Desde a queda da Selic venho recebendo inúmeras mensagens perguntando o que fazer com o CDB, LCI, LCA, fundo de investimento, Tesouro Selic e outros investimentos pós-fixado que tenham sua rentabilidade impactada com a queda da taxa.

Se você é tomado por dúvida, medo ou pânico quando se depara com o COPOM baixando a taxa Selic, isso é um forte sinal de que você ainda não fez o investimento mais importante que existe, que é um bom investimento na sua educação financeira. Leia o artigo até o final para entender o impacto da queda da taxa Selic nos seus investimentos de renda fixa.

Primeiro responda esta questão:

Em 2015 a taxa Selic média foi de 13,21% e em 2009 ela foi de 9,89% ao ano. Qual das duas taxas parece melhor para o investidor de renda fixa?

Se você ainda não investiu primeiro na sua educação, vai responder que o ano com o melhor resultado para o investidor foi 2015, quando a rentabilidade média de um investimento que rende 100% da Taxa Selic ficou em 13,21%.

Se você já leu meus livros sobre reeducação financeira e investimentos (visite aqui para ler) sabe que é impossível responder essa pergunta sem saber qual foi a inflação (IPCA) que fez o dinheiro perder valor nos anos de 2015 e 2009. Você aprendeu que precisa descobrir a rentabilidade real dos investimentos, ou seja, descontar a inflação da sua rentabilidade para saber qual foi o verdadeiro aumento do poder de compra do seu dinheiro investido naquele ano.

Você vai verificar que em 2015 a inflação acumulada foi de 10,67%. De nada adiantou a taxa Selic remunerar 13,21% se o seu dinheiro só ficou 2,29% mais valorizado após descontada a inflação do período. Já em 2009 a inflação foi de 4,31% e mesmo com taxa Selic em 9,89% o investidor conseguiu uma rentabilidade real (acima da inflação) de 5,35%. Se a rentabilidade real dos investimentos foi de 2,29% em 2015 e 5,35% em 2009 o correto seria afirmar que o investidor teve melhor resultado em 2009 quando a Selic estava menor que 2015.

Observe a tabela abaixo onde reuni dados da Taxa Selic e inflação (IPCA) entre 1995 e 2015 e calculei os juros reais que é aquilo que realmente importa para o investidor de renda fixa.

Consegui o histórico da inflação no site do IBGE (veja aqui). Consegui a taxa Selic média simulando a taxa acumulada entre o dia 01/janeiro e 31/dezembro de cada ano através deste endereço aqui. A fórmula utilizada para calcular os juros reais é essa aqui:

Você não precisa fazer essa conta, pois criei uma calculadora de juros reais, visite aqui. Aproveitando esses dados, criei um gráfico mostrando o comportamento da Taxa Selic, IPCA e juros reais nos últimos 20 anos. Veja:

No gráfico é bem fácil perceber o impacto dos políticos na inflação, selic e juros reais. Observe que após a entrada do Guido Mantega a inflação começou a aumentar a os juros reais a despencar. A taxa Selic chegou no seu menor nível da história, graças a decisões políticas (canetadas) sem sustentação técnica. O resultado de um governo que congelou preços administrados (como no tempo do Sarney) para maquiar a inflação e baixou juros a força como propaganda eleitoral, pode ser visto na crise econômica que ocorreu logo depois.

Tenho um artigo completo e detalhado sobre os juros reais no Brasil, leia aqui. Inclusive mostro que existia uma visão diferente do Palocci e do Mantega com relação a inflação e isso gerou impacto nas taxas. Com base nas últimas notícias policiais podemos deduzir que a economia brasileira estava sendo controlada por pessoas investigadas por crimes (possíveis criminosos). Veja o destino do Palocci clicando aqui. Veja o destino do Mantega clicando aqui.

No meu entendimento, o Brasil só terá juros reais baixos, do mesmo nível praticado em países desenvolvidos, quando a nossa economia e as contas públicas forem geridas com seriedade, transmitindo confiança para a sociedade que é formada de trabalhadores, autônomos, empresários e investidores. Economias onde os juros são baixos e a inflação é baixa, são economias sólidas e confiáveis. Em economias sérias os empresários empreendem mais e melhor, os investidores arriscam mais e as oportunidades geram mais empregos e mais empregos geram mais serviços para os profissionais autônomos e mais vendas para as empresas.

Prevendo o futuro:

Como não podemos prever o futuro da Taxa Selic e da inflação, podemos olhar para o boletim Focus que é uma pesquisa que o Banco Central faz todas as semanas entre mais de 100 economistas das maiores instituições financeiras do pais. São pessoas bem remuneradas que estudaram a vida toda para prever essas taxas, da mesma forma que os meteorologistas tentam prever as condições futuras do tempo. Esses boletins são publicados semanalmente aqui. Vou usar como exemplo esse boletim aqui.

 

No início do relatório você tem o resultado médio de todos os participantes. No final do relatório você encontrará a média dos TOP 5. O Banco Central verifica quais são as instituições financeiras que mais acertaram as previsões passadas e elabora um relatório só com esses TOP 5. Usei esse relatório como exemplo aqui no artigo.

Podemos observar que os cinco economistas que chutaram melhor nas últimas pesquisas acreditam que a inflação acumulada em 2016 será de 6,83% e a Taxa Selic terminará o ano em 13,67%. Já para 2017 o chute é mais otimista com reação ao controle da inflação. Eles acreditam que teremos 4,98% de inflação em 2017 e Taxa Selic de 11,29%.

Antes de continuar vale deixar aqui um alerta:

Quando olhamos o boletim Focus do passado podemos observar que esses economistas sempre são exageradamente otimistas com relação a inflação e sempre apostam em taxas Selic menores do que acaba ocorrendo de fato.

Se você parar para pensar, isso pode fazer sentido. Esses economistas são funcionários assalariados de bancos, corretoras e outras instituições. Esses bancos oferecem investimentos para seus clientes como CDB, LCI, LCA e fundos de investimento. Se você acredita que a inflação no futuro será menor e a taxa de juros no futuro será menor, você tende a aceitar investimentos prefixados com remuneração menor no presente. Para os bancos é sempre ótimo quando você aceita receber menos para investir no banco.

Por este motivo, sempre que você olhar essas previsões otimistas das pesquisas do Boletim Focus, não esqueça que todos os economistas que emitiram opiniões são funcionários de grandes instituições e isso pode gerar alguma interferência direta ou indireta. Você lembra do caso da economista de um grande banco que foi demitida depois ter emitido uma análise pessimista sobre o futuro da economia? Recentemente ela foi indenizada veja a história aqui. Casos como esse me forçam a usar minha imaginação, e através dela supor que os economistas pensam no pagamento da escola dos filhos antes de emitir qualquer opinião contrária aos interesses dos seus patrões.

Calculando a rentabilidade real

Agora que já sabemos os chutes dos economistas para o IPCA (inflação) e Taxa Selic (juros) podemos calcular qual seria nossa rentabilidade real deduzindo a inflação, dos juros. Vamos fazer isso utilizando o nosso simulador, visite aqui.

Para 2016 os juros reais seriam de 6,4% acima da inflação:

Para 2017 os juros reais seriam de 6,01% acima da inflação:

Observe que mesmo se ocorrer uma queda de 2,38 pontos na Taxa Selic os juros reais continuam acima da casa dos 6%, que é uma taxa internacionalmente muito elevada. Se os chutes dos economistas se confirmarem e a Taxa Selic realmente atingir alguma coisa próxima de 11,29% em 2017, você continuará tendo uma rentabilidade real muito elevada nos investimentos de renda fixa. A taxa Selic tende a cair como uma consequência da queda da inflação.

Essa tabela abaixo (fonte) mostra que o Brasil continua sendo o campeão mundial de juros reais (juros com a inflação descontada).

 Conclusão:

A redução da taxa Selic vista isoladamente não é importante. A inflação é que vai determinar se aquela taxa vai garantir um ganho real ou não.  O importante é aprender a fazer essa avaliação que acabei de demonstrar neste artigo. O que realmente faz o seu patrimônio manter o poder de compra ou crescer são os juros reais dos investimentos.

Tenha cuidado quando começar a receber estímulos dos jornalistas, especialistas, analistas e economistas que ficam aparecendo na mídia dando opiniões sobre o que você deve ou não fazer com o seu dinheiro. A queda dos juros, sem dúvida nenhuma, melhora os resultados dos investimentos de renda variável como: ações, fundos multimercado, fundo de ações, fundos imobiliários, etc. Isso não significa que você deva tirar todo o seu dinheiro da renda fixa para pôr em investimentos de maior risco. Você precisa saber que para cada finalidade que você dá para o seu dinheiro existem investimentos mais apropriados.

Sua reserva para emergências, por exemplo, deve continuar em investimentos conservadores e de alta liquidez, mesmo que isto signifique juros nominais menores, pois, como falei, o importante são os juros reais. Aquele dinheiro que você está reservando para fazer a compra de um carro ou de uma casa, deve continuar fora de investimentos de risco. Neste caso o seu objetivo é preservar o poder de compra do dinheiro acima da inflação.

Já aquela parcela das suas economias que você reserva para os investimentos de risco, elas devem continuar nos investimentos de risco. Você pode até aumentar os investimentos na renda variável durante um ciclo de recuperação da economia e queda dos juros, mas você precisa se preparar primeiro para saber o que está fazendo. Faça o seu dever de casa. Nunca invista em algo por ter ouvido falar que era um investimento bom. Você não sabe se é realmente um investimento bom para a sua necessidade e realidade.

Já para quem faz a indicação do investimento, certamente é bom que você tome as decisões baseadas em recomendações. Para a bolsa de valores e para as corretoras é muito lucrativo quando você troca a renda fixa pela renda variável. Eles ganham com a cobrança de taxas em cada operação de compra ou venda de ativos de renda variável. Quando o banco consegue fazer você trocar os fundos de renda fixa pelos fundos multimercado e fundos de ações, eles conseguem cobrar taxas administrativas maiores. Quando agências que vendem relatórios de análise de investimento dizem por aí que a renda fixa morreu, é sinal que eles querem que você compre a assinatura de um relatório novo onde vão recomendar renda variável. Para se livrar de todas essas opiniões, aceite a ideia de que precisa se tornar um investidor consciente e independente.

Por este motivo o investimento inicial na sua educação é o mais importante. Pode ter certeza que no decorrer da sua vida, você sempre estará diante de decisões financeiras. Adiar esses estudos significa perder tempo e oportunidades, além de correr o risco de investir sem consciência, seguindo as recomendações de terceiros.