Em um evento recente, o ministro da economia deixou claro que está trabalhando fortemente para baixar os juros (Taxa Selic) nos próximos anos.

Segundo ele, se tudo der certo, quando os juros atingirem 1% ou até 0,5% (ao ano), será o fim do paraíso da renda fixa e o início do inferno para os que ganham alguma renda através dos investimentos mais conservadores (que ele chamou de rentistas).

Os investimentos que são afetados com a queda dos juros são todos os de renda fixa como: títulos públicos, títulos emitidos por bancos que rendem um percentual do CDI como CDB, LCI e LCA, além de fundos de investimento e planos de previdência que investem nesses títulos.

No vídeo, de forma bem agressiva, ele sugere o que todos os “rentistas” brasileiros (aqueles que recebem juros da renda fixa) devem fazer diante da forte queda nos juros que está por vir, quando todas as reformas foram implementadas.

Essas declarações aconteceram no dia 4 de julho de 2019 em um grande evento promovido por uma das maiores corretoras do país com o patrocínio de fundos de investimento, bancos e outras instituições financeiras que estavam na plateia.

Clique logo abaixo e assista ao trecho do vídeo onde o ministro deixou um recado para todos os rentistas da renda fixa. Depois, veja a palestra inteira para entender os planos do governo para os próximos anos. Você verá que precisa começar a se preparar agora.


“Os juros devem descer ali na frente(…) para que não seja mais o paraíso dos rentistas… Que seja o paraíso dos empreendedores e o inferno dos rentistas. (Teremos) juros de 1%, 0,5%… Vai trabalhar vagabundo! – Paulo Guedes”

Acho muito triste quando vejo alguém do governo chamando as pessoas de vagabundas por investirem o pouco dinheiro que conseguem poupar trabalhando durante a vida, principalmente em um evento promovido por corretoras, bancos e fundos (que vivem das taxas que cobram dessas pessoas).

Se você já foi assaltado ou já viu um assalto, deve ter percebido que os bandidos costumam ofender suas vítimas. Muitas vezes eles chamar suas vítimas de vagabundas. É um processo de inversão das coisas que acontece na mente do bandido. Quando um político de qualquer partido chama quem compra títulos públicos de vagabundo, a inversão é bem parecida, principalmente porque é de nós que eles tiram os impostos para pagar juros dos títulos que emitem. A vítima se torna o vagabundo e o vagabundo se torna a vítima. É um mecanismo de defesa que até o Freud explica.

Observe que esse vagabundo que foi citado no vídeo é qualquer pessoa que passará a vida toda trabalhando para pagar os impostos, poupar e investir o pouco que sobra.

É difícil sobrar alguma coisa para o investidor brasileiro viver de renda, pois ele terá de pagar por saúde, educação e outros serviços privados para suprir a falta de qualidade dos serviços públicos que ele já pagou através dos impostos. Veja que no fim das contas, todos nós pagamos duas vezes: uma pelo serviço público e outra pelo serviço privado.

Se sobrar algum dinheiro, você ainda terá de poupar para a sua aposentadoria. O governo vai continuar cobrando as “contribuições” da previdência, sem garantir que você conseguirá se aposentar no futuro com as regras atuais. As regras do jogo ainda devem mudar várias vezes no futuro. Você vai pagar duas vezes para garantir sua aposentadoria: vai pagar para o governo e vai fazer investimentos por conta própria.

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Você provavelmente vai investir o pouco que poupou através de investimentos com baixo risco de renda fixa como títulos públicos, títulos emitidos por bancos (CDB, LCI, LCA etc.) ou em fundos e planos de previdência que fazem os mesmos investimentos cobrando taxas elevadas.

Depois de tudo isso, você ainda será chamado de rentista vagabundo diante de aplausos da plateia.

Fica aqui duas reflexões: será que o Brasil tem juros elevados por culpa dos “vagabundos” que trabalham, pagam impostos e poupam algum dinheiro pensando no futuro? Ou será que o Brasil tem juros elevados por culpa dos vagabundos que gastam todos os impostos arrecadados, da pior forma possível, e depois precisam vender títulos públicos para conseguirem o dinheiro que falta para fechar as contas do governo?

Nem quero citar aqueles outros que criam fundos de investimento de renda fixa e multimercado, cobram taxas administrativas absurdamente elevadas e entregam rendimentos menores que a Selic/CDI (renda fixa) ou menores que o índice Bovespa (renda variável).

Bem… o fato é que reclamar de quem chama o investidor de renda fixa de “rentista vagabundo” não resolve o problema de ninguém. As coisas sempre foram assim e vão continuar sendo. Devemos aceitar as coisas como elas são para depois começar a agir, pois o que importa é o que você vai fazer com suas economias diante de tudo isso. Se você assistir a palestra inteira verá que os planos do governo são:

  • Reduzir a taxa básica de juros (Taxa Selic), para níveis jamais vistos. Isso vai continuar impactando a rentabilidade de todos os investimentos de renda fixa. O ministro chegou a citar taxas de 0,5% a 1% ao ano, que são as taxas praticadas em países de economia estável (ainda não estamos nesse nível). Com juros tão pequenos, literalmente seria o fim da renda fixa como investimento que rentabiliza acima da inflação. As pessoas seriam obrigadas a buscar a renda variável, bolsa de valores, imóveis e negócios próprios para investir.
  • O governo pretende realizar muitas privatizações e vender bens (como imóveis do governo) para reduzir o tamanho da dívida pública. Dívida decrescente permite ao governo vender títulos públicos com taxas ainda menores.
  • O governo está trabalhando para atrair investimentos externos (privados) em infraestrutura. A abertura do mercado brasileiro deve estimular as exportações e importações. Mais investimentos externos e mais exportações podem provocar a queda do dólar. Isso reduz a inflação e por consequência os juros. A entrada de importados também aumenta a concorrência e ajuda a reduzir a inflação que motivará queda nos juros. Essa abertura da nossa economia, segundo o ministro, deve ocorrer gradualmente nos próximos anos.
  • Ele citou que os funcionários públicos que irão se aposentar nos próximos anos serão substituídos por tecnologias e automação. Teoricamente isso significa menos gastos públicos. Com a redução das despesas com pessoal, será possível depender menos da venda de títulos públicos e isso resultará em taxas menores.
  • A melhora dos indicadores econômicos e do ambiente para negócios pode atrair bilhões em investimentos vindos do exterior e isso vai beneficiar a renda variável, principalmente investimentos na bolsa.
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Todas as medidas apresentadas na palestra prejudicam a rentabilidade dos investimentos de renda fixa e favorecem os investimentos de renda variável como bolsa de valores, empreendedorismos e imóveis.

Devemos nos preparar cada vez mais para investir em um cenário de juros baixos na renda fixa e ganhos maiores na renda variável (com maior exposição ao risco).

É responsabilidade de todo pequeno investidor aprender a rentabilizar o seu dinheiro em qualquer cenário econômico.

Nos momentos finais da palestra, curiosamente o ministro disse que estamos vivendo um momento como o da primeira cena do filme “Gladiador”.

Ele começou a descrever a cena do filme para a plateia, quando o general romano enviou um mensageiro para conversar com o exército inimigo e ele retornou decapitado. Foi um sinal de que não existia possibilidade de diálogo. Sem uma alternativa que não fosse iniciar uma guerra, o general romano (Máximus) se volta para suas tropas e diz, ao meu sinal… “UNLEASH HELL!”, que literalmente significa “libertem o inferno” ou alguma coisa parecida com “que se abram as portas do inferno!“.

O ministro tem como modelo o general romano quando diz: “nós vamos disparar uma porção e coisas ao mesmo tempo, nós vamos trabalhar pesado. O congresso vai trabalhar forte e o presidente gosta de ação e movimento…


Já que as “portas do inferno” serão abertas contra os juros, tornando a vida do investidor de renda fixa um verdadeiro inferno, esse é o momento de buscar os conhecimentos e as ferramentas para entrar nessa guerra com o objetivo de rentabilizar nossos investimentos em qualquer cenário econômico.

O nosso maior inimigo não é o político, dono do banco, corretora ou fundo que são sustentados pelos nossos impostos, taxa e tarifas.

O nosso verdadeiro inimigo é interno. Ele é a nossa ignorância financeira que limita a rentabilidade dos nossos investimentos na Taxa Selic, CDI e taxas pagas pela renda fixa dos bancos e corretoras. Nossa inimigo também é aquela força da resistência que nos impede de fazer e aprender alguma coisa nova. Quem já sabe investir, não se importa com o que os políticos dizem, pois em qualquer cenário existem oportunidades de investimento. Podemos buscar tarifas menores e rentabilidades maiores quando estamos preparados para essa guerra.

Só você pode entrar nessa guerra contra a sua própria ignorância financeira e resistência. Você deve buscar os conhecimentos e as ferramentas necessárias para investir em qualquer cenário econômico no presente e no futuro. Não importa se estamos entrando no inferno da renda fixa ou no paraíso da renda variável. O importante e estar preparado para qualquer situação.

Agora no mês de julho de 2019 o Clube dos Poupadores completará 6 anos divulgando artigos, livros e ferramentas que ajudam os pequenos investidores. A batalha contra a ignorância financeira ainda está só começando, pois, como diz o personagem do filme: “o que fazemos ecoará por toda a eternidade”. 

Leitura recomendada: lista de livros sobre investimentos.