Entender como os indicadores econômicos interferem nos seus investimentos ajuda a tomar decisões com mais liberdade sobre onde investir o seu dinheiro sem depender tanto das opiniões dos outros.

O desempenho de todos os investimentos depende de forma direta ou indireta do desempenho da nossa economia.

Em todos os meus livros sobre investimentos eu sempre apresento capítulos mostrando como os indicadores econômicos podem interferir nos seus resultados financeiros. Eu também apresento todas as fontes e ferramentas que utilizo. Vou mostrar algumas nesse artigo.

Hoje vamos estudar de forma rápida e didática os dados que foram apresentados pelo Banco Central nesse evento aqui, baseado em um relatório sobre inflação que também fala sobre crescimento econômico e juros em 2020. É uma ferramenta gratuita que todo pequeno investidor deveria ler. Como tudo no mundo dos investimentos, o que é importante não costuma ser divulgado e não se torna popular.

Vou comentar os pontos mais importantes. Com isso eu acredito que será fácil perceber por qual motivo existe tanto otimismo com relação ao investimento em ações, investimentos em fundos imobiliários e imóveis para 2020.

Você verá que a renda fixa, continuará com sua rentabilidade muito próxima da inflação, como falei no artigo sobre “Queda da Taxa Selic” e no artigo “Onde investir dinheiro” escrito em parceria com um analista de um site de notícias sobre investimentos.

Inflação no mundo

Um ambiente de inflação baixa e juros baixos no mundo é favorável para o nosso mercado financeiro. Isso estimula os investidores globais a buscarem oportunidades mais arriscadas em países como o Brasil.

No gráfico logo abaixo podemos observar o comportamento da inflação em países como EUA, Japão, Reino Unido e que estão na Área do Euro. Podemos constatar que a inflação vem se mantendo estável ou até em queda em alguns países.

Juros no mundo

Como forma de estimular a economia, muitos países possuem juros negativos, como o exemplo da Alemanha e do Japão (gráfico abaixo com números do lado esquerdo). Nos EUA existem juros positivos, mas que são menores que a inflação (linha verde lado direito).

Descontando a inflação dos juros que esses países de economia avançada pagam em seus títulos públicos, temos juros negativos ou perdas para aqueles que buscam investimentos de baixo risco. Isso estimula a busca por investimentos de maior risco dentro desses países desenvolvidos e em países emergentes.

O investidor estrangeiro entende o investimento feito no Brasil como um investimento de risco em um país exótico. Só compensa o risco quando os juros lá fora são muito baixos ou até negativos.

 

Crescimento da nossa economia

Enquanto as economias pelo mundo estão estagnadas ou até desacelerando, a nossa vem se recuperando depois de ter “tocado o fundo do poço” em 2016.

O gráfico logo abaixo mostra o processo de recuperação da nossa economia. A linha laranja indica que se o PIB (riquezas produzidas por todas as empresas e pessoas do país) fosse igual a 100 em 2016, ele teria crescido da forma que mostra o gráfico até o terceiro trimestre de 2019.

O gráfico logo abaixo mostra a relação que existe entre crescimento do PIB ou crescimento da economia (linha azul no gráfico abaixo) com a valorização das ações listadas na bolsa que fazem parte do índice Bovespa, mede o desempenho das ações mais negociadas no Brasil (linha preta e eixo direito no gráfico abaixo).

Embora o gráfico mostre uma desaceleração na taxa de crescimento em 2019, o mercado entende que a queda dos juros, aprovação de reformas e outras medidas terão impacto positivo em 2020. Com isso o mercado antecipa e precifica os eventos futuros.

 

Outro gráfico que mostra o crescimento da atividade econômica utiliza como indicador o IBC-BR. Fica bem evidente a retomada do crescimento.

Aumento nas vendas

Quando as empresas vendem mais, lucram mais e distribuem dividendos, suas ações se valorizam na Bolsa. O gráfico abaixo mostra o índice de volume de vendas. Ele considera um valor 100 para 2014 e depois mostra a evolução sobre esse valor 100 até 2019. Veja que voltamos aos níveis anteriores aos da crise que afetou o país depois de 2015. Isso nos ajuda a entender a grande valorização das ações de várias empresas do setor de varejo.

 

Outro “termômetro” importante que nos fala sobre retomada da atividade econômica é a venda de veículos. Diversas empresas se beneficiam com o crescimento desse setor. Isso vai desde empresas que produzem matéria-prima, peças, seguradoras e bancos que oferecem financiamentos.

Emprego e ocupação

Outros números importantes que indicam recuperação da economia estão ligados ao trabalho. O primeiro gráfico abaixo mostra a taxa de desocupação. Quanto menor o número de desocupados, melhor para a economia. O segundo gráfico logo abaixo mostra a geração líquida de empregos formais mensalmente.

Os números do emprego formal não refletem muito bem o crescimento da ocupação, pois precisamos considerar todos que trabalham atualmente sem carteira assinada, como muitos prestadores de serviços, pessoas que trabalham com a ajuda de aplicativos (exemplos: UBER e Ifood), pessoas que vendem na produtos/serviços na internet ou nas redes sociais.

O gráfico logo abaixo mostra o crescimento do PIB (linha verde) e o crescimento da ocupação informal (barra marrom). A imprensa costuma criticar o trabalho informal, mas a informalidade não é necessariamente ruim quando estamos passando por um momento de crise.

Muitas vezes as pessoas iniciam pequenos negócios, não só por terem perdido o emprego, mas por terem percebido que empregos são formas limitantes de trabalho e geração de renda.

Conheço pessoas que agradecem por terem perdido seus empregos no passado, pois isso as motivaram a iniciar um negócio ou mudar de profissão (para uma atividade autônoma). Trabalhando por conta própria você também tem a liberdade para trabalhar mais horas e mais dias, pois geralmente quanto mais você trabalha por conta própria, mais ganha.

Muitas empresas grandes nascem de uma iniciativa informal. Essas pequenas atividades informais podem se transformar em negócios que vão gerar empregos formais no futuro.

Endividamento e consumismo

Agora vamos adivinhar o que parte da população faz assim que consegue um novo emprego ou aumenta sua renda através de uma atividade informal complementar?

Elas pegam seus comprovantes de renda e procuram uma forma de se endividar. Com isso elas conseguem comprar agora, utilizando o dinheiro que ainda vão ganhar no futuro.

Isso costuma ser muito ruim para as finanças pessoais, mas muito bom para os resultados financeiros das empresas que dependem desse endividamento para vender e lucrar mais. Várias empresas listadas na bolsa estão se beneficiando com o aumento do consumo através do crédito.

O gráfico logo abaixo mostra que o saldo de operações de crédito para pessoas físicas (eixo direito na linha pontilhada marrom) se aproxima de R$ 2 trilhões. Os que mais cresceram recentemente foram os financiamentos de imóveis e crédito consignado. Normalmente as pessoas se endividam no crédito consignado para reduzir dívidas que possuem juros maiores, como o cartão de crédito.

Juro Estrutural

A taxa de juro estrutural seria uma taxa de juro que só existe na teoria, que já tem a inflação descontada e que faria os preços dos produtos e serviços se estabilizarem enquanto a economia cresce (crescimento sem inflação).

Quando o Banco Central, através do COPOM, define uma Taxa Selic que, descontada da inflação, fica abaixo da taxa de juros estrutural, ele espera como resultado um aquecimento da economia.

Sabemos que juros baixos desestimula o ato de poupar (usando a renda fixa) enquanto estimula o consumismo, financiamentos e investimentos na economia real (abertura de negócios e investimentos em imóveis) e investimentos no mercado de renda variável (exemplo: ações e fundos imobiliários).

No gráfico logo abaixo temos as expectativas do mercado financeiro com relação a essa taxa estrutural desde 2010. Atualmente a taxa Selic, já com inflação descontada, se encontra abaixo do juro estrutural e isso significa uma tentativa do Banco Central reaquecer a economia enquanto tenta levar a inflação para o centro da meta. Já falei sobre isso de forma mais profundada no artigo Queda da Taxa Selic.

Já quando a Taxa Selic, menos a inflação (juro real), se encontra acima da juro estrutural, a atividade econômica tende a se retrair, assim como a inflação. Temos mais gente poupando (aproveitando os juros altos da renda fixa), menos gente consumindo, menos endividamentos e financiamentos, menos investimentos no setor produtivo e na bolsa de valores.

Projeção da inflação

Por fim, temos um gráfico muito interessante nos relatórios de inflação que mostra um “leque de possibilidades” para a inflação nos próximos anos com base na realidade que temos agora.

Podemos observar um “degradê” azul para a inflação acima até 2022. O azul mais escuro mostra a inflação mais provável e as mais claras são menos prováveis. A linha preta no centro gráfico representa o centro da meta de inflação que o Banco Central tentará atingir (ela vai diminuir nos próximos anos).

As linhas pontilhadas mostram valores máximos e mínimos para a meta. Quanto menor a inflação, mais espaço o Banco Central tem para baixar os juros com o objetivo de motivar o crescimento econômico.

Ciclos de alta na bolsa

Muitos investidores acreditam que estamos vivendo um novo ciclo de alta da bolsa que pode durar alguns anos, como nos 4 ciclos anteriores nos últimos 55 anos. Na figura logo abaixo temos destaque para os 4 ciclos de alta através do índice Bovespa dolarizado. Você pode ver esse gráfico maior visitando aqui.

Sabemos que juros baixos, inflação baixa e comprometimento do governo em controlar e reduzir gastos públicos estimulam o investimento produtivo (abertura de empresas), investimentos em imóveis e investimentos ativos financeiros derivados desses dois setores como ações negociadas na bolsa e fundos imobiliários. Veja no gráfico abaixo o desempenho do índice Bovespa entre 2016 e 2019

É claro que não podemos esquecer que existem eventos internos e externos, fora do controle e impossíveis de prever, que podem ajudar ou atrapalhar nesse processo de recuperação da economia e valorização dos investimentos de renda variável.

Por esse motivo, só devemos investir em renda variável aquela parte do nosso patrimônio que aceitamos correr riscos sem que isso nos quebre se as tendências não se perpetuarem e as projeções não se confirmarem.

Como educador eu sempre gosto de destacar que o melhor investimento é aprender a investir. Olhando os ciclos anteriores e onde estamos nesse momento, podemos imaginar que ainda existe muito espaço para o crescimento. Precisamos nos preparar para esse ciclo de tal forma que possamos aproveitar a janela de oportunidade.

Separe 15 ou 30 minutos do seu dia para ler sobre investimentos. Se está faltando tempo, retire esses 15 minutos do tempo que você gasta nas redes sociais, grupos de WhatsApp, sites de notícias e jornais que falam sobre problemas que você não pode resolver.

Leitura recomendada: lista de livros sobre investimentos.

Receba novos artigos por e-mail: