Com a nova queda da Taxa Selic para 4,25% tudo indica que teremos rentabilidade real negativa em grande parte dos investimentos de renda fixa (pós-fixada) nos próximos meses.

Podemos entender isso observando a trajetória da inflação (no gráfico abaixo) que já está em 4,31% nos últimos 12 meses (fonte).

Como você já deve saber, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) mantém a rotina modificar a taxa básica de juros do país como uma forma de acelerar ou desacelerar a atividade econômica.

Assim o governo pode motivar ou desmotivar as pessoas e as empresas a tomarem determinadas decisões sobre consumo, endividamento e investimentos. Isso acaba impactando todos os números da economia.

No momento, o objetivo do Banco Central, é o de desestimular o ato de poupar ou de realizar investimentos mais conservadores como os de  renda fixa. A ideia é fazer você sacar o seu dinheiro para gastar comprando carros, casas, coisas que acumulamos nas casas etc. No caso dos investimentos, a ideia é motivar você a comprar ações de empresas, investir na abertura de um negócio, investir na construção de imóveis ou qualquer outra atividade produtiva que possa consumir recursos, gerar empregos e aumentar a arrecadação de impostos.

O gráfico acima mostra que a venda de títulos públicos por meio do Tesouro Direto registrou aumento de 72% no ano passado, para R$ 30,882 bilhões. Desse total, R$ 21,324 bilhões foram de resgates antecipados (títulos Tesouro IPCA e Tesouro Prefixado) e, outros R$ 9,591 bilhões, a resgates devido ao vencimento do do título.

Nesta quarta-feira (05/02/2020) atingimos a menor taxa de juros da história. O Banco Central anunciou (veja logo abaixo) a interrupção da sequência de reduções dos juros. Essa última sequência de cinco reduções começou em 2019.

“O Copom entende que o atual estágio do ciclo econômico recomenda cautela na condução da política monetária. Considerando os efeitos defasados do ciclo de afrouxamento iniciado em julho de 2019, o comitê vê como adequada a interrupção do processo de flexibilização monetária – Banco Central – (fonte)”,

No gráfico abaixo você pode observar que tivemos uma primeira sequência de reduções que se iniciou no final de 2016, quando a Selic estava em 14,25%, e terminou em março de 2018 com a Selic em 6,50%. Em julho de 2019 começamos outra sequência de reduções dos juros que terminou agora em fevereiro de 2020.

Uma taxa de 4,25% ao ano parece baixa quando observamos o gráfico acima. Na última quarta-feira (29/01/2020), o Federal Reserve (Fed), banco central dos EUA, manteve seus juros entre 1,5% e 1,75% ao ano. Em países que fazem parte da Zona do Euro já faz tempo que essa taxa é de 0%.

Aqui no Clube dos Poupadores eu mantenho um ranking mundial de juros. Ele mostra a taxa de juros, inflação e o que sobra dos juros quando descontamos a inflação (juros reais). Observe que agora o Brasil tem juros reais negativos como nos países ricos e desenvolvidos. O problema é que ainda falta o país se tornar rico e desenvolvido.

Muitos economistas estão dizendo que a inflação de 4,31% (acima da Selic) ocorreu por uma pressão de preços específica e que não vai se manter nos próximos meses. Devemos observar que recentemente o IBGE atualizou a “cesta” de produtos e serviços que ele monitora para calcular a inflação. Como você pode observar logo abaixo a lista estava muito defasada. Também devemos considerar a decisão do governo de permitir que o dólar se mantenha em patamares elevados. É o chamado “novo normal“.

A redução da Taxa Selic afeta imediatamente todos os investimentos de renda fixa, pois todos dependem da Taxa Selic ou do CDI (que costuma ser igual ou um pouco menor que a Selic).

Já teremos reduções na rentabilidade do Tesouro Selic,  poupança, dos fundos de investimentos mais conservadores e títulos pós-fixados emitidos por bancos como CDB, LCI, LCA etc.

Devemos lembrar que a Taxa Selic que remunera o título público Tesouro Selic não é a “meta da taxa” que é de 4,25%. A Selic diária deve ficar na casa dos 4,15% e essa é a taxa usada na remuneração do Tesouro Selic.

A taxa DI (CDI) também ficará com seu valor próximo de 4,15% ao ano. Como a poupança paga 70% da meta da Selic teremos a poupança rendendo algo próximo de 2,975% ao ano ou míseros 0,24% ao mês.

Devemos lembrar que investimentos de renda fixa como o Tesouro Selic são prejudicados com o pagamento de taxas, como é o caso da taxa de 0,25% ao ano cobrada pela B3 sobre o valor dos títulos públicos que as pessoas possuem. Fundos de investimentos conservadores também cobram taxas anuais que se tornam mais prejudiciais à medida que a rentabilidade desses fundos cai, sem falar no efeito negativo do come-cotas.

Além disso, vários investimentos de renda fixa são penalizados pela cobrança de imposto de renda, que são maiores quando você precisa do dinheiro em prazos menores do que 2 anos.

Para compensar a redução na rentabilidade dos investimentos de renda fixa, se torna cada vez mais importante dedicar tempo estudando e montando sua carteira de investimentos, onde necessariamente você terá que destinar uma parte do seu dinheiro para investimentos de renda variável.

Não devemos esquecer que os investimentos de renda variável, como o próprio nome já diz, sofrem constante variações e isso é normal. Na verdade isso é necessário. O importante é observar se essas variações no longo prazo seguem uma tendência de alta.

No gráfico abaixo podemos observar o quanto as bolsas brasileira e americana valorizaram nos últimos 5 anos. Observe que a bolsa valoriza através de movimentos de impulso depois de um movimento de retração.

Imagine um jogador de basquete que precisa dobrar as pernas para realizar um salto. Se ele dobrar menos, o salto será pequeno, se dobrar mais o salto será maior. As vezes ele cai no chão, mas logo se levanta. É assim que a bolsa se comporta. Esse processo de retrair e expandir faz parte do seu funcionamento.


Devemos nos esforçar ao máximo para reduzir os custos que temos para manter nossas reservas na renda fixa, pois cada pequena taxa, cada percentual fará enorme diferença diante de rendimentos cada vez menores. Ao mesmo tempo, devemos obter o conhecimento e a experiência para ampliar os investimentos de renda variável minimizando os riscos. Como mostrei no artigo anterior, muitas vezes a renda variável nos é ofertada como um grande saco cheio de laranjas boas e ruins. Devemos aprender a escolher boas laranjas.

A renda fixa continua tendo o seu papel de oferecer liquidez (dinheiro disponível sempre que necessário) e mesmo com juros baixos, uma boa parte dos seus investimentos devem se manter na renda fixa como se fosse um “seguro”. O papel da renda variável será o de compensar as perdas da renda fixa. Evite a ideia de que a renda variável existe para fazer você rico de forma rápida. Normalmente é baseada nessa ideia que muitos perdem dinheiro na renda variável. Entenda que a renda variável se movimenta por retrações e expansões e as vezes as retrações podem ser grandes e se você estiver preparado para comprar bons ativos, essas retrações são momentos de preparação para a próxima expansão.

Fique atento(a) para a possível variação de preços de ativos que subiram muito nos últimos anos graças aos ciclos de queda dos juros. Se o mercado alimentar expectativas futura sobre o início de um ciclo de alta dos juros, certamente isso será precificado em fundos imobiliários, ações e especialmente aquelas ações que são atrativas por pagarem dividendos. Em outras palavras, a demanda por determinados ativos por determinados preços se justificam pela expectativa de juros baixos. Se os juros subirem nos próximos anos, todos eles serão reprecificados para baixo. Se você investe em renda variável sem ter se aprofundado primeiro através de livros e cursos eu recomendo que você dedique tempo a essa atividade.

Leitura recomendada: lista de livros sobre investimentos.

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