No artigo anterior vimos que o negócio dos bancos é captar o dinheiro barato dos clientes que possuem recursos para investir e depois emprestar esse mesmo dinheiro para aqueles que precisam de crédito, financiamentos e empréstimos.

Vimos no site do Banco Central a diferença absurda que existe entre os juros que os bancos pagam aos investidores e os juros que cobram dos devedores.

Seria ótimo se os bancos repartissem com os investidores os juros que eles cobram dos clientes devedores, pois são os investidores que fornecem os recursos que se transformam em empréstimos.

Quanto maior é o banco, menos juros ele paga aos investidores e mais juros ele cobra dos devedores.

Existem grandes bancos que pagam menos de 85% do CDI para investimentos em CDB e percentuais ainda menores para investimentos em LCI e LCA. Atualmente o CDI equivale a 6,39% ao ano e 85% disso representa 5,43% ao ano. Já os juros que os bancos cobram dos clientes quando emprestam esse dinheiro supera os 400% ao ano. Caso não tenha lido o artigo anterior, leia aqui e retorne.

Mesmo assim, só clientes de alta renda conseguem ter um leque maior de investimentos disponíveis em CDB, LCI e LCA. Para os demais clientes, os gerentes dos grandes bancos oferecem títulos de capitalização, onde as pessoas perdem dinheiro todos os meses, seguros e consórcios que muitas vezes são vendidos como se fossem investimentos, fundos e previdência privada que cobram taxas administrativas e de carregamento que consomem boa parte da rentabilidade e vantagens fiscais.

Quando você investe através dos 5 maiores bancos: banco amarelo, azul, laranja e os dois bancos vermelhos, a situação pode ficar ainda pior.

Veremos que esses bancos envolvem os clientes que possuem perfil de investidor e os de alta renda em uma “armadilha emocional” que pode resultar em sérios prejuízos no longo prazo. É isso que precisamos evitar a todo custo.

Colocando você no Matrix da classe média

A primeira coisa que os grandes bancos fazem quando identificam que você tem um perfil investidor ou uma renda elevada é separar você dos demais clientes. Eles transferem a sua conta para agências especiais, localizadas em endereços nobres, que possuem nomes sofisticados. Para os bancos, alta renda é qualquer coisa acima de 10 ou 20 salários mínimos. Depende de cada banco.

O objetivo é fazer você se sentir uma pessoa especial. Alguém que venceu na vida e que merece ser “apartado” da massa, para receber um tratamento diferenciado e exclusivo.

Você recebe um cartão de crédito dourado ou preto que funciona como um “atestado de sucesso”. Ele é entregue na sua casa, dentro de uma caixa bonita, como se fosse um presente sofisticado, um troféu ou certificado de que você deixou a classe média e agora faz parte da classe média alta (mesmo não sendo uma realidade).

Quando você está no restaurante, fica orgulhoso na frente dos seus amigos e familiares quando exibe o seu novo cartão que só pessoas de sucesso financeiro podem ter. Alguma coisa dentro de você diz: “Você venceu, você merece!”

Lembre-se disso: “No mundo dos investimentos, quando a emoção entra por uma porta, o dinheiro sai pela outra”.

Se você permite esse tipo de envolvimento emocional no relacionamento que existe entre você e o seu banco, provavelmente existe muito dinheiro sendo desperdiçado de alguma forma. Veremos isso neste artigo.

As agências especiais, bem decoradas, sem filas, localizadas em endereços nobres, cheias de funcionários simpáticos e atenciosos, funcionam como o palco de um grande teatro.

Esse palco foi arquitetado por pessoas inteligentes e altamente capacitadas que entendem o funcionamento da vaidade humano como uma fragilidade explorável.

O único objetivo de todo o teatro: maximizar os lucros do banco através dos “mimos” que você pagará indiretamente e ainda fazer você ficar muito agradecido por tudo isso.

Esse conceito também vale para todos os relacionamentos que você possui com as empresas, produtos e marcas que prometem exclusividade e exploram fragilidades como a vaidade.

As estratégias dos negócios, envolvendo técnicas de marketing e publicidade criam um “universo paralelo“, uma espécie de “Matrix” da classe média.

Muitas vezes, as pessoas sabem que o glamour e a sofisticação vendida pelas marcas são apenas ilusões. O problema é que só saber, não liberta do problema. É necessário despertar. Só que despertar em um ambiente onde todos participam do mesmo teatro, não é uma tarefa fácil. Ficamos maravilhados e entorpecidos com as ilusões do teatro a nossa volta.




A ignorância é uma benção, mas você terá que ficar confinado em algum tipo de paraíso inventado.

É claro que você não deve negar os benefícios que os bancos oferecem. Ninguém gosta de filas e de atendimento ruim. Eu mesmo tenho conta em um grande banco que me oferece um atendimento “apartado” dos demais clientes. Só que eu acredito que um bom atendimento não deveria ser um privilégio. Todos merecem um bom atendimento, mas dentro dos bancos você vale o quanto tem.

Se tem pouco, vale pouco, se tem muito, vale muito. Na realidade, esse é o tipo de relacionamento que os bancos cultivam com os seus clientes. Qualquer coisa além disso, é ilusão que a publicidade implantou na sua cabeça e que certamente é uma fantasia deliciosa, mas financeiramente prejudicial, caso você não tiver consciência de como o “teatro” funciona.

Você pode e deve aceitar os privilégios que os bancos oferecem, mas deve tomar cuidado para não tomar decisões de investimentos com base nisso. Você deve ser capaz de avaliar os investimentos oferecidos através de comparações com as oportunidades apresentadas fora do grande banco, sem qualquer compromisso com reciprocidade ou fidelidade ao grande banco onde você tem conta.

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Isso significa que você deve se preparar como investidor para negar as propostas que os bancos grandes fazem quanto tentam manter a sua fidelidade e os laços emocionais e de vaidade.

Conheço pessoas que ficam constrangidas quando negam as ofertas que os gerentes simpáticos das agências elegantes fazem. Muitas vezes as pessoas criam laços de amizade com os gerentes e acabam ajudando os mesmos a atingirem metas que os bancos impõem a eles. É algo que não faz o menor sentido.

Bancos e envolvimento emocional

O envolvimento emocional no mundo das finanças custa muito caro e compromete o seu futuro financeiro.

Uma vez estive em uma dessas agências luxuosas, em um dos bancos onde tenho conta, aguardando a gerente preparar um cheque administrativo que utilizei para comprar um imóvel. Enquanto esperava, vi um senhor se aproximar da sala de uma outra gerente.

A gerente o recebeu demonstrando surpresa e alegria. A jovem se levantou da sua cadeira, contornou a mesa e deu um abraço caloroso no senhor, que ficou muito satisfeito com a receptividade.

– Senhor Fulano… é sempre muito bom ver o senhor aqui na agência!
– Vi que o senhor fez aniversário na semana passada. Parabéns! Como vai a sua esposa?
– Obrigado Fulana. Ela está muito bem. Completei sete décadas de muita luta e trabalho…
– O senhor ainda é muito jovem e está cheio de saúde e disposição. Parabéns!

Pela conversa, parecia que aquele senhor era dono de alguma empresa e provavelmente continuava trabalhando, mesmo tendo idade para estar aposentado.

Não pude deixar de prestar atenção no motivo da sua visita. Ele queria saber por qual motivo, o fundo de previdência onde ele investia há mais de 10 anos, estava com a rentabilidade tão baixa. A gerente deu diversas desculpas, mas não disse que o principal motivo estava na elevada taxa administrativa e de carregamento de todos os fundos que o banco oferece, principalmente os fundos de previdência lançados 10 anos atrás. Talvez, por sua idade avançada, esse senhor nem devesse manter esse tipo de investimento em sua carteira.

A minha gerente não me trata com tanta alegria. Eu não aceito as recomendações que ela faz. Sinto que ela já desistiu de me ligar, pois sempre perde tempo. Eu não a ajudo a bater as metas impostas pelos seus chefes. Raramente me interesso pelos produtos que o banco oferece. Uso o banco basicamente para movimentar recursos e manter alguma reserva com liquidez imediata. No início da minha vida profissional e financeira perdi dinheiro neste relacionamento com os gerentes dos bancos. Certamente isso me motiva a realizar o trabalho que faço hoje, de forma totalmente independente, negando todas as propostas de patrocínios e publicidade de bancos e outras instituições financeiras.

Eu não preciso das recomendações dos bancos, só preciso de informações dos produtos que os bancos oferecem. Não preciso dos funcionários de um banco para suprir minhas necessidades emocionais e afetivas. Para isso, eu tenho os meus familiares e amigos. Não preciso de mimos, presentes, cartões exclusivos e outros sinais de status para me sentir alguém de valor. Se eles me oferecem tudo isso, sem elevar meus custos diretos, recebo, agradeço, mas não garanto reciprocidade e muito menos fidelidade. Eu entendo o jogo, sei como funciona o teatro e não participo dele. Acredito que todos podem amadurecer financeiramente até esse nível de consciência.

Fundos destruidores de patrimônio

Essa é a capa do jornal Valor Econômico no dia em que esse artigo foi escrito. Fundos de previdência aberta, que são os fundos mais oferecidos pelos grandes bancos, rendem menos do que a taxa Selic. Se você acompanha o Clube dos Poupadores já sabe que ninguém precisa de um fundo de investimentos ou de previdência se for para perder da taxa Selic ou do CDI.

Estudos mostram que os cinco maiores bancos do país concentram 90% de todas as economias que os brasileiros estão fazendo para a aposentadoria através da previdência aberta. Isso representa mais de R$ 676,5 bilhões investidos em fundos ligados à previdência.

O grande problema é que uma boa parte de todo esse dinheiro está rendendo menos do que a taxa Selic.

A pesquisa mostra que 70% de todo o volume de dinheiro aplicado em fundos ligados à previdência aberta rendeu menos que o CDI no último ano. Fora dos grandes bancos, o retorno médio histórico está entre 104% e 113% do CDI (acima de 100% do CDI).

Muitos desses recursos são de clientes fiéis ou fidelizados pelos bancos através das contas abertas em “agências vip”. O motivo dessa baixa rentabilidade está nos custos elevados dos investimentos que os grandes bancos oferecem. Um dos maiores fundos do “grande banco amarelo” que pertence ao governo, tem rentabilidade média equivalente a 83% do CDI, por culpa da taxa administrativa de 1,5% ao ano sobre o patrimônio investido.

Existem muitos casos de fundos que cobram mais de 2,5% ao ano. Isso significa que para cada R$ 100.000,00 investidos em um fundo desses, R$ 2.500,00 é desperdiçado todo ano. Com R$ 1 milhão investidos, o prejuízo é de R$ 25 mil por ano. O problema é que essa taxa é descontada da rentabilidade e o cliente não consegue perceber todo esse dinheiro sendo jogado pela janela. A situação ainda fica pior com a cobrança de taxas de carregamento e de saída de 1% a 5% por cada investimento feito ou resgate.

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O senhor que eu vi sendo atendido na agência luxuosa, provavelmente não acompanha essas informações e acredita que está sendo muito bem atendido pela atenciosa gerente.

Mentalidade financeira tóxica

Recentemente um leitor do Clube dos Poupadores escreveu em um comentário:

Sou cliente ###### de um grande banco, mas não posso reclamar do bom cafezinho expresso que me servem à vontade!

Com certeza é muito gostosa a ilusão de que existe alguma coisa grátis. Esse cafezinho expresso à vontade tem seu custo. É importante o cliente do banco saber exatamente quanto está custando esse cafezinho por ano. Investimentos com rentabilidades menores e as taxas representam esse custo anual. É através dessa consciência que ele pode avaliar se não seria mais barato buscar investimentos com juros maiores e taxas menores e aproveitar esses ganhos para comprar o cafezinho em outro local.

Outro leitor deixou o comentário:

Como diz um educador, no fim de um ano a diferença vai dar pra comprar um picolé. Mantenho pequeníssimas importâncias numa poupança, em LCI  80% CDI (de um banco grande) e no Tesouro Selic, apenas para acompanhar o rendimento mensal. A poupança rendeu em junho 0,3686%, a LCI 0,4139% e o Tesouro Selic 0,4045% líquidos.

É justamente esse “picolé” perdido todo mês que pode fazer a diferença entre uma aposentadoria confortável ou uma aposentadoria miserável, entre a independência financeira antecipada e a dependência vitalícia.

Observe o gráfico abaixo:

O gráfico foi gerado através de uma das várias planilhas de simulações que fazem parte do meu novo livro, clique aqui para conhecer.

Esse gráfico mostra o patrimônio final de uma pessoa que investiu durante a vida produtiva (entre 20 e 65 anos) com uma taxa média mensal de 0,40%, 0,50%, 0,60%, 0,70% e 0,80%.

No primeiro mês, essa diferença de 0,10% entre uma taxa de 0,40% e 0,50% em um investimento de R$ 1.000,00 mensais representa somente R$ 1,00, (1000 x 0,10% = 1,00). Com esse dinheiro fica difícil até comprar um simples picolé. O problema é que o picolé perdido todos os meses, junto com os juros compostos que ele proporcionaria, faz uma grande diferença no longo prazo.

Os juros compostos transformam o picolé em milhões de reais. Esse efeito é ignorado pela maioria da população que não valoriza as pequenas diferenças na rentabilidade dos investimentos.

Observe que a diferença entre conseguir 0,4% de juros reais, em média, durante a vida e uma taxa de 0,6%, pode resultar em um patrimônio de R$ 1,9 milhões ou R$ 4 milhões até a aposentadoria. Uma taxa de 0,8% pode representar R$ 9 milhões de patrimônio no final de uma vida de investimentos.

Os dois maiores bancos privados do país foram fundados na década de 40 e já remuneraram os investimentos de muitas gerações. Os dois grandes bancos públicos que estão entre os maiores, foram fundados no Brasil imperial. Temos um grande banco público fundado por D. Pedro II e outro fundado por D. João, quando o País passou a sediar a Coroa Portuguesa. O estrago provocado por juros menores na vida financeira de uma família pode ultrapassar muitas gerações e comprometer incontáveis milhões.

O próprio governo lucra, através dos bancos públicos, quando você não se preocupa com as pequenas diferenças na rentabilidade dos seus investimentos. O problema é que essa mentalidade afunda a vida financeira das famílias brasileiras.

De um lado temos pessoas que supervalorizam o “cafezinho expresso” à vontade das agências bancárias de “luxo”, a amizade, carinho e abraço dos gerentes. Do outro lado temos pessoas que menosprezam as pequenas diferenças nas taxas de juros dos investimentos que fazem. No centro temos os bancos com lucros que batem recordes recorrentes, mesmo em tempos de crise.

Eu acredito que investimos muito tempo para que possamos nos tornar bons profissionais e conquistar uma boa renda. Quando o sucesso profissional chega e o dinheiro começa a sobrar, não temos o mesmo cuidado e profissionalismo no momento de investir o nosso próprio dinheiro.

É com o objetivo de despertar as pessoas para a importância de manter uma relação profissional com os seus investimentos, que desenvolvo esse trabalho aqui no Clube dos Poupadores.

Todo os dias existem oportunidades na renda fixa, principalmente em bancos médios, através de investimentos como CDB, LCI e LCA. Eu tenho uma parcela dos meus investimentos fora dos grandes bancos com rentabilidades muito acima do que muitos fundos de grandes gestores apresentam como se fosse grande coisa. Com um pouco de conhecimento e tempo para estudar, qualquer pessoa pode aprender a tirar o melhor proveito dos investimentos de renda fixa oferecidos pelos bancos, sem depender da opinião de ninguém sobre onde investir. Isso inclui a minha opinião.

Meu novo livro:

Acabo de lançar um novo livro que apresenta todos os passos para que qualquer pessoa possa investir fora dos grandes bancos, aproveitando as maiores taxas de juros oferecidas no mercado de renda fixa, entendendo os ciclos da economia e dos juros para tomar suas decisões. Todas as planilhas e simuladores que utilizo no meu dia a dia estão disponíveis.

Esse livro aprofunda os seus conhecimentos em renda fixa de uma forma que você nunca viu. Para saber mais sobre o conteúdo do livro visite aqui.

Leitura recomendada: lista de livros sobre investimentos.