Existe um mecanismo muito estranho na bolsa de valores, pouco conhecido por investidores iniciantes e que parece tão absurdo que costuma ser difícil de entender no primeiro momento.

Se trata da possibilidade de ganhar muito dinheiro quando os preços das ações estão em queda livre. A bolsa permite que você ganhe dinheiro exatamente quando todos estão perdendo dinheiro. Para tornar a coisa mais estranha, você pode fazer isso vendendo ações que você não tem.

Em qualquer mercado onde as pessoas compram e vendem qualquer coisa, seria considerado estelionato vender uma coisa que você não tem. Pior ainda seria alugar uma coisa de alguém e depois vender essa coisa sem ser sua.

É assim que a venda a descoberto funciona na bolsa de valores do Brasil e de diversos países do mundo (você verá no artigo que alguns países estão proibindo essa prática).

Justamente quando as ações das empresas estão com preços em queda, durante momentos de crise, muitos especuladores entram na bolsa vendendo ações que não possuem.

Vou apresentar aqui um exemplo didático para você imaginar como isso é absurdo.

Imagine que você ficou sabendo que os preços dos carros estão caindo fortemente. Você entra em uma locadora de carros e aluga um veículo pagando R$ 100 por dia de aluguel.

Logo depois você coloca um anúncio vendendo esse veículo (que não é seu) por R$ 30.000,00. Normalmente esse mesmo carro é oferecido no mercado por R$ 40 mil. Como você ofereceu o carro por R$ 30 mil, rapidamente apareceram compradores felizes pela oportunidade de comprar o carro com enorme desconto. Então você vende o carro da locadora e coloca R$ 30 mil no bolso. Enquanto isso, você continua pagando R$ 100 por dia para a locadora.

Milhares de outras pessoas começam a fazer a mesma coisa. Elas estão alugando carros e os vendendo por R$ 30 mil ou menos. Quanto mais a oferta de carros a venda, mais os preços começam a cair. Até que os verdadeiros donos dos carros, que os estavam oferecendo por R$ 40 mil, entram em desespero e começam a vender carros por R$ 20 mil.

Nesse momento, você pega os R$ 30 mil que recebeu quando vendeu o carro da locadora e compra um carro identifico pagando R$ 20 mil. Você vai até a locadora e devolve o carro e para de pagar a locação. Você ficou com R$ 10 mil de lucro vendendo um carro que nunca foi seu. Você produziu uma oferta de veículo no mercado que não deveria existir, pois a locadora do carro (dona do veículo) jamais colocou seu carro para venda.

É claro que nesse exemplo temos um produto que é identificado por placas e chassis que são únicos. Jamais a locadora aceitaria receber outro carro que não fosse o carro que você alugou. Mas imagine que você fizesse isso utilizando um tipo de produto que é sempre o mesmo, como ações negociadas na bolsa ou moedas como o dólar.

A bolsa de valores permite que os donos de ações aluguem suas ações. Basta autorizar a corretora para que ela faça esse tipo de aluguel para você de forma automática, sem que você precise fazer nada. Você receberá uma pequena taxa de aluguel (muito pequena mesmo) sempre que algum especulador resolver alugar suas ações para poder vendê-las quando o preço de suas ações estiver em queda.

Isso significa que ao alugar suas ações, você está colaborando para que especuladores façam o preço das suas ações caírem, pois eles vão vender suas ações sem as ter por preços cada vez menores, empurrando o mercado para baixo.

O mercado terá mais vendedores de suas ações do que compradores. A disputa entre os vendedores fará o preço da ação cair cada vez mais. Quando suas ações não estiverem valendo muita coisa, o especulador irá comprar essas ações por quase nada para as devolver para você.

Com isso você terá suas ações desvalorizadas e algumas migalhas recebidas na forma de aluguel. Normalmente é menos de 1% ao ano e o especulador ficará com sua ação por poucos dias, pagando uma taxa proporcional.

E para tornar tudo isso ainda mais estranho. O especulador também pode vender ações sem as ter e sem as alugar, pois basta vender a ação sem as ter e comprar as ações novamente no mesmo dia. Se você vender caro e comprar barato, a diferença será depositada na sua conta na corretora. Se você vender a ação e depois a comprar mais caro, você terá a diferença descontada na sua corretora.

Embora essa prática seja legal, no meu entendimento e no entendimento de muitos investidores ela é uma prática que produz distorções no mercado, produzindo mais malefícios do que benefícios a todos os investidores.

Os preços de uma ação deveriam ser o resultado da legitima oferta e demanda por ações. Quando você permite que as pessoas vendam as ações sem as ter, você acaba produzindo uma oferta de ações que nunca deveria ter existido. Isso certamente prejudica todos os investidores que compram ações pensando no longo prazo.

Nesse mercado existem muitos investidores de grande porte envolvidos. Investidores profissionais ganham dinheiro quando as ações sobem, por as ter em carteira e ganham dinheiro quando essas mesmas ações caem por terem realizado operações de venda a descoberto ou “short selling”, que é a venda de ações alugadas.

Eu não recomendo que você tente fazer esse tipo de operação por ser muito arriscada. A maioria das histórias de pessoas que quebraram na bolsa envolvem a venda de ações alugadas. O motivo é simples. Quando você compra uma ação, o máximo que você pode perder é 100% do valor investido, pois na queda do preço da ação existe um limite que é o número zero. Já quando você faz uma operação vendida, você perde dinheiro quando o preço da ação sobe e para cima não existem limites. Uma ação pode subir 100%, 200%, 1000% ou mais.

No Circuit Breaker que aconteceu no dia 12/03/2020, um dos maiores investidores (pessoa física) do Brasil deixou um depoimento, junto com sua filha, fazendo duras críticas a esse mecanismo de “venda a descoberto” que tanto prejudica os investidores que compram ações como investimento. Para assistir ao vídeo em tela cheia visite aqui.

Vídeo gravado pela Louise Barsi, filha de Luis Barsi, maior investidor pessoa física do Brasil, com mais de R$ 1 bilhão em ações, durante o histórico dia do Circuit Breaker que fez a bolsa de valores parar no dia 12/03/2020.

Barsi destaca no vídeo o exemplo da Petrobras que possui mais de 130 milhões de ações alugadas. Essas ações foram alugadas e depois oferecidas a preço de banana no mercado. Se trata de uma oferta artificial, que nunca deveria ter existido. A oferta real de ações a venda só existe quando os verdadeiros donos das ações estão dispostos a vender seus ativos. Os preços não cairiam tanto durante as crises se a venda de ações alugadas deixasse de existir. O mecanismo de venda de ações alugadas acaba produzindo graves distorções quando aumenta a oferta e demanda por ações, especialmente em momentos de crise.

Nessa sexta-feira 13, a Itália proibiu a venda a descoberto de ações. Veja a notícia.

A reportagem acima fala que a entidade que regula o mercado da Itália disse que está introduzindo uma proibição definitiva de venda a descoberto de 85 ações depois que a bolsa de Milão caiu 17% na quinta-feira (12/03/2020), registrando sua pior perda de todos os tempos, devido a uma crise de coronavírus no país. A proibição definitiva impede a venda de ações que foram emprestadas anteriormente, reforçando a proibição existente de venda a descoberto.

Eu até entendo que a venda de ações alugadas funciona como um mecanismo de proteção, mas, na prática, o mecanismo tem seus efeitos colaterais que está na distorção das forças de oferta e demanda. Uma minoria de operações especulativas acaba distorcendo os preços do mercado, gerando pânico entre pequenos investidores e prejudicando aqueles que investem em ações com objetivos de longo prazo.

É claro que para a bolsa de valores e corretoras não existe interesse nenhum de desestimular essa prática, pois assim como essas operações especulativas produzem lucros para quem as realiza, também gera um enorme lucro adicional para a bolsa, pois ela cobra taxas percentuais sobre cada real que é movimentado. O giro produzido por vendas de ações alugadas movimenta grandes fortunas todos os dias. Não é lucrativo para a bolsa de valores, nem para as corretoras, que as pessoas comprem as ações e as mantenham por mais tempo.

Recomendo a leitura de dois livros: Como Investir na Bolsa: Análise Fundamentalista e o livro Como Investir na Bolsa: Análise Técnica. Conheça todos os nossos livros sobre investimentos visitando aqui.

Receba novos artigos por e-mail: