Tudo indica que estamos em “rota de colisão” com uma nova realidade para o investidor conservador brasileiro. Essa realidade são os investimentos de renda fixa com juro real zero ou até mesmo com juro real negativo.

Juro real é o que sobra quando descontamos a inflação.

Se todos os seus investimentos juntos rendem 10% ao ano e a inflação no período registrar 5%, sua rentabilidade real, ou seja, com a inflação descontada, será de apenas 4,76%. Podemos dizer que os 10% são juros nominais e os 4,76% são juros reais (veja a calculadora de juros reais onde podemos descontar a inflação dos juros nominais). Quando descontamos os impostos temos juros reais líquidos que são ainda menores.

É importante prestar atenção no juro real, pois a inflação faz o seu dinheiro perder o poder de compra, ou seja, com o passar do tempo você comprará cada vez menos com a mesma quantidade de dinheiro.

O juro real, acima da inflação, zera a perda do poder de compra e ainda agrega algum poder, permitindo que você compre mais no futuro se poupar e investir previamente.

Juro real baixo tende a estimular o crescimento da economia. Quando a economia cresce o governo arrecada mais impostos. Quanto mais dinheiro da população está no controle dos políticos, melhor para os políticos.

Uma forma extrema que o governo pode adotar para desestimular o ato de poupar, com o objetivo de estimular o consumismo e o aumento da arrecadação é reduzindo a taxa básica de juros (que é a base da remuneração da renda fixa) até que ela se aproxime da inflação.

Quando isso acontece, as pessoas perdem o interesse em guardar dinheiro, pois percebem que o prêmio pelo esforço de poupar hoje, para gastar no futuro, está ficando cada vez menor.

Quando o juro se torna pequeno ao ponto de não ser capaz de reparar os danos da inflação, poupar passa a ser uma atividade que produz custos (perdas) e não uma atividade que produz lucros (ganhos), pois a inflação acima dos juros farão os preços aumentarem mais do que os ganhos que temos ao poupar.

Recentemente escrevi um artigo no novo site de notícias The Capital Advisor com o título “Renda fixa Pode Ter Juros Reais de Zero em 2020” sobre o fato das instituições financeiras estarem recalculando suas projeções para a Taxa Selic e a inflação em 2020, depois que todos foram surpreendidos com uma deflação em setembro. Recomendo a leitura, pois é com base nessas projeções que os grandes investidores começam a se posicionar.

Como você pode ver no acompanhamento que realizo mensalmente na página “Melhores Investimentos” a inflação está se movimentando em níveis muito baixos, mesmo com dólar elevado. Isso motiva o Banco Central a reduzir ainda mais os juros para reaquecer a economia.

Considerando que o Banco Central tem como meta manter a inflação em 4% em 2020 (fonte) e que as instituições financeiras estão projetando inflação de 3,78% (fonte) existe espaço para que o Banco Central reduza a Taxa Selic até 4% em 2020 como alguns economistas estão prevendo.

Com Selic de 4% e inflação entre 3,78% e 4% corremos o risco de vivenciar juros reais muito próximos de zero em 2020.

O objetivo do Banco Central é levar a inflação para a meta enquanto estimula o consumo das pessoas e das empresas. Quem tem dinheiro perde o interesse em poupar e passa a gastar mais. Quem não tem dinheiro, gasta mais através de empréstimos e financiamentos.

Aqui no Clube dos Poupadores temos um gráfico que mostra a Taxa Selic, Inflação e Juros reais (veja aqui) que é atualizado todos os meses.

Vou compartilhar aqui um estudo que fiz recentemente para meu uso pessoal sobre essas projeções da Taxa Selic, Inflação, Juros Reais e o movimento do índice Bovespa. É importante lembrar que uma projeção é uma hipótese baseada em dados passados e no esforço de imaginar um futuro provável entre muitos possíveis e improváveis. Em outras palavras, trata-se de uma estimativa que poderá ou não acontecer.



O estudo possui um botão de “Play” para ser atualizado automaticamente no futuro. Com isso será possível ver se as projeções das instituições financeiras sobre juros baixos, juro real baixo e inflação próxima da meta irão se cumprir. Vou deixar esse estudo fixo no final dessa página aqui. A ferramenta que utilizei é essa aqui, a mesma que ensino a utilizar nos meus livros de renda fixa e ações e que permite estudo gráfico de ações e de indicadores econômicos.

Na parte superior do estudo temos o IBOV (linha cinza) que é o índice utilizado pelo mercado para medir o desempenho das ações mais negociadas na bolsa brasileira. Ele está representado em um gráfico de linha, com as movimentações diárias e uma média móvel de 200 dias (linha vermelha) que é um indicador para a direção da tendência do índice.

O canal de alta foi desenhado por mim. É bem clara a informação de que o índice está se movimentando dentro de um canal de alta que começou quando a inflação (linha vermelha no gráfico inferior) começou a recuar ainda em 2016. Quando a Taxa Selic começou a cair, ainda em 2016, a bolsa já tinha iniciado o ciclo de alta.

Podemos projetar esse canal de alta até 2020 (onde deixei uma linha vertical pontilhada) e considerar a possibilidade do índice atingir entre 140 e 150 mil pontos (possibilidade não é uma certeza). Essa é a expectativa de muitas instituições e seus analistas.

Na parte inferior do estudo temos a linha azul que representa meta da Taxa Selic, a linha vermelha que representa o IPCA anual (inflação) e a linha preta que representa o juro real ou o que sobra da Taxa Selic quando deduzimos a inflação. Isso representa bem o que teremos de rentabilidade média na renda fixa até 2020.

As linhas pontilhadas até 2020 foram desenhadas por mim e levam até os números que as instituições estão projetando: Selic de 4%, IPCA de 3,78% e juro real de 0,21%. Os números na cor azul, vermelha e preta representam os valores atuais que serão atualizados no futuro.

Considerando que temos imposto de renda ou come-cotas sobre os rendimentos da renda fixa, considerando que nem sempre a renda fixa rende mais do que 100% do CDI e que fundos de renda fixa cobram taxas muito elevadas, provavelmente teremos renda fixa com juros reais e líquidos de impostos negativos no futuro para a maioria dos pequenos investidores.

Se por um lado a rentabilidade da renda fixa está em queda livre, a rentabilidade da renda variável tende a subir com juros em queda e inflação controlada, especialmente se a economia voltar a crescer de forma consistente nos próximos meses e anos.

Se a economia não voltar a crescer, teremos o pior dos mundos: renda fixa com baixa rentabilidade, inflação elevada, dólar em alta e renda variável em queda.

Grande parte das empresas listadas na bolsa se beneficiam quando a Taxa Selic está em queda e isso ocorre por diversos motivos.

Se as pessoas estão menos motivadas a poupar, elas tendem a gastar o dinheiro que ganham nas compras. Se os juros de empréstimos e financiamentos caírem, as pessoas tenderão a consumir mais através das dívidas. Isso resultará em mais vendas, mais lucros e consequentemente mais valorização das ações das empresas na bolsa.

A baixa rentabilidade na renda fixa também aumenta a demanda por ações ou por investimentos que demandam a compra de ações, como o caso dos investimentos em fundos multimercado e fundos de ações. Grande parte das pessoas que investem em ações ainda fazem isso indiretamente através de fundos.

Essa maior demanda antecipa a alta nos preços das ações, antes mesmo da economia voltar a crescer com as empresas registrando fundamentos melhores.

Tudo isso torna evidente a necessidade de o investidor buscar mais conhecimento para investir uma parte do que possuem na renda variável. A ideia aqui não é ficar rico rápido, como muitos prometem. O investidor mais conservador só precisa evitar que o seu dinheiro renda menos que a inflação e para isso ele só precisa expor uma pequena parte do seu patrimônio aos investimentos de maior risco que possam se beneficiar com as mudança que o mercado está sofrendo.

Quando comecei o Clube dos Poupadores em 2013, o juro real tinha atingido seu menor nível histórico. O problema é que naquele tempo o cenário era totalmente diferente. A inflação estava elevada, acima da meta, chegando a 6,7% na metade de 2013. Já a Taxa Selic tinha sido reduzida para 7,25% por motivações políticas, no sentido contrário dos fundamentos econômicos. A bolsa continuava em queda. O resultado da redução dos juros com uma inflação elevada foi a disparada da inflação nos meses seguintes juntamente com a necessidade de dobrar a Taxa Selic para controlar essa alta da inflação.

É por esse motivo que os juros em queda entre 2012 e 2013 não resultaram em um ciclo de alta na bolsa de valores, pois existia o entendimento de que a política econômica estava equivocada. Com o tempo essas políticas resultaram na crise econômica que vivemos até os dias de hoje.

O cenário de queda dos juros e Taxa Selic que provavelmente teremos até 2020 é totalmente diferente do que ocorreu até 2013. Os juros estão em queda por consequência de uma inflação em queda consistente em um ambiente de economia desaquecida no Brasil e no mundo.

Em 2013 o país estava na beira de um poço profundo, escorregamos, caímos e em 2016 chegamos no fundo do poço.

Se os políticos que temos atualmente (de todos os partidos) reduzirem seus esforços para cavar um poço ainda mais profundo, a saída do poço será para cima. Se você tem suas reservas e sabe investir bem o seu dinheiro, a saída do poço é para cima.

Não podemos evitar o poço, a chuva e inundação, mas podemos nos preparar para qualquer situação antes que elas aconteçam.

Por esse motivo é importante aumentar nossos conhecimentos e estudos sobre renda variável, sem esquecer a importância da renda fixa como reservas de emergência, segurança financeira e liquidez.

Leitura recomendada: lista de livros sobre investimentos.

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