As pessoas passam a vida toda trabalhando para comprar coisas ou para trocar coisas velhas por coisas novas.

Passam a vida construindo dívidas sobre dívidas. Quando conseguem fazer uma reserva para emergências, acabam gastando tudo com coisas que não são emergenciais.

Existe uma grande diferença entre fazer provisões e criar uma reserva de dinheiro para emergências. O dinheiro que você guardou para o caso de uma emergência não deve ser usado para pagar IPTU, IPVA, revisão do seu carro ou a matrícula escolar dos seus filhos. Também não deve ser utilizado para trocar de máquina de lavar quando ela quebrar ou trocar de smartphone quando ficar obsoleto. Estas despesas não são emergenciais, todas são previsíveis e devem ser pagas através de provisões.

Humanos fazem provisões desde o tempo das cavernas. Até os povos mais primitivos entendiam que era necessário guardar recursos para períodos específicos do ano, como o inverno e o período de seca. O calendário foi inventado para permitir uma melhor gestão dessas provisões, já que os períodos de escassez eram uma certeza imposta pela natureza.

Sua reserva para emergências deve ser utilizada no caso de uma demissão ou queda inesperada da sua renda. Ela garante a manutenção das suas despesas regulares (alimentação, água, energia, educação, combustível, etc) até que você recupere a sua fonte de renda mensal.

Provisões de depreciação:

Uma provisão nada mais é do que reservas de dinheiro para pagar despesas que são esperadas ou previsíveis. Quando você compra uma máquina de lavar roupas ou um smartphone, você tem a certeza absoluta de que estes aparelhos não irão durar para sempre. Quando você compra um imóvel ou um veículo, já sabe que terá gastos periódicos de manutenção. Quando você compra calçados e roupas, já tem consciência de que estes produtos não serão eternos e deverão ser substituídos por novos calçados e roupas no futuro. Por este motivo, você deve fazer provisões para pagar estas despesas geradas pela degradação dos seus bens. Vamos chamar esse tipo de provisão de depreciação.

Liste seus bens:

Você deve fazer uma lista com todos os seus bens que sofrem depreciação com o passar do tempo. Para exemplificar vamos imaginar que você só possui os cinco itens abaixo.

  1. Computador;
  2. Óculos Escuros;
  3. Smartphone;
  4. Geladeira;
  5. Veículo.

Alguns bens devem ficar fora dessa lista. Exemplo: a aliança de ouro do seu casamento e aquele relógio que o seu avô deixou de herança para você não devem fazer parte da lista. Bens que não depreciam,  que não precisem ser substituídos ou não possam ser substituídos ficam fora da lista. Imóveis podem sofrem depreciação, já os terrenos não depreciam, mas alguns exigem manutenção (como a limpeza do terreno).

Tempo de depreciação:

Determine quanto tempo, em média, esses bens duram quando estão com você. Utilize como base a frequência com que você precisa substituir esses bens. Se você guarda notas fiscais e manuais de tudo que compra será fácil identificar a frequência de compra. A vida útil dos bens depende da sua qualidade e da forma como cada pessoa o utiliza.

Existem pessoas mais cuidadosas e pessoas menos cuidadosas com os seus próprios bens. Existem bens que são utilizados ao extremo, como o veículo de um taxista ou a máquina fotográfica de um fotógrafo profissional. Existem pessoas que trocam de óculos escuros com mais frequência, seguindo tendências da moda, enquanto outras não se preocupam com isso. Existem pessoas que preferem pagar mais caro por produtos de maior qualidade que teoricamente deveriam durar mais. Também existem aqueles que preferem produtos mais baratos, que duram menos e precisam ser trocados com frequência.

Como curiosidade é interessante observar que o nosso corpo também deprecia. Com a idade deixamos de ter a mesma força física da juventude, mas tendemos a ter mais conhecimento, experiências e sabedoria. É importante que durante sua vida você não deixe de aprender para que isso acabe suprindo a redução do nosso desempenho físico no trabalho. Poupar e investir pensando na aposentadoria é uma forma de garantir provisões para quando você não estiver mais exercendo sua profissão no futuro. Eu falo sobre aposentadoria antecipada no meu livro sobre independência financeira, conheça clicando aqui.

Quanto provisionar:

Apesar de não existir uma regra rígida sobre o tempo de vida útil de um bem, é fato que todos irão depreciar. Quando esse dia chegar, você precisa estar preparado(a). Isso se faz reservando uma pequena quantia mensal que dependerá da vida útil do produto e do seu preço. Para saber quanto você precisa poupar todos os meses siga os passos:

  • Crie uma planilha;
  • Liste seus bens que sofrem depreciação;
  • Informe o preço de aquisição desses bens;
  • Informe o tempo de vida útil com base na frequência com que você substituiu esses bens no passado;
  • Calcule a taxa de depreciação;
  • Calcule quanto você precisa provisionar mensalmente para substituir o bem no final da sua vida útil;
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Exemplo:

Você descobre a taxa de depreciação mensal dividindo o número 100 pelo número de meses de vida útil. Vamos imaginar que você costuma trocar de computador a cada 3 anos. Para descobrir a taxa de depreciação mensal basta dividir 100 por 36 para encontrar 2,78%. Isso significa que você deve poupar o equivalente a 2,78% do preço de um computador novo todos os meses.

No nosso exemplo, o computador custaria R$ 2.000,00 e por este motivo devemos poupar R$ 55,56 todos os meses para que no final de 36 meses tenhamos R$ 2.000,00 para comprar um computador novo. Chegamos ao valor da provisão mensal calculando 2000 x 2,78% ou 2000 x 0,0278. Esse valor é apenas um exemplo. Troque pelo valor médio dos computadores que você costuma comprar.

Você perceberá que quanto maior a vida útil do seu bem, menor será sua despesa mensal com as provisões. Se você troca de smartphone todos os anos, isso resultará em um custo anual de R$ 1.000,00. Você terá de economizar R$ 83,33, todos os meses, para substituir seu aparelho no final de 12 meses. O seu amigo que demora 3 anos para trocar o mesmo tipo de smartphone só precisará economizar R$ 27,77 por mês para garantir sua substituição.

Até os povos antigos faziam reservas de recursos pensado no futuro.

Provisões evitam dívidas:

Observe que através dessa estratégia de provisionamento você pode se livrar das dívidas. Você não precisará mais do limite do cheque especial para trocar uma máquina de lavar que quebrou depois de 5 anos de uso. Você não vai precisar comprar eletrônicos e eletrodomésticos parcelados em muitas vezes (com juros) no cartão de crédito. Você não vai mais pagar juros e depender de financiamento para trocar de carro. Quando o dia de substituir estes bens chegar, você já terá mais do que o necessário para comprar estes bens à vista.

Observe que o provisionamento é uma antecipação da despesa que você já sabe que terá no futuro. Essa estratégia é muito utilizada nas empresas e infelizmente as pessoas não são educadas para fazerem a mesma coisa nas suas finanças pessoais. Existe uma enorme indústria do crédito (bancos e financeiras) que vivem de emprestar dinheiro, cobrando juros altos, daqueles que não entendem a importância de fazer suas próprias provisões. Não espere que nenhuma empresa ou o governo faça algum esforço para ensinar sobre a importância das provisões para você. Eles ganham quando você não investe na sua educação financeira.

Você não precisa pegar dinheiro emprestado e ficar vários meses (ou anos) pagando prestações, juros e taxas para comprar aquilo que você necessita ou deseja. Você pode planejar as suas compras e as suas despesas com muita antecedência. Você pode poupar uma parte do que ganha como se estivesse pagando prestações para você mesmo, sem a necessidade de pagar juros e taxas para os outros. Você faz suas reservas e ainda ganha juros enquanto estiver acumulando suas provisões.

Consciência de quanto custa manter as coisas:

Outro ponto importante do provisionamento é ter a consciência sobre quanto custa manter as coisas. Quando você toma a decisão de sempre ter o smartphone mais atualizado do mercado, você também assumirá um custo mensal para permitir essa compra regular de smartphones pelo resto da sua vida.  Isso irá comprometer uma parte da sua renda todos os meses gerando um impacto no seu padrão de consumo. Quando você somar o provisionamento mensal para trocar seu smartphone, carro, roupas e computador por toda sua vida, verá que você só está trabalhando para trocar bens velhos por bens novos.

É isso que as empresas querem que você faça. É isso que atrapalha o seu projeto de independência financeira que falo nos meus livros (veja aqui).

Esse nível de consciência que estou propondo neste artigo, permite a você fazer escolhas mais inteligentes. Talvez você chegue a conclusão que trocar de smartphone todos os anos esteja comprometendo o acumulo de recursos para comprar outras coisas que você também considera importante, talvez atrapalhe seu projeto de independência financeira ou aposentadoria antecipada.

Você também terá uma maior consciência sobre o custo da depreciação das coisas quando refletir sobre esse tema. Quanto mais coisas você tiver na vida, mais custos de depreciação você terá. Quanto mais consumista, quanto maior o padrão de vida, maiores serão seus custos mensais para garantir a substituição e a manutenção dos objetos que você irá acumular. Quando a pessoa não faz suas próprias provisões, os custos são ainda maiores, pois existem os juros cobrados pelas linhas de crédito e financiamentos oferecidos pelos bancos.

É por isto que muita gente tem a nítida sensação de estar correndo em círculos. Quanto mais trabalham, mais compram coisas e mais essas coisas aumentam seus custos exigindo ainda mais trabalho e mais renda para manter todas coisas atualizadas e funcionando.

Provisões de Despesas e Impostos:

É inacreditável ver a quantidade de pessoas que passam por dificuldades financeiras no começo de cada ano devido a falta de provisionamento de recursos para pagamento de impostos e despesas que se concentram em meses específicos do ano.

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Todos os anos você tem as férias, natal e ano novo. Todos os anos você termina o ano com dívidas depois de comprar presentes de natal, gastar com festas de virada de ano, fazer viagens de férias, etc. Todos os anos você precisa pagar matrícula e material escolar. Todos os anos você precisa pagar IPTU, IPVA, Licenciamento do carro, DPVAT e seguro do seu veículo. Será que faz sentido usar sua reserva de emergência para pagar despesas que acontecem todos os anos?

O ideal é que você passe o ano poupando uma quantia mensal para pagar essas despesas à vista e com desconto quando elas chegarem. No caso do IPTU é comum a existência de um desconto para quem paga através de uma parcela única. Muitas vezes o desconto é maior do que o valor que você receberia mantendo o dinheiro investido para pagar as parcelas mensais.

Veja um exemplo de planilha:

Se todos os anos você precisa pagar um IPTU de R$ 1.500,00, o correto seria separar o valor de R$ 125,00 todos os meses, começando com 12 meses de antecedência. No final dos 12 meses você terá os R$ 1.500,00 + juros que receberia mantendo esse dinheiro investido. Quando fosse necessário fazer o pagamento, você poderia optar entre pagar à vista com desconto ou pagar parcelado sem desconto, mas mantendo o dinheiro investido para receber juros sobre juros mensalmente até a quitação das parcelas. O mesmo raciocínio vale para o seguro do seu carro, para a matrícula escolar dos seus filhos e até para aquela viagem que você programou para suas férias.

Onde investir as provisões:

Você pode juntar todo dinheiro mensal reservado para provisões em um único investimento. O dinheiro fica misturado, mas você pode manter um controle através de uma planilha. Nessa planilha você pode separar o dinheiro e fazer um acompanhamento das despesas programadas. Você deve utilizar investimentos de renda fixa, principalmente os prefixados como: poupança, CDB, LCI, LCA, Tesouro Selic, Compromissadas, etc. Nunca utilize renda variável (ações, fundos multimercado, fundos imobiliários, etc).

Existem despesas que não possuem uma data exata para acontecer, como um computador quebrado ou um smartphone roubado. Os recursos dessas provisões devem ficar em investimentos que possam ser sacados a qualquer momento (investimentos com liquidez diária). Já a compra de um carro, que só acontecerá nos próximos 60 meses, pode ser aplicado em investimentos com carência e data de vencimento.

Não fique preocupado em buscar a maior rentabilidade do melhor investimento quando o objetivo for fazer provisões pequenas e de curto prazo. O simples fato de você fazer suas reservas para comprar seus bens de maneira planejada já resultará em enorme lucro, pois você não precisará pagar juros em empréstimos ou financiamentos. A verdade é que no lugar de pagar juros, você terá a oportunidade de ganhar juros sobre juros durante o período de acumulação de recursos. Até guardar dinheiro embaixo do colchão é mais vantajoso que pagar juros aos bancos. Considere os juros que você não pagará como juros ganhos.

Caso você tenha despesas previstas em dólares, deve buscar proteção em fundos cambiais ou comprando dólares com antecedência e regularidade. Vamos imaginar que você pretende fazer uma viagem para o exterior nos próximos 12 meses. Você calcula que a viagem custará US$ 10.000,00. Você poderia adquirir US$ 834,00 dólares todos os meses ou investir em fundos que seguem a variação do dólar. Se não pode poupar US$ 834,00 por mês, faça a viagem dentro de 36 meses e acumule US$ 277,77 por mês. Quanto maior a antecedência, menor o comprometimento mensal de recursos. Tentar acertar o melhor momento para comprar dólares é muito difícil, será uma questão de sorte ou azar. Se você comprar a moeda aos poucos, ficará com a média do  preço e não com o menor e nem o maior preço registrado no período.

Nos meus livros sobre investimentos você encontrará tudo que precisa saber sobre os investimentos mais importantes que existem no mercado.

Efeito da inflação:

A inflação também é previsível. Impostos costumam ser reajustados todos os anos. O material escolar dos seus filhos e suas despesas durante uma viagem de férias também sofrerão os efeitos da inflação. O governo trabalha com metas de inflação próximas de 4%. Guarde 10% a mais para compensar os efeitos da inflação. Se você teve uma despesa de R$ 1.200,00 com material escolar no último ano, reserve os R$ 1.200,00 e mais R$ 120,00 como prevenção contra a alta dos preços. Vale lembrar que se o dinheiro for investido, você terá juros sobre juros durante o período de acumulação que ajudará a reduzir os efeitos da inflação.

Baixe a planilha:

Você pode baixar a planilha que criei para escrever este artigo.

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