Venho recebendo dúvidas de leitores do Clube dos Poupadores sobre a existência de fundamentos que justifiquem as altas na bolsa desde o pior momento da crise.

Será que temos uma incoerência entre a recuperação dos preços das ações na bolsa e o agravamento da situação financeira das empresas e do país?

Não seria estranho o otimismo dos investidores diante de milhares mortes, empresas fechadas, falências, desemprego, crise na saúde, crise econômica e crise política ao mesmo tempo?

Será que ainda existem espaço para novas quedas antes de uma recuperação consistente?

Entre a mínima da atual crise, no dia 19/03/2020 e a máxima atingida no dia 29/04/2020, o Índice Bovespa registrou uma alta de 35,51%. Observe o destaque que fiz no gráfico logo abaixo utilizando essa ferramenta aqui.

A dúvida dos leitores pode ser resumida através da seguinte questão: Que sentido existe para a valorização das ações das empresas listadas na bolsa diante do que poderá ser a pior crise econômica já vivida no Brasil e no mundo?

Fiz algumas reflexões sobre isso e compartilho agora com você:

A alta que tivemos na bolsa esconde a desvalorização da nossa moeda frente ao dólar. Quando estudamos o Índice Bovespa dolarizado, percebemos que os preços das ações mais negociadas da bolsa continuam próximos dos menores valores que atingimos no pior momento da crise no mês de março.

É importante entender que os preços das ações das empresas, o preço das matérias primas que elas utilizam, dos seus ativos, dos produtos e serviços que vendem, importam ou exportam, costumam ser analisados em dólares.

Quando observamos o Índice Bovespa dolarizado, percebemos que ainda estamos “patinando” nas proximidades do fundo produzido em março de 2020 (no pior momento da crise até aqui), em uma região onde também tivemos a formação de fundos em crises passadas (veremos exemplos mais na frente).

Logo abaixo temos uma forma de estudar o Índice Bovespa dolarizado através do EWZ, principal ETF negociada no exterior que replete o desempenho do Índice Bovespa dolarizado (veja o gráfico interativo aqui). Observe o estudo que fiz usando a ferramenta de análise técnica:

Observe que fiz anotações no gráfico com diversos eventos relevantes na atual crise. Para quem não tem familiaridade com a análise técnica, de forma bem simplificada: barras vermelhas, em um gráfico diário, simbolizam um dia em que o preço do ativo terminou valendo menos do que valia na abertura das negociações. Já as barras verdes representam dias de alta, quando o preço do ativo se valorizou no dia.

Observe no gráfico acima que seria necessária uma alta de 140,71% (no índice dolarizado) para uma verdadeira recuperação de toda a queda registrada no período inicial da crise. Observe que estamos longe dessa recuperação total. O Índice Bovespa ainda se encontra oscilando lateralmente em níveis próximos do último fundo quando observado na sua forma dolarizada.

A linha azul nos mostra a média móvel exponencial dos últimos 9 dias. Ela é muito útil para a observação da tendência sem todos os “ruídos” diários ou fortes oscilações de curtíssimo prazo. Veja abaixo como fica o gráfico anterior quando desligamos as barras diárias de preço (candles) e mantemos apenas a média móvel dos últimos 9 dias:

Perceba através da linha azul do gráfico acima que as médias ainda estão nos mesmos níveis que estavam no início dessa crise, sem qualquer recuperação significativa no Índice Bovespa dolarizado. A alta que observamos no índice em reais não considera que a nossa moeda não vale mais o que estava valendo antes da crise.

Para entender melhor, imagine um ativo como o ouro que é negociado no mundo inteiro. Quando você observa a alta do preço do ouro em reais, não necessariamente essa alta reflete o aumento do preço do ouro que tem seu valor internacional. Pode ser que a nossa moeda tenha perdido valor e agora será necessário mais reais para comprar a mesma quantidade de ouro.

No gráfico logo abaixo temos o gráfico mensal do Índice Bovespa dolarizado de 2001 a 2020 com destaque para os fundos das crises de 2002, 2008 e 2016. Aqui teremos algumas observações curiosas.

Observe a caixa de texto “Crise em andamento”. Veja que ainda estamos próximos do menor nível atingido em março. Perceba que estamos abaixo da linha vermelha horizontal. Ela marca o menor nível atingido pelo índice na crise de 2008.

A distância que temos entre o último fundo de março de 2020 e o topo histórico dolarizado de maio de 2008 é de 407,50%, ou seja, seria necessária uma alta de 407,50% no Índice Bovespa dolarizado para que pudéssemos atingir aqueles níveis elevados perdidos antes da crise de 2008. Podemos constatar que, em dólares, o Índice Bovespa nunca se recuperou da crise de 2008.

Quase tudo que foi conquistado (pelo índice Bovespa) depois de crise de 2016 acabou sendo perdido em apenas 2 meses da atual crise. Veja que também tempos uma linha horizontal preta que destaca o fundo da crise de 2016. Em dólares, podemos dizer que perdemos quase toda a alta do Índice Bovespa (dolarizado) desde a crise de 2016 e voltamos para patamares abaixo de 2008.

Perceba que existiram poucos momentos na história em que a bolsa atingiu níveis tão baixos.

Isso não significa que já temos o necessário para justificar uma recuperação.  Temos um clima de pessimismo entre investidores internacionais com relação ao Brasil. Um bom exemplo do pessimismo estrangeiro pode ser visto nessa reportagem (tradução) da Bloomberg.

A reportagem destaca:

A turbulência aparece nos preços dos ativos, com níveis que se destacam mesmo em um ano sombrio para os mercados emergentes. O real brasileiro caiu cerca de 30% este ano, de longe a moeda com o pior desempenho do mundo. Já o índice de referência, Índice Bovespa, perdeu mais da metade de seu valor em dólar, ficando atrás de todos os principais pares (países emergentes). A diferença entre o preço das ações que compõem o maior ETF de país em desenvolvimento (EEM) e o dedicado às ações brasileiras (EWZ) aumentou para o mais alto já registrado.

Logo abaixo eu criei um gráfico mostrando o EEM (linha laranja), que é o ETF que mostra o desempenho das bolsas dos países emergentes e o EWZ que mostra o Índice Bovespa dolarizado. A reportagem destaca que a diferença entre os dois (EEM e EWZ) é a maior já registrada e isso se explica pela desvalorização da nossa moeda em conjunto com a queda no preço das nossas ações.

Reflexão 3

Nos EUA, também existe algum espanto sobre a recuperação da bolsa americana desde o seu pior momento da crise. Em uma das edições da revista The Economist, foi destaque a “lacuna” que existe entre a recuperação da bolsa e a situação difícil que passa a economia do país (veja aqui).

A liquidação estressante das ações foi seguida por uma manifestação delirante na América. Entre 19 de fevereiro e 23 de março, o índice s&p 500 perdeu um terço de seu valor. Com apenas uma pausa, desde então disparou, recuperando mais da metade de sua perda. O catalisador foi a notícia de que o Federal Reserve (Equivalente ao Banco Central) compraria títulos corporativos (debêntures), ajudando grandes empresas a financiar suas dívidas. Os investidores passaram do pânico ao otimismo sem perder o ritmo (reportagem completa).

Existe a clara percepção de que a recuperação da bolsa americana está distante de refletir uma recuperação na situação econômica das empresas e das pessoas.

Só que devemos considerar o grande peso das empresas de tecnologia no principal índice da bolsa americana (S&P500). Essas empresas de tecnologia podem se beneficiar diante de um mundo pós-crise. Empresas como a Alphabet (Google), Amazon, Apple, Facebook e Microsoft representam um quinto do índice S&P 500.

No Brasil é relativamente fácil obter o mesmo desempenho da bolsa americana, incluindo ganhos com a alta do dólar, fazendo uso dos investimentos através dos ETFs.

Uma recuperação consistente das ações de maior peso no Índice Bovespa depende de uma maior demanda pelos commodities que vendemos para o mundo e mais disposição para investimentos em países de maior risco como o Brasil. Isso certamente ainda levará tempo.

Devemos entender que as principais ações da bolsa brasileira, especialmente as de maior peso no Índice Bovespa, estão com níveis de preço em dólares que são raramente vistos na história. Mas também devemos compreender que qualquer investimento feito na bolsa de valores nesse momento deve considerar o risco de uma piora da situação antes de ocorrer alguma melhora consistente (recuperação da economia com recuperação das receitas das empresas).

É fundamental se preparar para tomar boas decisões nos seus investimentos de renda variável e fixa, especialmente quando vivenciamos momentos difíceis. Estudos como esse que faço para meu uso pessoal, você também pode fazer através de conhecimentos como os que você encontrará nos meus livros, visite aqui.

Agora venho trabalhando muito para concluir o meu novo livro sobre investimentos por ETFs em ações brasileiras e ações da bolsa americana. Se nenhum imprevisto acontecer durante essa pandemia, ele deve ser concluído no decorrer do mês de junho e avisarei a todos os leitores do Clube que recebem meus e-mails sempre que novos artigos são publicados. Para cadastrar seu e-mail visite aqui.

Observação: por algum tempo vou manter a área de comentários desligada, enquanto preciso dedicar mais tempo para concluir o novo livro. Caso queira entrar em contato utilize o formulário “contato” no menu superior do site.

Recomendo a leitura de dois livros: Como Investir na Bolsa: Análise Fundamentalista e o livro Como Investir na Bolsa: Análise Técnica. Conheça todos os nossos livros sobre investimentos visitando aqui.

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