É importante que você avalie os possíveis impactos financeiros que a pandemia de coronavírus poderá gerar na sua vida nos próximos meses, assim como os governos e as empresas estão fazendo nesse momento.

Vejo muitas pessoas desprezando esse impacto por só estarem imaginando as consequências que terão caso fiquem doentes. Como a gripe parece ser leve para 80% dos casos, algumas pessoas só estão imaginando as consequências de uma gripe leve. Existem outros pontos que você precisa considerar.

Os grandes problemas que teremos serão consequências produzidas por decisões que os governos e as empresas irão adotar nas próximas semanas e meses.

Essas consequências já podem ser observadas no mercado financeiro, através das fortes quedas na bolsa de valores, mudanças bruscas nos juros futuros (que impactam o preço dos títulos públicos) e fortes variações no câmbio, como a alta do preço do dólar.

O mercado financeiro sempre toma decisões baseadas em expectativas antecipadas sobre o futuro. Se existe uma mudança nas expectativas sobre o faturamento e os lucros das empresas nos próximos trimestres, independente dos motivos, temos uma alteração na demanda e oferta de ativos como ações, títulos, moedas etc. Se o governo toma decisões que podem alterar as expectativas sobre juros, inflação, câmbio, automaticamente isso modificará a demanda e a oferta dos ativos negociados no mercado financeiro.

No final de uma cadeia de consequências, existe o impacto no bolso das pessoas, seja através dos investimentos ou mesmo da geração de renda.

Uma das questões mais graves que temos nesse momento, e que vai impactar os resultados financeiros das empresas, dos governos (arrecadação de impostos) e das pessoas (renda e emprego), é a limitação do ir e vir das pessoas. A liberdade de locomoção é fundamental para diversos setores da economia.

Se você é um profissional liberal ou trabalha em uma empresa que depende da liberdade de locomoção das pessoas para produzir lucros e renda, provavelmente a sua renda estará limitada nas próximas semanas ou nos próximos meses por decisões dos governos e das empresas que vão impedir ou limitar o ir e vir das pessoas.

Sabemos que a liberdade de locomoção está prevista na nossa constituição no Artigo 5º, inciso XV que diz “É livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens”. O problema é que essa liberdade individual se torna relativa quando não estamos em tempo de paz ou diante de situações que possam comprometer o coletivo.

A limitação da sua liberdade de locomoção, segundo os governos, tem o objetivo de impedir que um grande número de pessoas doentes sobrecarregue o sistema de saúde em um curto espaço de tempo.

Sabemos que de cada 100 pessoas doentes, um percentual pequeno precisará de atendimento hospitalar. O problema está na velocidade de contágio. Se centenas de milhares ou milhões de pessoas ficarem doentes ao mesmo tempo, mesmo que os casos graves representem um percentual pequeno, teremos mais doentes graves precisando de atendimento hospitalar do que estrutura disponível para isso.

Você provavelmente já viu o gráfico abaixo na imprensa. A primeira curva mostra o crescimento exponencial de casos em um curto espaço de tempo quando não existe o controle de liberdade de locomoção das pessoas. Sem controle, o número de casos supera a capacidade de atendimento do sistema de saúde. Na outra curva temos o mesmo número de casos da curva anterior, mas a velocidade de contágio é menor e com isso temos um achatamento dessa curva no decorrer do tempo, tornando o atendimento possível em um espaço com a mesma estrutura do sistema de saúde.

Para entender melhor, basta imaginar um hospital que tem capacidade de atender 10.000 pessoas doentes no decorrer de um mês inteiro. Se essas 10 mil pessoas doentes aparecerem no hospital no mesmo dia, não existirá estrutura para atender todos ao mesmo tempo. Já se você conseguir reduzir a velocidade com que as pessoas ficam doentes, a mesma estrutura poderá atender todas as pessoas.

Estudos realizados nos EUA mostram que se a curva exponencial de crescimento de casos não for controlada, para impedir que o número de casos dobre a cada 3 dias, haverá cerca de 100.000.000 de casos até maio de 2020 somente nos EUA (fonte). Se 20% dessas pessoas precisar de atendimento médico, serão 20 milhões de pessoas procurando os hospitais ao mesmo tempo. Se mortalidade for de 1%, serão 1 milhão de mortos em 60 dias somente nos EUA. O Washington Post produziu algumas animações que mostram a formação dessa curva acima simulando o contágio em uma comunidade de 200 pessoas (fonte).

Observe o vídeo logo abaixo onde a liberdade de locomoção das pessoas foi preservada enquanto a doença se espalha. Existem 200 pessoas representadas no vídeo. Os pontos azuis são pessoas saudáveis. Os pontos vermelhos são pessoas doentes. Os pontos rosas são pessoas recuperadas da doença.


Observe no vídeo acima que a curva vermelha no gráfico aumenta rapidamente à medida que as pessoas doentes entram em contato com cada vez mais pessoas saudáveis.

Agora observe no gráfico logo abaixo. Veja o que acontece quando existe um sistema de quarentena forçada, exatamente como os chineses resolveram impor limitando o ir e vir das pessoas que moraram em determinadas regiões do país.


Observe no gráfico acima que uma região foi isolada. Esse isolamento não impediu a propagação da doença na região isolada, mas desacelerou a propagação em outras áreas.

Agora veja o gráfico logo abaixo onde temos o chamado distanciamento social que ocorre quando as pessoas são orientadas a ficarem em casa. No começo, o governo pede para que as pessoas fiquem em casa. Depois, como ocorreu na Itália, o ir e vir ficam proibidos para qualquer objetivo que não seja comprar alimentos, medicamentos ou trabalhar. Restaurantes, bares, escolas e outros estabelecimentos podem ser fechados para estimular o distanciamento social.


Na simulação acima fica bem evidente que as pessoas paradas em suas casas produzem uma forte redução na velocidade de propagação da doença, impedindo a sobrecarga dos hospitais e sistemas de saúde.

O problema é que esse distanciamento social será o danoso para as receitas das empresas. Devemos lembrar que no final do mês as empresas terão de pagar salários e direitos trabalhistas, mesmo com suas receitas e lucros comprometidos. Custos fixos como locação de imóveis e pagamentos de empréstimos deverão ser pagos, mesmo com a empresa fechada ou com funcionamento limitado.

O medo de muitos especialistas é o de que esse comprometimento resulte em uma crise de crédito. A crise de 2008 foi produzida por uma crise de crédito quando as pessoas não conseguiam mais pagar as dívidas que assumiram quando compraram imóveis financiados.

Atualmente as empresas, os governos e as pessoas do mundo inteiro estão muito endividadas. As empresas precisam gerar receitas para pagar suas dívidas, salários e impostos. Os governos precisam de empresas gerando receitas e pessoas recebendo salários para que possam cobrar impostos. As pessoas precisam que as empresas gerem receitas para que possam receber seus salários. Os bancos precisam que as empresas gerem receitas, os governos arrecadem impostos e as pessoas tenham renda para que possam pagar suas dívidas sem atrasos.

Existe o risco de o governo brasileiro começar a proibir ou limitar o funcionamento das empresas, assim como está acontecendo em outros países. Existe o risco de o governo proibir ou limitar a locomoção das pessoas. Você precisa refletir sobre as questões listadas abaixo, pois ninguém fará isso por você:

  • Como essas decisões do governo e das empresas podem impactar minha vida financeira nas próximas semanas ou meses?
  • Minha renda mensal poderá ser atingida?
  • Existe riscos de perda de emprego ou de renda?
  • Quais são minhas despesas fixas e dívidas que tenho para pagar nos próximos meses?
  • Tenho reservas para enfrentar dificuldades financeiras por quanto tempo?

Governos e empresas estão nesse momento fazendo suas próprias simulações para identificar as possíveis perdas de receita, lucros e arrecadação provocados pelas consequências das limitações de locomoção das pessoas. É importante que você comece a fazer isso também.

Aqui vale destacar a importância das reservas para emergências. Todos nós devemos ter algum dinheiro guardado em investimentos de alta liquidez (que possam ser sacados a qualquer momento) para reduzir o impacto de possíveis quedas nas nossas rendas provocadas por situações impossíveis de prever. Alguns recomendam que as pessoas tenham o equivalente a 3 meses do próprio salário ou renda. Outros recomendam no mínimo 6 meses, 12 meses ou mais dependendo de cada pessoa. Exemplo: se você tem uma renda mensal de R$ 5 mil, uma reserva de emergência mínima seria de pelo menos 3 vezes essa renda ou R$ 15 mil. Uma boa reserva seria o equivalente a 12 vezes ou R$ 60 mil. Quanto maior for sua reserva, mais tranquilidade para superar grandes emergências.

Uma vida financeira desequilibrada e cheia de dívidas são as piores coisas que podemos ter quando caímos em um buraco, no meio de uma tempestade (como ilustra o desenho acima). A melhor coisa que podemos ter nessa situação é uma vida financeira equilibrada e uma boa reserva de dinheiro para emergências.

Livro recomendado: Independência Financeira (clique para conhecer). Conheça todos os nossos livros sobre investimentos visitando aqui.

Receba novos artigos por e-mail: