Vou compartilhar e depois comentar este artigo escrito pela economista Zeina Latif, doutora em economia pela USP e economista-chefe da XP Investimento. Por ser cliente da XP, recebi o artigo por e-mail. Foi-me enviado pelo gerente que me atende na corretora.

Entrei em contato com ele e perguntei se existia algum problema em publicar o artigo aqui no Clube dos Poupadores. Ele encaminhou minha mensagem para a Zeina Latif que respondeu não ver problema em tornar o artigo público aqui no site. Obrigado aos dois.

O artigo nos leva a refletir sobre os danos econômicos que podem ser provocados pelas consequências das investigações na Petrobras (Operação Lava Jato). Os problemas na economia podem afetar o nosso bolso de forma direta e indireta. As maiores empreiteiras do Brasil estão envolvidas juntamente com políticos de diversos partidos e do próprio governo.

Um efeito em cascata poderia prejudicar diversos bancos que emprestaram dinheiro para as empresas envolvidas no escândalo ou para empresas que prestam serviços e fornecem produtos para estas empresas. Quando a saúde financeira dos bancos é atingida, todo o sistema fica em perigo, isto inclui o dinheiro das pessoas que investiram nestes bancos.

Como já falei em outros momentos, os grandes investidores contratam empresas de consultoria, contratam analistas políticos, economistas e profissionais qualificados para avaliarem o cenário e o desenrolar dos acontecimentos antes de investir. A população comum só fica sabendo o que acontece quando aparece no Jornal Nacional, ou seja, tarde demais. Segue o artigo:

Travessia difícil

Autora: Zeina Latif

O ajuste fiscal foi iniciado. Os resultados podem até tardar. Porém virão. A macroeconomia nos trilhos faz diferença, podendo, mais adiante, tirar a economia do atual estado recessivo. Mas como será a travessia até lá? Pior que o custo do ajuste fiscal no curto prazo poderá ser a materialização de um quadro adverso resultante dos desdobramentos da operação Lava-Jato.

Segundo a Petrobras, as baixas contábeis podem atingir R$88 bilhões. A empresa não conseguirá captar recursos e manter seus planos de investimentos. Como os vínculos da Petrobras com o setor produtivo cresceram muito nos últimos anos – em parte por conta da implantação do regime de partilha na exploração do pré-sal com participação mínima de 30% em cada empreendimento e da lei de conteúdo nacional -, cresce o temor de uma grande contaminação da crise na empresa sobre a economia. Teme-se um efeito dominó envolvendo várias empresas e setores: empreiteiras envolvidas no escândalo, empresas não envolvidas mas que participam de consórcios, bancos, fornecedores, fornecedores de fornecedores.

Outro tipo de contaminação é a financeira.  A nota de crédito da Petrobras já foi reduzida três vezes pela Moody´s em quatro meses. O risco de perda do grau de investimento é concreto, podendo contaminar o custo de captação de empresas brasileiras no exterior.

Fala-se em punir os executivos, e não as empresas. Mas não é algo simples, podendo esbarrar no Judiciário. Fala-se também em esforços para separar os negócios das empresas envolvidos no esquema de corrupção dos demais, tal que as empreiteiras não fiquem totalmente paralisadas.  Outra questão é não paralisar projetos em andamento. Como garantir a devida punição, mas ao menor custo econômico possível? Será possível uma versão brasileira da Operação Mãos Limpas da Itália na década de 1990, que puniu empresários, membros do governo e parlamentares, sem causar, no entanto, um colapso da economia?

O fato é que Lava-Jato poderá ser um grande teste para a lei de recuperação judicial, criada em 2005, que permite acordos entre devedor e credor e viabiliza a empresa superar a situação de crise, buscando evitar a falência.

Até então, com casos isolados, a lei tem funcionado bem, com significativa queda do número de falências requeridas. Passados poucos anos de aplicação da lei, as falências caíram em um sexto, segundo a Serasa. A dificuldade do momento atual é a magnitude e extensão do processo, envolvendo grandes construtoras, com efeito em cascata.

A recuperação judicial traz implicações importantes, pois a empresa pode enfrentar dificuldades para fazer novos contratos com órgãos públicos, e os bancos credores são obrigados a reconhecer as perdas em seus balanços. As perdas dos bancos seriam grandes, principalmente de bancos públicos, que são os mais expostos, com impacto negativo sobre o mercado de crédito. Vale citar que, segundo a imprensa, as 23 empreiteiras citadas na Lava-Jato têm dívidas que superam R$100 bilhões. Portanto, a intenção é evitar que grandes empreiteiras citadas na Lava-Jato entrem em recuperação judicial.

O entorno não ajuda. Pelo contrário. Os indicadores de atividade econômica e de inadimplência da pessoa jurídica indicam que as empresas estão enfrentando dificuldades financeiras, sendo um movimento ainda em curso. Caso a economia estivesse em fase benigna do ciclo econômico, a absorção da crise seria mais fácil.

Os atrasos no pagamento de empréstimos bancários no segmento livre estão em alta há um ano, tendo atingido 6% do estoque do crédito. É verdade que não foram atingidos valores recordes; ainda assim, a tendência de alta preocupa. O atraso no pagamento de empréstimos bancários pode ser a ponta do iceberg, estando as empresas, muitas vezes, já inadimplentes com o fisco e fornecedores.

As estatísticas de falência e de recuperação judicial também já tiveram dias melhores. Voltaram a subir depois de alguns meses em queda. A fraqueza da atividade econômica sugere mais deterioração desses indicadores adiante. Importante notar que estas são variáveis anticíclicas e sentem com alguma defasagem o ciclo econômico, de forma que acelerações no crescimento econômico geram recuo nas estatísticas de falência e recuperação judicial, e vice-versa, com uma defasagem temporal de 1 a 2 trimestres. Por este aspecto, há mais deterioração por vir nos indicadores financeiros das empresas, independentemente da operação Lava-Jato.

Adicionam-se a isso os custos extras enfrentados pelas empresas por conta do quadro de escassez de energia e água. As empresas estão tendo que se adaptar à escassez com gastos e investimentos que afastam o empresário da rota de ganhos de produtividade no processo produtivo.

Os riscos no cenário são relevantes. E diferente da crise de energia e água, que sabemos como administrá-la no curto prazo, no caso via racionamento, as consequências da Lava-Jato são mais imprevisíveis e de difícil administração.

O timing de superação desta crise é bastante incerto. Quanto mais se arrastar, maior o impacto na economia. Até lá, a agenda de empresas e do governo será mais de controle de danos do que de crescimento.  Um retrocesso.

Zeina Latif é Economista-Chefe XP Investimentos

Meus Comentários:

Fica clara a preocupação da economista sobre as consequências das investigações da operação Lava-Jato. Segundo ela, estas consequências seriam piores do que as provocadas pelas medidas de ajuste fiscal adotadas pelo Ministro Joaquim Levy (já comentei aqui) e piores que a crise de energia e água que podem ser resolvidas com o racionamento. (já falei sobre o risco de racionamento e os efeitos no seu bolso).

Os efeitos da operação Lava-Jato na economia e no nosso bolso são imprevisíveis e podem gerar um efeito cascata atingindo até mesmo os bancos, onde muitos brasileiros possuem dinheiro investido.

Até o final de 2014 a Petrobras era a maior empresa do Brasil em valor de mercado. Perdeu o posto para a fábrica de cerveja (fonte). Quando uma empresa do porte da Petrobras resolve cortar 30% dos seus investimentos (fonte), isto produz um efeito cascata sobre todas as empresas que vendem produtos e serviços para a Petrobras e sobre todas as outras empresas que vendem para estas empresas.

Sozinha, a Petrobrás é responsável por 10% de tudo o que se investe no País. Quando ela corta investimentos, isto atinge negativamente toda a cadeia de fornecimento. Para cada R$ 1,00 investido pela Petrobras outros R$ 0,90 eram investidos pela cadeia de empresas que dependem dos projetos da Petrobras. (fonte)

Só a Petrobras produz 2% de toda riqueza gerada no Brasil em um ano.  As grandes construtoras do país, (a maioria está sendo investigada na Operação Lava Jato), também têm um peso significativo no PIB. Juntas, seus investimentos chegam a 2,8% das riquezas produzidas no país durante um ano. Estas empreiteiras também estão cortando investimentos e enfrentando dificuldades para pagar o que devem aos bancos.

Uma importante agência de classificação de risco chamada Moody’s rebaixou, mais uma vez, a nota de crédito da Petrobras (fonte). Na semana passada a Fitch, outra importante agência, fez a mesma coisa (fonte). Empresas como Construtora Queiroz Galvão, Galvão Participações, Galvão Engenharia e Mendes Júnior Trading e Engenharia (MJTE) também já tiveram suas notas rebaixadas (fonte). Para empresas de grande porte, não existe nada pior do que ter a nota de crédito rebaixada. Isto significa que a empresa oferece risco maior de calote e que será difícil conseguir dinheiro emprestado de bancos e investidores. Os bancos até aceitam fazer empréstimos já que estas empresas podem oferecer bens como garantia de pagamento, só que os juros cobrados tende a ser maior.

O problema é que bancos públicos e privados já emprestaram muito dinheiro para estas empresas (com juros baixos) na esperança do milagre econômico prometido depois da descoberta do pre-sal.

Bancos pequenos como o Banco Pine já enfrentam dificuldades pelos empréstimos que fez. Quem investe em LCI e LCA já deve conhecer este banco. Existem corretoras que oferecem suas LCIs e LCAs. Eu mesmo tenho uma pequena quantia investida neste banco.

Recentemente a agência de risco Moody´s rebaixou a nota do Banco Pine (fonte). Muito do dinheiro que eles conseguem captar dos investidores se transformam em empréstimos para grandes empresas. No caso do Banco Pine, uma parte destas empresas faz parte de setores da economia brasileira que estão enfrentando problemas neste momento: empresas do setor de açúcar, álcool, energia renovável e construção civil.

O fato é que o Banco Pine, como diversos outros bancos brasileiros, incluindo bancos estatais e grandes bancos, fizeram empréstimos para empresas envolvidas na operação Lava jato. Quem não emprestaria dinheiro para as maiores empreiteiras do Brasil que estavam envolvidas em projetos da ex-maior empresa do Brasil (Petrobras) que estava investindo para extrair petróleo de uma das maiores reservas já descobertas no mundo?

A construtora OAS, que teve alguns dos seus executivos presos (fonte), é uma das que pediu dinheiro emprestado para o Banco Pine e que deixou de pagar suas dívidas financeiras no início do ano (fonte). Tudo isso afetou os lucros do banco (fonte).

O Banco Pine é apenas um exemplo. É certo que outros bancos também emprestaram dinheiro para empresas que estão com lucros prejudicados, direta ou indiretamente pelas operações ou pelos cortes nos investimentos.

A Petrobras parou de pagar as empreiteiras. As empreiteiras pararam de pagar fornecedores e bancos. Estes fornecedores e os bancos estão amargando prejuízos e recorrendo à justiça para conseguirem receber. O resultado futuro destas ações na justiça pode ser a decretação de falências destas empresas (fonte).

Agora em janeiro de 2015 o Banco Pine ofereceu LCA pagando 12% de juros (prefixado). São 12% líquidos de impostos já que LCA continua isenta de IR. Era uma ótima rentabilidade. Sempre alerto que os bancos pagam juros mais elevados quando existe um risco maior. Os bancos sempre pagam o mínimo possível para conseguirem captar dinheiro. Por isto, antes de investir em bancos pequenos é importante ter consciência do risco e tomar a decisão se compensa. Vale lembrar que para investimentos menores que R$ 250.000,00 existe a proteção do Fundo Garantidor de Créditos, veja o artigo que já escrevi.

O economista Ilan Goldfajn (economista-chefe e sócio do Itaú Unibanco, maior banco privado do Brasil) disse em um artigo publicado no site do Itaú (fonte) que estamos diante de uma tempestade perfeita. O ex-ministro da Fazenda, Delfim Netto já previa a tempestade perfeita que estamos vivendo hoje em 2013 (fonte).

Segundo o Goldfajn é muito difícil atingir a meta fiscal em 2015, levar a inflação para o centro da meta e ao mesmo tempo conseguir apoio político para as medidas que devem ser tomadas. Ele chama isso de “trindade impossível na economia brasileira”. No final do artigo ele diz acreditar que o combate da inflação será adiado.

Acredito que teremos inflação mais elevada (acima do teto da meta) e juros elevados por mais tempo para combatê-la. O boletim Focus, que é uma pesquisa feita entre mais de 100 economistas das principais instituições financeiras, mostra que eles acreditam em uma inflação que supera 7% em 2015 (fonte). Quanto maior a inflação, mais o governo tende a subir juros.

Conclusão:

Antes de investir em bancos pequenos é importante conhecer quais são os limites de segurança oferecidos pelo Fundo Garantidor de Créditos. É importante entender como funciona a classificação de risco e como consultar esta classificação (veja aqui). Quem já investiu em LCI, LCA, CDB e poupança desses bancos menores (como eu) não precisa se preocupar se respeitou os limites do FGC. Os empréstimos que dão origem a papéis como LCI e LCA possuem imóveis ou bens agrícolas como garantia. Os bancos podem tomar e leiloar estes bens dos devedores.

Quem ainda não investiu deve considerar que as taxas de juros elevadas que eles oferecem são proporcionais aos riscos que você corre. Banco não oferece juro elevado por bondade. Fazem isto por necessidade. O problema não é investir em bancos pequenos que tiveram nota de crédito reduzida e que por isto oferecem juros maiores. O problema é fazer isto sem entender o que está fazendo. Você pode investir e aproveitar taxas maiores, mas para isto deve ter consciência que juros elevados são prêmios para compensar riscos maiores. No risco você deve colocar uma parcela menor do seu patrimônio, justamente aquela parcela que você aceita correr riscos para obter uma rentabilidade maior.

Leitura recomendada: lista de livros sobre investimentos.

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