir pagar as contas e nada mais que isso.

As suas três grandes pedras

Sísifo até hoje, segundo a mitologia grega, está empurrando sua enorme pedra morro acima. As famílias brasileiras empurram pelo menos três grandes pedras que representam mais de 75% do comprometimento da renda mensal (fonte). Essas pedras se chamam:

  • Pedra 1: Despesas com habitação consomem 35,9% da renda das famílias.
  • Pedra 2: Despesas com alimentação consomem 19,8% da renda das famílias.
  • Pedra 3: Despesas com transporte consomem 19,6% da renda das famílias.

Veja todas as pedras no quadro abaixo:

No exterior não é muito diferente. Em países como EUA, mais de 60% da renda das famílias é gasta mensalmente com despesas de habitação, transporte e alimentação (fonte). Em Portugal, esse tipo de despesa também ultrapassa 60% (fonte).

É curioso observar na tabela acima que somente 3% da renda é investida em educação. É justamente esse investimento que aumentaria a renda e tornaria as despesas menos significativas. Veja que ainda temos 0,5% de “investimentos” em cigarros que resultará no aumento futuro das despesas com saúde.

Independência o trabalho de Sísifo

Somente quando você acumular patrimônio suficiente para gerar renda capaz de pagar suas despesas mensais será possível dizer que você está financeiramente independente. Quando sua renda passiva for igual ou maior que a renda gerada pelo seu trabalho será possível dizer que você atingiu um estágio de maior liberdade financeira.

Para quem tem esse objetivo é necessário acumular e multiplicar patrimônio durante o trabalho de Sísifo. Isso significa não permitir que as pedras que chegam no topo rolem inutilmente. Para poupar mais permitindo acumular esse patrimônio será necessário tomar decisões inteligentes com relação ao tamanho dessas pedras de despesas que você carrega.

Dependendo das decisões que você tomou até aqui com relação a sua moradia, transporte e alimentação, grande parte da sua renda mensal está comprometida com essa rolagem e pouco sobrará todos os meses para atingir sua independência financeira no futuro.

 

A pedra da habitação

Você provavelmente está com vontade de calcular qual percentual da sua renda está sendo comprometida com despesas de habitação, transporte e alimentação. Vou descrever rapidamente o que os institutos de pesquisa consideram para cada despesa.

No caso da despesa em habitação eles não consideram apenas os custos com o pagamento de aluguel, taxas adicionais e incidentes por atraso. Eles também consideram uma coisa chamada aluguel não monetário que é pago por todas as pessoas que possuem um imóvel próprio e que acreditam não pagarem aluguel.

A verdade é que um imóvel próprio gera um custo invisível, mas que existe. Ele é o valor estimado que você pagaria se tivesse alugado o seu próprio imóvel. Podemos dizer que esse é o custo da oportunidade que você deixou de aproveitar por morar no seu imóvel. É um dinheiro que você está deixando de ganhar por precisar fazer uso do seu patrimônio imobilizado em forma de imóvel. Se o dinheiro do seu imóvel estivesse investido ele também produziria uma renda mensal referente aos juros. Ao optar por ter um imóvel você abriu mão de uma oportunidade e isso representa um custo de oportunidade.

Como despesa de habitação ainda existem as despesas com condomínio, despesas com serviços e taxas de energia elétrica, telefone fixo, telefone celular, pacote de telefone, TV e Internet, gás, água e esgoto.

Estão agregadas na despesa de habitação as despesas com locação de imóvel (contrato, depósito de locação, etc.), seguros sobre o imóvel (incêndio, roubo, etc.) e taxas de serviços em geral. Também faz parte da despesa de habitação qualquer gasto com manutenção e pequenos reparos com habitação como: cimento, tijolo, vidro, tinta, artigos de jardinagem (planta, terra, xaxim, etc.). Também estão incluídas as despesas com serviços domésticos (faxineira, lavadeira, passadeira, jardineiro, etc.), com dedetização e também despesas com aquisição de água, lenha e carvão vegetal, etc.

Todos os artigos de limpeza usados no imóvel são despesas de habitação como água sanitária, vassoura de qualquer tipo, rodo, espanador e pano de chão.

Aquisições de eletrodomésticos e equipamentos do lar tais como: refrigerador; freezer; máquina de lavar roupas; máquina de lavar louça; fogão; aspirador de pó; forno de micro-ondas; computador; televisão, etc. são despesas de habitação. O mesmo vale para despesas com conserto e manutenção de aparelhos domésticos, móveis, eletroeletrônicos e equipamentos do lar. Também estão incluídas as aquisições de mobiliários e artigos do lar, tais como: móveis; luminárias; adornos e enfeites; roupas de cama; mesa e banho; outros têxteis (como, por exemplo, cortinas); e artigos de copa e cozinha.

Já foi possível entender por qual motivo essa é a maior de todas as pedras. Existem pessoas que trocam de móveis e eletrodomésticos periodicamente por puro lazer, falta do que fazer ou até como prêmio de consolação por acharem que merecem um mimo no final do mês depois de passar 30 dias carregando pedra. Muitas vezes móveis e eletrodomésticos são trocados sem necessidade por serem antigos ou não terem tecnologias que não são realmente úteis. A grande verdade é que sempre encontramos uma desculpa para gastar dinheiro com as despesas habitacionais e acabamos aprisionados no trabalho de Sísifo sem perceber.

Essa imagem simboliza o tamanho das suas despesas com habitação, carregadas por você todos os meses.

A pedra do transporte

Os institutos de pesquisa consideram como despesa de transporte tudo que você gasta com transporte urbano, tais como: ônibus; táxi; metrô; integração; trem; barca; transporte alternativo; bonde; e plano inclinado. Inclui também as aquisições de combustível (gasolina e álcool) para veículo próprio, manutenção e acessórios, aquisição de veículos e despesas com viagens esporádicas (avião, ônibus, etc.), estacionamento, pedágio, gás combustível e seguro obrigatório.

Dependendo do carro que você escolheu para compor o seu estilo de vida o percentual da sua renda comprometida com transporte pode ser bem mais elevada do que a média. Quando compramos veículos financiados temos a oportunidade de adquirir veículos que teríamos dificuldade para comprar se fosse através de um pagamento à vista. Esse é o grande problema dos financiamentos. Ele sempre induz a pessoa a adquirir bens de padrão superior ao padrão da sua renda. Basta que a parcela se encaixe no orçamento.

Não é difícil ouvir falar de pessoas que compraram veículos que geram despesas além das suas possibilidades. Muitas vezes as pessoas não possuem nenhuma condição financeira para ter um carro, mas querem parecer aquilo que não são. Acabam usando o veículo como decoração de garagem.

Cometer exageros na escolha do seu carro ou trocar de carro com muita frequência aprisiona você no trabalho de Sísifo. Você terá um eterno custo fixo para manter o veículo como se ele fosse um membro da sua família. Já vi casos de pessoas que gastam mais dinheiro com o carro do que com os próprios filhos.

Verifique qual o percentual da sua renda está sendo comprometida com transporte. Se ele for muito significante isso pode ser um problema.

Silvio Santos que tem 34 empresas e faturamento de R$ 4,66 bilhões por ano, até pouco tempo tinha um Ômega velho que representava um percentual sem significado diante do seu patrimônio. Agora, depois de muita insistência da família, comprou um Honda Accord. Provavelmente seus funcionários ostentam carros mais caros e luxuosos.

A pedra da alimentação

Essa pedra das despesas alimentares é representada por todo alimento comprado para consumo dentro e fora de casa. O brasileiro gasta cerca de 25% de sua renda com alimentação fora do lar. A Associação de Bares e Restaurantes (ABRASEL) estima que o setor represente, hoje, 2,7% do PIB brasileiro. A indústria da comida fora de casa fatura mais de R$ 240 bilhões de reais por ano. Isso é muito se você considerar que todo o setor alimentício fatura mais de 430 bilhões. O gasto dos brasileiros com refeições fora do lar é considerado altíssimo  (fonte).

Se comer fora de casa fosse sinônimo de ter uma alimentação saudável, a despesa seria justa. Não é inteligente fazer uma economia que prejudica a sua saúde. Quando você economiza na qualidade do alimento, acaba deixando mais dinheiro na farmácia.

O problema é que o hábito de comer fora resulta em prejuízos para a sua saúde. É como o pobre coitado do Gerson que fuma e escolhe o cigarro mais barato achando que isso significa ter alguma vantagem. Essa pesquisa aqui (leia) diz que o brasileiro não aproveita a refeição fora de casa para comer melhor, porque muitas vezes esse consumo está diretamente associado ao lazer e, consequentemente, à busca pelo prazer.

Aí… por falta de um grande objetivo você acaba procurando o prazer nos excessos da comida e bebida.

É por isso que o percentual de consumo fora do domicílio mais elevado encontrado foi o de cerveja, com 63,6%. A pesquisa mostra que, logo após a cerveja, o brasileiro consome fora de casa em grande quantidade salgadinhos industrializados (56,5%), salgados fritos e assados (53,2%), bebidas destiladas (44,7%), pizzas (42,6%), sanduíches (41,4%), refrigerantes diet ou light (40,1%), refrigerantes comuns (39,9%), salada de frutas (38,8%) e chocolates (36,6%).

Isso também faz mal para o seu bolso, além de elevar suas despesas futuras com remédios, tratamentos e antecipar o repasse da sua herança para os seus parentes.

Sobre o consumo de cerveja, existe um estudo que fizeram recentemente que é bem curioso. Alguém resolveu calcular quanto você teria se no lugar de comprar cerveja você tivesse comprado ações da fábrica de cerveja (Ambev). O consumo médio do brasileiro é de 62 litros por ano ou 8 garrafas de cerveja por mês. Partindo-se da hipótese de que o preço de uma garrafa de cerveja em 1995 fosse R$ 1, cada pessoa teria gasto R$ 8.468,74 com cerveja até hoje. Se você tivesse investido isso nas ações da fabricante de cerveja teria hoje R$ 104 mil (fonte).

O homem mais rico do Brasil é o dono da fábrica de cerveja. O hábito do brasileiro de beber cerveja faz ele faturar meio milhão por hora ou US$ 1,4 bilhão por ano (veja aqui). Dependendo de qual lado da mesa você está, (do lado que bebe ou do lado que vende) cerveja pode ser muito bom ou muito ruim para seu futuro financeiro, caso você não se incomode em ser sócio de alguém que enriquece com a desgraça alheia.

Agora imagine o uso dessa estratégia para todos os alimentos industrializados, bebidas alcoólicas e junk food (comida lixo) que consumimos durante toda a vida e que tira nossa saúde e nos aprisiona no trabalho de Sísifo. Junte a isso as despesas para redução de peso e tratamentos de saúde que esses hábitos alimentares geram.

É claro que você é livre para gastar o seu dinheiro da forma que achar melhor e essa liberdade é maravilhosa. Nem eu e nem ninguém tem nada com isso. O objetivo deste artigo e desse tipo de estudo tem relação com uma vida mais consciente. A ideia é você ter consciência plena sobre as consequências de cada decisão de consumo e investimento na sua vida.

O julgamento se a decisão é boa ou ruim com relação ao seu dinheiro é particular, somente você deve julgar. Dessa forma, você não vai sair por ai dizendo que o mundo é injusto, que só você não teve sorte com o dinheiro, e outro tipo de desculpa que as pessoas costumam usar quando passam a vida inteira tomando decisões sem avaliar as consequências.

O patrimônio que temos costuma ser exatamente o patrimônio que merecemos ter. Ele é o resultado das nossas decisões sobre a maneira como gastamos ou investimos os frutos do nosso trabalho diário.

Milionário potencial

É por este motivo que dizem que todos são milionários potenciais. O que vai determinar se esse potencial vai se concretizar no futuro depende de como você anda investindo o seu dinheiro. Se você investe cometendo exageros nas despesas habitacionais, de transporte e de alimentação a única coisa que você vai fazer durante a vida é levar pedras para o topo da montanha. Elas irão rolar até sua base exigindo que você repita o processo. Isso acontecerá até o dia que não terá mais forças e alguém terá que assumir a tarefa de rolar você montanha acima junto com suas pedras.

Se você gosta de temas relacionados com a sua independência financeira recomendo que você também acompanhe a série de artigos que estou escrevendo no site de conteúdo Premium do Clube dos Poupadores. Estamos iniciando um minicurso sobre Independência Financeira que é composto por uma série de artigos e de ferramentas com o objetivo de ajudar aqueles já estão com suas finanças equilibradas e que agora querem iniciar a escalada até a própria independência financeira, livre do trabalho de Sísifo. Para saber como ter acesso ao conteúdo Premium visite aqui e leia até o final da página. Na primeira fase do projeto, basta adquirir nossa série de livros para ganhar uma conta gratuita de acesso.

A independência financeira poupa você do trabalho por necessidade, mas não livra do trabalho para evitar os dois outros males citados por Voltaire na frase acima. O bom é que financeiramente independente você tem mais liberdade para escolher o que fazer. Para finalizar, assista o vídeo abaixo.


Na mitologia, a pedra sempre rola morro abaixo e Sísifo precisa refazer o trabalho. Na animação acima, Sísifo não deixa a pedra rolar e no final ele acaba construindo a sua própria montanha, fruto de todo o seu trabalho.