Uma leitora deixou o seguinte comentário:

“Confesso que, ao ler esse texto, fiquei angustiada. Juntar dinheiro para provisões, reservas de emergência, aposentadoria, deixar uma quantia para os gastos fixos e variáveis mensais. Coloquei na ponta do lápis. Minha renda não dá para tudo isso. Alguma dica?” – A.A.

A resposta que tenho para essa leitora é dura vale para todos os outros leitores que iniciam seus comentários com as palavras: “eu ganho pouco…”. Quando ganhamos pouco só temos dois caminhos a seguir. O caminho da ignorância e o da consciência.

O caminho da ignorância ou o da consciência

O caminho da ignorância é mais fácil e confortável no presente, mas cobra um preço caro no futuro. O caminho da consciência representa assumir a responsabilidade de encarar a verdade de frente, sem medo do desconforto que isso irá provocar.

Quando as pessoas iniciam a própria educação financeira, através dos meus textos e livros, elas descrevem que se sentem levando tapas de realidade no rosto. Ter contato com a dura realidade do mundo do dinheiro é equivalente a estar em um quarto escuro e, de repente, abrir uma janela permitindo que a luz do sol entre com toda a sua força. A luz do conhecimento provoca um forte incômodo naquele que ficou muito tempo nas sombras da ignorância.

Se os primeiros contatos com a educação financeira deixam você angustiado, isso é um bom sinal. Significa que você entendeu a seriedade das questões e sentiu o peso da responsabilidade que você tem com relação ao seu futuro.

É isso que incomoda muita gente. A responsabilidade que a liberdade financeira exige é um fardo que poucos querem carregar. Quando escrevi os artigos sobre cheque especial (leia aqui) e crédito consignado (leia aqui) muitos perceberam que só recorrem a esses meios de crédito por ganharem pouco ou por não saberem como estão gastando o pouco que ganham. No fundo, a busca por crédito rápido e fácil funciona como uma muleta ou como um encosto que permite empurrar os problemas com a barriga.

Quando as pessoas descobrem que deveriam ter suas próprias reservas e provisões para não dependerem dos bancos, a angustia fica maior ainda. Quando descobrem que além de fazer reservas ainda precisam pensar na aposentadoria, bate aquele desespero.

Quanto mais o seu estilo de vida exigir a compra de coisas, maior sua dependência por essas coisas.

Cada objeto que você coloca na sua vida será uma nova coisa que demandará sua atenção, seus cuidados e o seu dinheiro. Quem depende de uma vida repleta de bens materiais para ser feliz acaba ficando escravo desses bens. Não é você que tem bens, são os bens que têm você.

Quanto mais temos, mais dinheiro precisamos para manter. Isso significa mais tempo, mais esforço, mais trabalho para a manutenção das estruturas da nossa vida.

Você pode ignorar tudo isso que falei. Pode passar a vida amontoando coisas na sua casa, no seu guarda-roupa e naquele quarto sem utilidade onde você empilha as suas extravagancias e exageros de consumo. Ignore o fato de que todas essas coisas irão quebrar, envelhecer e um dia deverão ser substituídas consumindo mais tempo, trabalho e dinheiro.

Finja que o seu smartphone nunca irá quebrar e desatualizar. Finja que o seu carro não precisará de manutenção, troca de óleo e bateria. Pegue o dinheiro que você deveria manter nas suas provisões e compre mais e mais bens. Ao fazer isso você seguirá o caminho da ignorância financeira. Nunca será capaz de poupar nada ou construir um patrimônio de valor. Você sempre estará atarefado gastando seus recursos para acumular mais quinquilharias em um ciclo vicioso sem fim.

Eu conheço pessoas que não cuidam dos seus bens com o devido zelo para que possam quebrar rapidamente e isso justifique a compra de um novo. Conheço aquele que prefere comprar produtos de péssima qualidade para que durem pouco e possa ser trocado rapidamente. Atitudes que beiram a insanidade.

O mesmo vale para as despesas com emergências. Você deve considerar que imprevistos podem ocorrer. Hoje você acordou empregado e com boa saúde? Aproveite, pois sempre existe o risco de ser o seu último dia no seu emprego. O supermercado, a empresa de água, luz, internet, o banco onde você fez um empréstimo, eles não se importam se você está ou não empregado, se você tem ou não tem renda para pagar todas as suas despesas fixas.

Se você tem o mínimo de consciência sobre o fato de que coisas ruins podem ocorrer, você deveria ter o equivalente a alguns meses da sua renda mensal guardada em algum investimento. Na falta da sua renda mensal, você terá condições para viver com dignidade até conseguir um novo emprego. Não será necessário ficar devendo a ninguém, não será necessário assistir a sua família sofrendo privações diante do desemprego. Já escrevi sobre reserva de emergência, leia aqui.

Sim, juntar o equivalente a 3, 6 ou até 12 meses da sua própria renda é um sacrifício. Se você acredita que o sacrifício é muito grande, também existe o caminho da ignorância. Basta ignorar que as pessoas são demitidas, que sofrem acidentes, que ficam doentes, que passam por situações onde não conseguem ganhar o próprio sustento por algum tempo. Quando isso ocorrer, você não terá recursos, mas terá muitas desculpas para incomodar os seus parentes e os seus amigos pedindo dinheiro emprestado. Pode ter certeza que se a ajuda fosse negada isso seria ótimo para o seu amadurecimento.

Quando o assunto é aposentadoria a realidade não é menos dura. Você pode simplesmente fingir que não irá envelhecer. Existem aqueles que apostam que vão morrer jovens e fazem um grande esforço para que isso aconteça. Gastam tudo que ganham, abusam das bebidas alcoólicas, da alimentação exagerada, abusam da promiscuidade e levam uma vida descontrolada, sem limites, afogada nos exageros dos sentidos.

É através desse grande esforço que as pessoas constroem uma ilusão que chamam de vida, torcendo para que os seus exageros as levem para um fim breve, sem a necessidade de preocupações com a aposentadoria.

Poupar dinheiro para ter uma boa aposentadoria significa estar disposto a acumular uma grande quantidade de recursos. São décadas de esforços para poupar centenas de milhares ou até milhões para ter o mínimo de independência financeira. É essa independência que permitirá ter os recursos necessários para manter uma vida digna diante das limitações da idade.

Você pode escolher a ignorância. O dinheiro que iria poupar para sua aposentadoria, você pode gastar hoje mesmo. Basta executar o plano de levar uma vida repleta de exageros para encurtar a sua existência e a necessidade de ter recursos para mantê-la na velhice. Você só precisa ter o cuidado de fazer isso da melhor forma possível. Se você tiver o “azar” de chegar na sua velhice sem os recursos necessários para manter sua própria vida, terá que contar com a boa vontade dos seus filhos. Se não tiver filhos ou se eles também estiverem abusando da própria vida (seguindo o exemplo dos pais) você provavelmente dependerá do governo ou da caridade dos seus amigos e outros parentes, isso se eles também não tiverem seguido o mesmo caminho de uma vida desregrada. Já falei sobre aposentadoria em uma série de artigos.

Ganho pouco. E agora?

Só percebemos que estamos ganhando pouco quando colocamos na ponta do lápis toda a responsabilidade que temos no presente com relação a qualidade de vida que queremos no futuro.

Não ter recursos diante de um problema significa potencializar o seu sofrimento. Ter suas reservas para que a falta do dinheiro não se transforme em um problema adicional ou em fonte de sofrimento extra, exige muita dedicação e esforço durante toda a vida.

Se você ganha pouco, comece a colocar sua cabeça para funcionar e mude essa realidade. Se você ganha pouco é provável que esteja fazendo alguma coisa errada. Provavelmente você vive uma das situações abaixo:

  • Ganha pouco pelo fato do seu trabalho valer pouco. Se você escolheu uma profissão pouco valorizada, esforce-se para buscar uma que possa agregar mais valor na vida das pessoas. Sua remuneração depende do valor que você é capaz de entregar e o reconhecimento das pessoas. Se ninguém reconhece o seu trabalho e a culpa não é sua, mude.
  • Ganha pouco por trabalhar mal. O mundo está repleto de profissionais incompetentes. Existem cozinheiros, médicos, advogados, engenheiros, professores, dentistas, empresários, cantores, jogadores de futebol e outros profissionais que fazem trabalhos porcos e de baixíssima qualidade. Fazem pouco e querem ganhar muito. Fazem um trabalho porco e querem ser valorizados. São profissionais medíocres que ganham rendas medíocres. Normalmente culpam tudo e todos com relação ao seu fracasso profissional, mas são incapazes de enxergar que existem profissionais na mesma área que são excelentes. Existem pessoas que buscam a excelência e se tornam profissionais excepcionais. Transforme essas pessoas excelentes em exemplos a serem seguidos.

Você também pode ganhar pouco por não gostar do que faz. Já ouviu falar de pessoas que trabalham por amor? Sem amor pelo seu trabalho você acaba se esforçando pouco, não melhora, não entrega o seu melhor, não é excelente e acaba sendo reconhecido pelo que faz de pior.

Se você não gosta de o que faz, deveria fazer um favor para você e para toda a sociedade. Mude imediatamente. Ninguém merece ser atendido por um profissional que odeia o próprio trabalho. É um desperdício em todos os sentidos. Você se tornará uma decepção para você e para todas as pessoas que tiverem o desprazer de conhecer o seu trabalho. O mundo fica um pouco pior sempre que alguém exerce uma atividade a contragosto ou com desgosto.

Pior ainda é quando você faz aquilo que não gosta, entrega resultados medíocres, torna a vida dos seus clientes e colegas de trabalho um pouco pior a cada dia, e ainda fala para todos que só faz esse trabalho pelo dinheiro. A sua ignorância não permite enxergar o crime que está cometendo contra você mesmo, pois o seu sofrimento foi precificado, a sua vida foi precificada e certamente ela vale muito pouco. Nessas condições, você estará condenado(a) a ganhar sempre muito pouco.

Para merecer mais, invista em você e seja uma pessoa excelente em todos os sentidos. Você tem e sempre terá a vida que merece, o trabalho que merece e o salário que merece. Primeiro, mereça mais, o resto lhe será dado como acrescimento.

 

 

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