Abrir uma empresa significa fazer um investimento de renda variável que está entre os mais arriscados.

Se existisse algum tipo de “pirâmide dos investimentos” com relação ao risco, abrir um negócio próprio estaria nos patamares mais elevados dessa pirâmide, junto com investimentos alavancados de renda variável como contratos ou mini-contratos de dólares e índice.

Um investimento alavancado é feito com dinheiro emprestado. É comum as pessoas pedirem empréstimos para a abertura de negócios e com isso estão realizando um investimento de renda variável alavancado.

O grande problema da alavancagem é o seu poder de potencializar as perdas. A grande vantagem é o seu poder de potencializar os ganhos. Por esse motivo os investimentos alavancados só deveriam ser assumidos por investidores mais experientes.

Os iniciantes são os que se sentem mais atraídos pela ideia de investir com alavancagem, pois geralmente são eles que possuem pouco dinheiro para investir e precisam gerar renda através do pouco que possuem.

Aqui temos a fórmula perfeita para quebrar na renda variável, seja no empreendedorismo ou nos investimentos alavancados oferecidos pela bolsa:

(Inexperiência + Obrigação de ganhar dinheiro rápido)Alavancagem

A inexperiência fará você errar nos primeiros passos. Errar nessa fase é natural e ao começar pequeno esses pequenos erros iniciais terão impactos pequenos.

Uma boa parte dos erros iniciais são básicos e podem ser evitados, ou pelo menos amenizados, com o estudo antes da prática. Começar grande eleva seu risco no empreendedorismo e nos investimentos de renda variável.

A obrigação de ganhar dinheiro é outro problema. Essa obrigação vai motivar você a se expor exageradamente ao risco, potencializando os efeitos dos erros provocados pela inexperiência e falta de conhecimento.

Já a alavancagem (investir com o dinheiro dos outros) vai potencializar as perdas geradas pelos erros iniciais.

Nos meus livros sobre renda variável eu recomendo que as pessoas iniciem a prática investindo uma quantidade ridiculamente pequena de dinheiro.

Isso pode significar se tornar sócio de uma empresa comprando uma única ação que custa R$ 10,00. Usando a sua imaginação você poderá fazer de conta que investiu R$ 10.000,00 ou R$ 100.000,00 pois os procedimentos são os mesmos. Como existem corretoras que não cobram mais taxa de corretagem, é plenamente possível começar com valores ridículos. Com o tempo, o iniciante poderá aumentar aos poucos os investimentos de R$ 10 para R$ 100, R$ 1000,00 ou R$ 10.000,00 de forma gradual.

No caso do empreendedorismo, também é importante começar pequeno. O problema é que nem todos os negócios funcionam bem quando são muito pequenos.

Além disso, existe um fator emocional que envolve o empreendedorismo que representa um enorme risco oculto. Recentemente recebi este e-mail de um leitor. Fiz algumas pequenas mudanças no texto para não expor o leitor.

Eu sempre sonhei em abrir minha empresa, mas nunca havia descoberto em qual ramo eu poderia empreender. Porém, com meu amadurecimento financeiro consegui um montante alto para investir e abri uma livraria e café. Amo livros e cafés também. Porém, acredito que fui precipitado em minha tomada de decisão, pois, não acabei meu plano de negócios antes de abrir a livraria e utilizei todo o dinheiro que eu havia acumulado para diversas finalidades como: investimento, casa, carro, aposentadoria viagens. Agora, depois de um ano de loja aberta e com um montante de -R$ 30.000,00 em dívidas e sem dinheiro para capital de giro, me pergunto se devo persistir ou então abrir mão desta empresa. Pois, vejo que estou ficando com minha saúde prejudicada devido ao nível alto de estresse pelo qual estou passando.

 

O sonho e o amor aos livros e cafés

Um bom investimento é aquele que resultará em lucro para o capital investido. Nem sempre esse investimento lucrativo também é alguma coisa relacionada com nossos sonhos ou com as coisas que amamos.

Não é uma tarefa fácil conciliar um sonho e o amor por algo (livros e café) com a abertura de um negócio realmente lucrativo, pois a grande verdade é que os clientes não ligam para os sonhos e as paixões dos empreendedores. Os clientes querem serviços e produtos valiosos por um preço que achem justo.

O dever de casa do empreendedor é entregar o produto que o cliente deseja pelo preço que ele quer pagar. Vale lembrar que nem sempre o cliente quer pagar barato.

Cada cliente é como se fosse uma espécie de eleitor. Ele avalia o pacote: produtos + serviços + experiência e compara com o preço. Cada compra é um voto na manutenção do negócio. Quando ele retorna e compra novamente ele reforça o voto e ajuda a manter o empreendimento vivo.

Nem sempre é possível entregar o melhor e ainda ser lucrativo. Existe uma grande livraria brasileira que está passando por sérios problemas financeiros. Possui lojas nos melhores shoppings, algumas possuem cafeterias e espaços agradáveis para os clientes conhecerem os livros. Eu mesmo já visitei essa livraria várias vezes, vi o livro que queria comprar dentro da loja e optei pela compra mais barata, com frete grátis, na concorrência que só vende pela internet.

A missão do empreendedor de servir ao cliente quase sempre é solitária e desgastante, sem qualquer garantia do esforço ser reconhecido.

O governo não ajuda e muitas vezes costuma atrapalhar, enquanto faz do empreendedor um cobrador de impostos.

As leis não ajudam o empreendedor. Existem muitas leis que atrapalham e desmotivam muitos tipos de empreendimentos. Já os clientes estão cada vez mais exigentes e nenhum erro costuma ser perdoado.

Dessa forma, o sonho de ter um negócio, de trabalhar com coisas que gostamos como livros e cafés, logo pode se transformar em uma grande decepção.

Existe uma enorme diferença entre amar administrar uma cafeteria/livraria e amar cafés/livros. É bem mais fácil amar os cafés e os livros do que amar ter um negócio que vende cafés e livros de forma lucrativa.

Sim, existem pessoas que amam ganhar dinheiro administrando negócios. Elas amam transformar empresas em máquinas de fazer dinheiro.

De um lado entram insumos de pouco valor (café + água quente) e do outro lado temos uma bebida gourmet que pode ficar muito sofisticada e cara se for servida em uma bonita xícara com um minúsculo docinho para acompanhar em um ambiente que possa render boas fotos para o Instagram.

Basta atrair público suficiente para consumir muitos e muitos litros dessas bebidas altamente lucrativas, controlando os custos com uma lupa, que você estará rico. Existem pessoas amam ganhar dinheiro assim.

Na verdade, pouco importa o que elas estão vendendo. Tire o café e a água quente e coloque qualquer outra matéria prima onde você possa agregar valor e obter lucro. Para quem ama administrar recursos humanos, matérias primas e capital para gerar lucros, não importa o que se está vendendo.

Uma vez vi o depoimento de uma mulher que amava cozinhar. Só quando ela abriu seu próprio restaurante percebeu que um dono de restaurante faz de tudo… menos cozinhar.

Ela considerava o trabalho administrativo muito chato. Ela se considerava uma artista. Ela amava a arte e sua arte era feita com comida. Um bom restaurante precisa ser muito bem administrado e os processos são bem técnicos e racionais. Tudo funciona como uma máquina de fazer dinheiro.

Por esse motivo, muitos negócios de sucesso possuem sócios. Um sócio precisa amar administrar o negócio e o outro precisa amar a execução da atividade principal do negócio, onde é possível buscar o “estado da arte”.

Nada mais bonito do que uma empresa funcionando como uma orquestra, pois em uma orquestra existe o lado artístico em harmonia com todas as questões técnicas que envolvem os músicos, instrumentos e a execução da apresentação.

São raras as pessoas que dominam a arte (a alma do negócio) e ao mesmo tempo dominam a administração (o cérebro do negócio).

Se você já viu entrevistas de empresários de sucesso, deve ter percebido que eram pessoas leigas que começaram a empreender por necessidade e cresceram através de histórias de muito trabalho, determinação e superação de dificuldades.

É muito raro encontrar alguém que se tornou um grande empresário por ter feito um excelente curso de administração de empresas e depois resolveu aplicar esse conhecimento na prática.

Sou formado em administrador de empresas  e sempre lembro quando um aluno da minha turma perguntou para um velho professor: “Se o senhor ganhasse o prêmio acumulado da loteria, que tipo de empresa o senhor abriria?”. O professor respondeu: “Nenhuma… quem seria louco para gastar todo esse dinheiro abrindo uma empresa? Até o final do curso você vai entender o que quero dizer.”

No final dos 5 anos de curso (no meu tempo eram 5 anos) percebi que são os loucos e destemidos que abrem empresas no Brasil. Depois eles contratam bons administradores que os ajudam a fazer a empresa crescer. Os melhores administradores do Brasil, que exercem cargos elevados nas maiores empresas do país, recebem bons salários trabalhando nas empresas dos fundadores loucos.

Quem não aprende a administrar os negócios ou não busca ajuda, fecha as portas depois de alguns anos. Não existe muito espaço para os iniciantes a não ser que o negócio seja ridiculamente pequeno.

No Brasil temos uma enorme quantidade de negócios ridiculamente pequenos. Muitos quebram justamente quando resolvem crescer.

Não acabei o plano de negócios…

Muitos negócios deveriam acabar antes de começar através de um bom plano de negócios.

Criar um plano de negócios é como fazer uma empresa funcionar no papel para verificar se ela é tecnicamente viável. Muitos negócios não conseguem sair do papel.

Um negócio precisa ser planejado com muita frieza, tentando controlar ao máximo a interferência do lado emocional, pois a função do plano de negócio é justamente confirmar a ideia ou fazer o papel de “estraga prazer”. Nem sempre uma empresa baseada em um sonho ou em paixões resistem ao plano de negócios.

Muitas vezes é melhor pagar alguém para que essa pessoa faça o seu plano de negócio com o objetivo de estragar suas expectativas antes mesmo de qualquer outro investimento.

A grande verdade é que condições perfeitas são quase impossíveis, mas é possível economizar muito dinheiro investindo no plano de negócios. Assim como seria muito difícil construir uma casa sem uma planta, é muito difícil construir um negócio sem ter um bom plano com todos os detalhes e problemas previstos.

Utilizei todo o dinheiro…

Quando você deixa de ser somente pessoa física e passa a ser uma pessoa jurídica, essa pessoa jurídica precisa pedir dinheiro emprestado para alguém para poder existir e funcionar.

As fontes mais baratas de empréstimos são as economias pessoais dos donos/sócios da empresa. Depois da empresa aberta, é muito importante que o novo empreendedor não misture as finanças da pessoa física com as finanças da pessoa jurídica (empresa).

O seu dinheiro que entrou na empresa deve ser tratado como um empréstimo.

A empresa terá que devolver o dinheiro que você investiu em algum momento no futuro. O dinheiro que você investiu precisa ser aplicado de tal forma que possa gerar lucros, exatamente como qualquer outro investimento.

O trabalho que você realiza dentro da empresa precisa ser remunerado pela empresa e ela ainda precisa produzir lucro sobre o capital investido. Esse lucro precisa superar os ganhos que você teria ao fazer investimentos financeiros de menor risco. Se isso não for possível, a empresa não deveria sair do papel.

Se a empresa não conseguir entregar resultados em um determinado, prazo ela se mostrará um investimento ruim. Não faz sentido continuar gastando dinheiro, trabalho e tempo em um investimento ruim. Nada mais inteligente que assumir todos os erros e impedir que as perdas continuem, principalmente se as perdas já estão afetando a sua saúde.

É difícil assumir que o investimento não deu certo, pois sempre existem diversas pessoas que são contra aqueles que resolvem abrir um negócio. Quando o negócio não dá certo elas ficam até felizes por verem o seu fracasso, pois mostra que elas estavam certas.

É importante evitar essa relação emocional com o negócio. Negócios são apenas negócios e fracassar não torna ninguém menos inteligente.

A nossa cultura desqualifica o papel do erro e isso é um problema. A única coisa que você não pode perder depois de toda essa experiência é a oportunidade de aprender.

Se um dia o nosso leitor tiver a oportunidade de abrir um segundo negócio, tenho certeza que tudo será muito diferente e o fracasso inicial será como uma faculdade que prepara para o próximo negócio.

A mentalidade ideal para o empreendedor e para o investidor é a mesma. Fica aqui um vídeo interessante do Kiyosaki, que já mostrei no passado, com um modo de pensar diferente do comum.


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