A Apple está lançando seu novo iPhone 6, repleto de tecnologias que as pessoas não precisam, embora acreditem piamente que são absolutamente necessárias. Milhares de pessoas estão neste momento enfrentando filas, muitas dormiram nas ruas por vários dias, para serem as primeiras a comprar o novo aparelho.

Fila de 1.200 pessoas na frente da loja da Apple na cidade de Sydney:

Sou administrador de empresas por formação, trabalhei com marketing por muito tempo, hoje sou educador financeiro e sempre que vejo estas filas penso comigo mesmo: “É incrível como as pessoas se deixam manipular pelas empresas”.

Não tenho nada contra a Apple ou contra as pessoas que consomem seus produtos. As pessoas são livres para gastarem o próprio dinheiro da forma que acharem melhor. Vou aproveitar a situação para expor minha livre opinião sobre o consumo de marcas com base na educação financeira que acredito.

A marca te faz uma pessoa especial?

Conheço pessoas que se sentem mais inteligentes que outras, por utilizarem determinadas marcas. Pagam mais caro para terem acesso a recursos que não precisam e que não serão úteis na mesma proporção do preço que estão pagando. Mesmo assim, exibem suas aquisições como se desejassem provar que sabem fazer boas escolhas. Ainda se tornam propagandistas da marca entre amigos e parentes. São influenciadas e ajudam a influenciar outras pessoas a consumirem determinadas marcas, sem perceber que estão a serviço de um jogo comercial.

Este comportamento em que o consumidor defende e propaga a marca, de forma fanática, não ocorre por obra do acaso. Tudo isso é muito bem planejado, estudado e executado. Por isso, as pessoas não são culpadas por se comportarem assim. Os fãs de grandes marcas são vítimas de uma indústria de marketing que gera muitos lucros para as empresas e ao mesmo tempo, gera desequilíbrio financeiro, cobiça e até sofrimento para uma parcela da população que fica excluída.

O objetivo de muitas marcas é oferecer produtos exclusivos, no sentido de exclusão mesmo, ou seja, nem todo mundo terá condições de ter o produto e isto é uma característica desejável. É uma segregação planejada já que isto agrega valor ao produto perante determinado público. (exemplo)

Mentes que manipulam mentes

Tudo faz parte da estratégia, muito bem planejada, de grandes empresas. As grandes mentes da comunicação, marketing e propaganda estão a serviço de grandes grupos da indústria. Todo comportamento fanático de consumo é muito bem arquitetado, não é obra do acaso. Produzir fãs no lugar de consumidores é o objetivo de muitas marcas.

Você precisa entender mais sobre como estes mecanismos ocorrem dentro das empresas e como isto impacta na sua vida. Assim você não permitirá que utilizem você como propaganda ambulante de produtos e marcas.

A base da questão está na diferença entre necessidade e desejo. As empresas fazem de tudo para confundir as duas coisas. Muitas vezes você acredita que necessita de determinado produto, quando na verdade apenas deseja o produto.

Desejos são infinitos, necessidades são finitas

Você precisa entender que desejos são infinitos e jamais são plenamente satisfeitos. A satisfação de um desejo é o fim de um processo que logo da início a outro desejo. Muitas vezes desejar é mais prazeroso do que satisfazer o desejo. Esperar o novo iPhone 6 é mais prazeroso que ter o iPhone 6 e por isto existem pessoas que viajam para o exterior para esperar, junto com outras, no meio das ruas em longas filas.

É por isto que as empresas precisam criar o iPhone 1, 2, 3, 4, 5 e 6, pois os desejos precisam ser realimentados constantemente. Muitas vezes a diferença entre uma versão e a outra é mínima e agregam poucos recursos que não justificam a troca do aparelho, mesmo assim desejo pela nova versão se torna incontrolável.

As empresas sabem que quando você deseja um produto, a última coisa que você olha é o preço. Quando você, apenas necessita do produto, faz uma pesquisa e busca a loja e a marca que oferece o melhor preço com o melhor benefício. Quem deseja um produto, deseja de forma emocional e irracional.

Quem necessita de um produto, compra com racionalidade, observa as características técnicas e compara estas características com suas necessidades reais.

Procure desculpas para pagar mais caro

Quem deseja um produto procura desculpas, justificativas e motivos para comprar o objeto desejado sem se sentir bobo. Normalmente a própria empresa oferece uma lista de justificativas e motivos racionais para este público que precisa de desculpas para pagar mais caro por um desejo.

Visitando sites especializados, encontrei listas de informações para que as pessoas possam justificar a necessidade de troca do iPhone 5 por um iPhone 6:

  • Ele é 25% mais rápido que o anterior;
  • 50% mais eficiente em gráficos de jogos;
  • Ele tem 128GB de espaço, o anterior possui 64GB;
  • Novo protocolo Wi-fi;
  • Chip avançado de movimento que sabe se você está andando ou correndo;
  • Bateria que dura 50 horas tocando música no lugar de 40 horas;
  • Tela com 4,7 polegadas, 0,7 polegadas a mais;
  • Antes tinha 7,6 mm de espessura, agora tem 6,9 mm (você já viu o que é 1 mm?);

5 vezes mais caro para não esperar

A compra movida por desejos é nociva para o seu bolso. Li uma notícia que fala de pessoas que estavam comprando vagas nas filas do lado de fora das lojas da Apple. Os primeiros lugares na fila estavam sendo vendidos por US$ 1.200,00. O iPhone 6, em sua versão mais simples, custa US$ 300,00 e na versão mais completa custa US$ 500,00. (fonte)

O desejo não se limita a ter a posse do aparelho. As pessoas desejam ser as primeiras a comprar o aparelho por acreditarem que isto as fazem mais importantes ou especiais perante as outras. Quanto mais pessoas souberem que você foi um dos primeiros a comprar o iPhone 6, mais especial você se sentirá.

A pessoa que vendeu o lugar na fila por US$ 1.200,00 poderá voltar para o final da fila para adquirir até quatro iPhones com o dinheiro que ganhou. Observe que o desejo não admite espera. A pessoa prefere pagar 5 vezes mais para satisfazer o desejo imediatamente, sem precisar esperar na fila.

Acidente com iPhone 6 visto por 2,1 milhões no Youtube

Dar entrevista em rede nacional, mostrando para o mundo que somos especiais não tem preço. No vídeo abaixo uma equipe de jornalismo flagra o momento em que o novo iPhone 6 cai no chão devido ao nervosismo do fã da marca. Escute a reação das pessoas da fila quando o iPhone caiu no chão. O vídeo foi visto por mais de 2 milhões de pessoas nas primeiras 24h.


Você tem sua vida orientada pela busca da satisfação de desejos ou satisfação de necessidades? Como você pode ver, existe uma enorme diferença entre as duas. Suas necessidades são finitas, já seus desejos são infinitos. E isto não tem nada a ver com felicidade, mas tem tudo a ver com seu equilíbrio financeiro.

Antes de comprar qualquer coisa pergunte para você mesmo:  Eu desejo isso ou necessito disso?

Na verdade, muitos desejos escravizam as pessoas, tiram o foco das coisas importantes. Devemos lembrar que consumimos para viver e não o contrário. Existem pessoas que se matam de trabalhar, comprometem a saúde e até o relacionamento com os amigos e parentes por sempre estarem em busca de mais dinheiro para satisfazer desejos que não geram nenhum fruto.

Hoje é um caro iPhone 6, amanhã será o iPhone 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, etc. Conheço pessoas que trocam de smartphone todos os anos, as vezes mais de uma vez por ano (sem a menor necessidade) e assim criam um custo fixo eterno na vida delas.

Outra pergunta que você deve fazer antes de investir em um desejo: Isto vai fazer alguma diferença na minha vida nos próximos 5 anos? Existem desejos que são importantes e que modificam sua vida para melhor, outros são superficiais, momentâneos, fruto da moda, de estímulos externos de consumo ou influências de amigos.

A propaganda tenta nos convencer que a felicidade está diretamente relacionada com as coisas que compramos e acumulamos. Muita gente se sente mais valorizado, querida e aceita pelos outros quando consomem determinados produtos e marcas. Este comportamento é induzido pelo meio.

É como se o valor das pessoas pudesse ser medido pelo valor das coisas que a pessoa compra. Você já se sentiu julgado pela roupa que veste, pelo carro que tem, pela casa onde mora ou pelas marcas que consome?

Fazer parte deste jogo é uma questão de escolha. Você só participa da brincadeira de aparências se realmente quiser. Infelizmente, as pessoas não percebem esta realidade por estarem imersas na ilusão vendida nos comerciais.

Quando você começa a diferenciar aquilo que é realmente importante para sua felicidade, das coisas que são apenas desejos implantados ou impostos de fora para dentro, a sua vida financeira começa a tomar outro rumo.



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