Sempre recebo perguntas de leitores relacionadas com a estratégia de comprar dólares como investimento de longo prazo, normalmente com foco na aposentadoria. Essas perguntas se intensificam quando estamos vivendo momentos de crise como agora. O maior problema de quem investe com foco no longo prazo é garantir o poder de compra do dinheiro.

São as incertezas sobre o futuro da economia brasileira que conduz as pessoas para uma reflexão sobre comprar moeda estrangeira ou até investir fora do Brasil.

Existe uma crença na cabeça das pessoas sobre a estabilidade do dólar. Acumular patrimônio em dólares parece mais seguro do que acumular patrimônio em reais. Existe a ideia de que o dólar é uma moeda forte e o real é uma moeda fraca. Existe a crença de que o dólar é estável e o real instável.

O objetivo deste artigo é fazer uma reflexão sobre o tema de tal forma que você possa fazer suas próprias simulações (vou mostrar diversos exemplos) e com isso possa tirar suas próprias conclusões.

Vamos começar…

Como não podemos prever o comportamento futuro do dólar iremos estudar o seu passado.

Infelizmente as pessoas só pensam na possibilidade de comprar dólares quando ele está muito caro. Você conhece alguém que tenha ficado motivado a investir no dólar quando ele estava custando menos R$ 1,60 nos anos de 2008 e 2011? As pessoas só lembram de comprar dólares quando a nossa economia está em crise e a moeda americana atinge picos de alta como aconteceu em 2001, 2002,  2009 e agora em 2015 e 2016.

O gráfico abaixo (veja onde ele foi criado) mostra a variação do preço do dólar entre 01-01-2001 e 01-01-2016. Se você tivesse investido em dólares em 2001 com foco no longo prazo, hoje, 15 anos depois, teria 103,03% de ganhos. Você teria o dobro do que investiu. Parece muito? A caderneta de poupança rendeu 214,94% no mesmo período (fonte). A inflação americana foi de 33,9% (fonte). Já a inflação brasileira (medida pelo IPCA) entre o início de 2001 e 2016 ficou em 166,90% (fonte).

Como o preço do dólar flutua a sua rentabilidade depende do momento da compra da moeda. Se você tivesse comprado esses mesmos dólares nos primeiros dias de 2003 seus ganhos seriam de apenas 11,92%. Veja o gráfico abaixo.

Só pensamos na possibilidade de comprar dólares para proteger nosso patrimônio quando estamos no meio de crises. É justamente na crise que nossa moeda desvaloriza e o dólar atinge seus maiores preços. Nessas condições dificilmente o dólar terá maior rentabilidade que a renda fixa.

Simulações com renda fixa:

Os investimentos de renda fixa pós-fixados (que são os mais conservadores) costumam render um percentual da taxa DI. É o caso do LCI, LCA e CDB pós-fixado. Fundos de investimento DI e de Renda Fixa também tendem a seguir os movimentos da taxa DI (CDI). Já o título público Tesouro Selic segue a Taxa Selic que tende a ser ligeiramente maior que a Taxa DI.

Através dessa página aqui eu mostro como você pode simular quanto o seu dinheiro teria rendido se você tivesse feito investimentos que seguem a taxa DI (CDI) nos últimos anos ou nas últimas décadas.

Vamos aplicar os exemplos acima neste simulador. Vamos imaginar que no lugar de ter comprado dólares nos primeiros dias de 2001 você tivesse feito investimentos que seguem a taxa DI. Vamos imaginar que você investiu R$ 10.000,00. O resultado da simulação que fiz nessa página aqui seria:

Seus R$ 10 mil investidos no primeiro dia útil de 2001 (02/01/2001) teria rendido 580% nestes 15 anos. Você teria R$ 68.055,97 brutos. A caderneta de poupança rendeu 214,94%.  Se tivesse investido o mesmo valor em dólares estaria com R$ 20.303,00 (equivalente a 103,03% de valorização). Para simular a correção do valor investido pela taxa Selic utilize esse simulador aqui. Utilizando as mesmas datas o resultado seria de 586,62% entre 2001 e 2016.

Nadando contra a maré:

Agora vamos imaginar que você pensou fora da caixa. Você acordou nos primeiros dias de janeiro de 2011 com a convicção de que iria investir em dólares com foco no longo prazo. Enquanto todo mundo comprava dólares para viajar em 2011, você resolveu comprar dólares para investir. Vamos imaginar que você investiu R$ 10 mil em janeiro de 2011 e pagou R$ 1,68 por dólar.

Enquanto isso seus amigos também estavam comprando dólares, só que o investimento deles era bem diferente do seu. Enquanto você estava comprando para acumular patrimônio eles estavam comprando dólares para queimar patrimônio. Os investimentos em dólares dos seus amigos foram transformados em viagens para Miami, frascos de shampoo Aussie, perfumes da Victoria Secret´s, moletons da GAP, camiseta da Aéropostale, Hollister e outras marcas que só o brasileiro acredita que são boas (fonte).

Leia também:  POLÍTICA CAMBIAL: Por que o dólar sobe?

Veja qual foi o resultado desse comportamento de massa em 2011:

Em plena crise internacional, os turistas brasileiros dobraram seus gastos pelo mundo e, em 2011, ocuparam a segunda colocação entre os que mais expandiram seus gastos entre todas as nacionalidades (gastaram mais de US$ 21 bilhões). Dados da Organização Mundial do Turismo mostram que os brasileiros já estão próximos de entrar na lista das dez nacionalidades que mais gastam ao sair em viagem. Entre 2010 e 2011, os brasileiros aumentaram seus gastos no exterior em 32%, taxa superada apenas pelos chineses (38%). A taxa de expansão do dinheiro deixado pelo mundo pelos brasileiros é mais de seis vezes superior ao crescimento dos gastos de americanos e europeus – Fonte Estadão .

Estamos em 2016 e os fracos de Victoria Secret´s já estão vazios e as camisetas da Aéropostale dos seus amigos já estão furadas. Agora vamos ver como estaria seu investimento. O gráfico abaixo mostra que você teria seu dinheiro multiplicado em 138,28% entre a primeira semana de 2011 e 2016. Se você tivesse investido R$ 10 mil teria R$ 23.828,00.

Agora vamos comparar com o resultado de um investimento em renda fixa. Se você tivesse investido em renda fixa que rendesse 100% da taxa DI (CDI) sua rentabilidade, no mesmo período, seria de 64,03% e seus R$ 10 mil teriam se transformado em R$ 16.403,64.

Comparando o dólar e a renda fixa, você será forçado a pensar que investir em dólares teria sido uma boa ideia. O problema é que você jamais se sentiria motivado a comprar dólares no momento em que ele vivia um ciclo de desvalorização (valorização do real frente ao dólar). Você provavelmente teria feito os planos de viajar para Miami e Orlando. Não tenho nada contra viagens para a prática do consumismo, desde que você tenha consciência do que está fazendo.

Dólar e as Crises:

No gráfico acima é fácil perceber que existe uma enorme relação entre o preço do dólar e a ocorrência de crises econômicas. As crises sempre aconteceram e por isto devem continuar acontecendo. O problema é que ninguém é capaz de dizer quando uma nova crise irá acontecer. Observe que os motivos das crises que fazem nossa moeda perder valor são os mais diversos. Veja que os movimentos de valorização do dólar acontecem de maneira abrupta. Em semanas o dólar atinge picos e depois recua gradativamente no decorrer de muitos meses ou anos.

Não podemos afirmar que o padrão do passado se repetirá no futuro. A economia dos EUA está se recuperando, mas nada impede que uma nova crise aconteça nos próximos anos. A única certeza que temos é que sempre será muito difícil comprar dólares com algum nível de certeza de que teremos ganhos acima da renda fixa quando o nosso horizonte é de longo prazo (mais de 10 anos).

No curto prazo é possível especular, desde que a pessoa entenda o que está fazendo e gerencie seus riscos (isso exige experiência e investimento na sua educação). Para o longo prazo devemos lembrar que vivemos no país que possui as maiores taxas de juros do mundo (infelizmente) e por isso os ganhos com a renda fixa são significativos. Não é a toa que mais de 18% de todos os títulos públicos brasileiros são comprados por investidores estrangeiros (veja nesse artigo).

Fica bem claro que comprar dólares depois de fortes altas, no meio de crises econômicas, não parece ser a melhor de todas as opções. Durante as crises os juros tendem a subir e atingem taxas muito elevadas. Isso torna a renda fixa atrativa.

Dólar x IBOV

Já o movimento do preço do dólar e do preço das ações na bolsa tendem a ter uma correlação negativa. Quando um sobe o outro cai. Olhando o gráfico abaixo é possível observar claramente que um espelha o outro, mesmo com as constantes intervenções do Banco Central.

Dólar x Selic

O gráfico abaixo mostra o comportamento da taxa Selic (linha azul) e o movimento do dólar (linha vermelha). É fácil perceber que quando o dólar está em alta a taxa Selic também está acompanhando o movimento de alta. Quando o dólar está em queda a taxa Selic também inicia um ciclo de queda. O movimento não é tão sincronizado já que o Banco Central só toma decisões sobre os juros a cada 45 dias (através das reuniões do COPOM). O Banco Central também tem o poder de interferir na cotação através das suas políticas cambiais (já escrevi sobre isso).

 

Prever o dólar futuro:

Você não deve tentar prever o movimento do dólar. No curtíssimo prazo pode até ser possível adivinhar se o dólar irá subir ou cair. Se você pedir para uma criança de 5 anos de idade prever se o dólar irá subir ou cair ela terá 50% de chance de acertar, pois só existem estas duas possibilidades (desconsiderando a possibilidade de o preço não sofrer variação, por ser uma situação difícil diante da enorme volatilidade do dólar).

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Para provar que é praticamente impossível acertar o movimento do dólar (sem contar com a sorte) basta olhar as previsões do Boletim Focus. Esse boletim é o resultado de uma pesquisa que o Banco Central faz semanalmente entre os economistas-chefes das 100 maiores instituições financeiras do Brasil. São os economistas mais bem pagos do país e provavelmente são os mais qualificados (com doutorados, mestrados e PhD em instituições renomadas).

Se você baixar o Boletim Focus de janeiro de 2015 verá que estes economistas previam que o dólar atingiria o final de 2015 valendo R$ 2,71. O dólar terminou valendo R$ 3,96 (poucos dias depois da virada do ano passou de R$ 4,00). Eles também fizeram previsões sobre a taxa de juros que deveria terminar o ano em 12,50% e terminou em 14,25%. A inflação, segundo os maiores economistas do Brasil, terminaria 2015 em 6,56% e terminou acima de 10%.

O próprio Banco Central, repleto de técnicos altamente qualificados e experientes, não consegue fazer previsões sobre variáveis que ele  pode interferir como é o caso da inflação. Estamos falando de uma instituição grande que tem como principal objetivo manter o valor da nossa moeda (controlar a inflação). Veja no próximo gráfico as previsões do Banco Central feitas no final de 2014 sobre como seria o comportamento da inflação em 2015.

A linha marrom mais escura é a previsão do Banco Central para a inflação. As linhas claras são as probabilidades otimistas e pessimistas para a inflação. O Banco Central acreditava que a inflação acumulada (dos últimos 12 meses) no final de 2016 seria próxima de 4,5%. Hoje os economistas mais otimistas falam que a inflação terminará 2016 entre 7% e 8%. Os mais pessimistas fazem previsões de inflação passando dos 10% no final de 2016.

Aqui temos as projeções para 2016 e 2017 feitas em dezembro de 2015. Os erros nas projeções passadas foram tão grandes que fica difícil confiar nas projeções para este ano. Aqui seria o gráfico de possibilidades para a  inflação em 2016 e 2017. O Banco Central acredita que terminaremos 2016 com inflação próxima de 6% e no final de 2017 teremos inflação próxima de 4%.

Vale lembrar que os economistas e os técnicos do Banco Central não chutam esses valores. Eles fazem cálculos complexos, analisam dados das maiores consultorias econômicas e políticas do país, acessam informações que nenhum cidadão comum seria capaz de compreender. Mesmo assim as previsões são extremamente falhas. As vezes temos a impressão de que as previsões dos economistas dos grandes bancos e do governo são erradas de propósito, para que as pessoas tomem decisões erradas de investimento e alguém tire proveito dessas decisões.

Dólar como reserva de valor ou investimento:

Diante de todos esses exemplos fica muito difícil adotar o dólar como investimento com foco no longo prazo (pensando na aposentadoria). Para prazos curtos existe as especulações (eu não recomendo para quem é conservador ou leigo). Para prazos médios é possível investir no dólar utilizando uma estratégia de alocação de ativos. Como existe uma relação inversa entre dólar e bolsa de valores, quando a bolsa passa por uma tendência de queda o dólar passa por uma tendência de alta. Quando a bolsa está em alta o dólar está em queda. Não é uma regra, mas é um comportamento comum e fácil de observar no passado.

Sempre existe um momento onde temos uma inversão de tendência. Enquanto muitos estão vendendo suas ações com grandes perdas para buscar a segurança do dólar no momento das crises, alguns estão fazendo o movimento contrário que seria vender dólares adquiridos no passado para comprar boas ações que ficam baratas no olho da crise. O difícil é sempre ter o conhecimento necessário para nadar no sentido contrário das multidões.

O dólar também pode e deve ser utilizado como reserva de emergência em moeda estrangeira. Para algumas pessoas esse tipo de reserva é importante, principalmente a pessoa tem despesas em moeda estrangeira. O mesmo vale para aqueles que tem planos de assumir despesas em dólares (como os custos de uma viagem). O problema é sempre querer comprar quando todo mundo quer comprar e querer vender quando todo mundo quer vender.

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