Eu estou me preparando para quatro anos difíceis para a economia, não para os investimentos. No meu ponto de vista, se a coisa já estava ruim é provável que piore ainda mais caso o governo continue afirmando que não existe nada de errado. Já para os investimentos, tudo depende da sua capacidade de ver e aproveitar as oportunidades.

No primeiro dia depois da reeleição o Ministro da Fazenda Guido Mantega disse:

“Estou feliz com o resultado das eleições isso mostra que população está aprovando a política econômica que estamos praticando.” (fonte)

Entendo essa frase como um aviso de que, na opinião dele, nada irá mudar daqui para frente. Em entrevista concedida pela presidente neste dia 27/10 ficou claro que na próxima semana, medidas econômicas serão anunciadas publicamente. Vamos esperar para ver se teremos mais do mesmo ou alguma coisa realmente nova vai acontecer para mudar os rumos da economia. (fonte)

Segundo o jornal Valor Econômico (28/10) o ex-presidente Lula já recomendou três nomes para a escolha do novo ministro da fazenda. São eles: Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco. Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central e ex-presidente do BankBoston (EUA) que já foi deputado do PSDB, e Nelson Barbosa, PhD em economia, prof. da FGV, ex-secretário-executivo do Ministério da Fazenda que foi demitido pela Dilma em 2013, já trabalhou no Banco do Brasil e Banco Central (veja como ele pensa). Não é a primeira vez que o Lula pede para a Dilma tirar o Mantega. Para saber o quanto o Ministro da Fazenda e o Presidente do Banco Central interferem no seu bolso, veja o artigo que escrevi sobre o COPOM. Neste artigo você vai perceber que a equipe econômica é tão importante quanto a Presidente da República.

Recentemente o IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada que é uma fundação pública federal vinculada à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República do Brasil, divulgou a 24º Carta de Conjuntura que mostra um retrato da situação econômica em que nos encontramos.

Fiz questão de usar este documento oficial do IPEA como base para este artigo pois eles fornecem suporte técnico e institucional às ações governamentais para formulação de políticas públicas e programas de desenvolvimento. Você pode acessar o relatório e todas as planilhas visitando aqui. De nada adiantaria utilizar o material que tenho acesso, produzido por analisas do mercado, pois certamente alguém aparecia para questionar os dados, acusando os analistas de terroristas, pessimistas, tendenciosos e outras barbaridades ditas por pessoas que querem esconder a realidade, motivadas algum interesse pessoal, institucional, ideológico, político, etc.

Um recado para quem acredita que defendo políticos. Na minha opinião os políticos são muito parecidos, não importa o partido, não importa se são de direita ou de esquerda. Eles brigam na nossa frente como se fossem inimigos e nas costas são amigos, parceiros e companheiros de trabalho, pois todos são sustentados pelo Estado e pelo nosso dinheiro. Isso explica alianças do PT com pessoas “diferentes” com Collor, Maluf e Sarney. Isso explica alianças do PSDB com a Marina Silva que já foi do Partido Revolucionário Comunista (Marxista),  ex-CUT, ex-PT, ex-PV, agora PSB.  Quem briga com os amigos e parentes para defender políticos, na verdade está fazendo exatamente o que eles querem que você faça. Prefira defender ideias e não políticos. Partido político não é um time de futebol e nem religião e por isto você não deve se comportar como torcedor fiel ou um fanático religioso (é isso que eles querem). Não deixem que te manipulem, pois só quem ganha com a desunião da população que paga impostos, são eles! Quanto mais a população ficar desunida e dividida, mais fraca ela se torna. Já ouviu falar na frase “Dividir para dominar?” É assim que eles pensam, pois sabem que um povo unido dificilmente será vencido e dominado.

Onde estamos:

Se durante a campanha você acreditou que a economia estava muito bem, a inflação estava controlada e o Brasil estava pronto para crescer, lamento informar, mas mentiram para você. O que a presidente e sua equipe econômica disseram  para a população leiga, nos debates e nas entrevistas, é o contrário do que órgãos técnicos do próprio governo (como o IPEA e IBGE) estão dizendo para os economistas, investidores, empresários e estudiosos. Basta ler as primeiras páginas da Carta de Conjuntura do IPEA para comprovar a enorme contradição entre o que falam para leigos e o que falam para quem entende do assunto. O motivo é evidente. Os leigos são a maioria e os que entendem do assunto ainda são minoria. Nossa educação é falha e não temos condições de entender a realidade plenamente.

Os políticos podem mentir livremente sem consequências e ainda recebem apoio de muitas pessoas. Já os institutos de pesquisa, do próprio governo, trabalham com números e os números não mentem (apesar de poderem ser manipulados ou escondidos da sociedade).

O governo anda fazendo enorme pressão contra os profissionais que trabalham no IPEA e no IBGE para evitar a divulgação de números negativos sobre o país. Recentemente um diretor do IPEA pediu demissão (veja notícia) após o governo restringir a divulgação de estudos técnicos sobre a miséria no Brasil, que desmentiam o que o governo estava falando para os mais leigos. O mesmo está acontecendo com o IBGE que sofre interferências políticas como você pode ver nesta outra notícia.

Este comportamento não é exclusivo do PT. Em São Paulo é fácil observar que o governo local e as empresas envolvidas estão escondendo a gravidade do problema de abastecimento da população leiga e fornecendo dados reais para investidores como você pode ver aqui. O problema ocorre em todas as partes.

1) Estamos em recessão técnica oficialmente confirmada pelo IPEA (e negada pelo governo) na página 9 da Carta de Conjuntura. Isso é muito grave embora o governo não admita a gravidade.

 O resultado desse quadro foi uma recessão técnica, com queda de 0,6% do PIB na passagem do primeiro para o segundo trimestre de 2014, após queda de 0,2% no primeiro, no número revisado. Reitere-se que, nas últimas décadas, recessões técnicas só ocorreram em momentos em que o país foi atingido por choques negativos importantes: na virada de 2008 para 2009, sob pleno efeito da crise financeira internacional; em 2001, por conta do “apagão” energético; no início de 2003, como reação à crise cambial de 2002; e, em 1998-1999, após a crise da Rússia e a flutuação cambial no Brasil. Nestes momentos, o que se viu foi a interrupção mais ou menos súbita da atividade econômica seguida por custosos ajustes – em regra, marcados por aceleração da inflação, desvalorização do câmbio, recessão e aumento do desemprego. A situação atual é, nesse sentido, bastante diferente. 

2) O governo diz que a taxa de desemprego está baixa porque estamos gerando emprego neste momento. O relatório o IPEA desmente afirmando que existe uma desaceleração no crescimento do emprego que está sendo anulada pelo “expressivo recuo da população economicamente ativa, cuja taxa de retração foi de 0,9% nos oito primeiros meses de 2014.” O número de pessoas que desistiram de procurar emprego cresceu. Para o governo só é desempregado quem está procurando emprego. Outros órgãos de pesquisa como o DIEESE apontam o dobro (mais de 10%) de desemprego quando comparado com os números do governo (fonte).

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3) O relatório afirma que o governo não demonstra preocupação com o possível descontrole da inflação, mesmo com ela próxima do limite da meta (o que é grave) e já estando acima da meta quando calculamos o acumulado dos últimos 12 meses. O último Relatório de Inflação divulgada pelo BC não é nada animador (você pode acessar aqui) já que o dólar está subindo.

Logo abaixo você pode ver o leque de possibilidades de inflação do relatório. Quanto mais escura é a linha, maior a probabilidade desta ser a inflação futura. As linhas mais claras para cima mostram como será a inflação se as condições piorarem (como o aumento do dólar) e as linhas mais claras para baixo indicam uma situação favorável e otimista. Perceba que em condições muito ruins a inflação pode atingir 8% no final de 2015 e em condições normais ficará próximo de 6%. Para ver outros gráficos você pode acessar aqui.

4) O documento também diz que o baixo crescimento do PIB é um problema e vai acabar afetando o mercado de trabalho (aumento do desemprego) comprometendo os resultados fiscais, pelo impacto negativo que exerce sobre a arrecadação (empresas produzem e vendem menos e o governo arrecada menos). Sem dinheiro o governo não pode investir e não pode fazer política social. Para arrecadar mais ele pode aumentar impostos e até emitir moeda gerando inflação. O IPEA nega que a crise mundial seja a única explicação para o fraco resultado do Produto Interno Bruto (PIB) registrado ao longo dos últimos quatro anos, como vem sendo dito pelo ministro da fazenda.

Qualquer pessoa pode observar o gráfico abaixo e constatar que existe alguma coisa errada com a economia durante o atual governo. Veja o artigo que já escrevi sobre como o PIB interfere na sua vida e nos seus investimentos. Em 2014 o mundo deve crescer em média 3,3% enquanto o Brasil deve crescer menos de 0,3%.

5) Os juros devem continuar subindo segundo o IPEA. O texto diz que a a inflação acima da meta não dá espaço para a redução das taxas de juros, segundo o próprio diagnóstico do Banco Central discutido na seção Moeda e Crédito do relatório, embora algumas medidas de apoio ao crédito estejam sendo experimentadas.

6) O IPEA fala que não existe espaço para novas reduções de impostos e nem condições de manter a expansão dos gastos.

7) Eles afirmam que os efeitos negativos da situação economia em que nos encontramos têm sido atenuado pelo fato de a taxa de desemprego permanecer baixa e dos rendimentos reais continuarem crescendo. Por este motivo o bem-estar da população ainda não foi atingido.

8) Eles concluem que há tempo e espaço para tratar de questões estruturais que viabilizem o processo de retomada do crescimento em consonância (harmonia) com a queda gradual dos níveis de inflação e a redução do déficit externo, sem comprometer o emprego e a renda. E isto só pode ser feito através de ganhos de produtividade. Segundo o relatório, para que possamos ter ganhos de produtividade será necessário mais investimentos, seja em capital, seja em educação e inovação. O relatório conclui: Portanto, todo o esforço da política econômica deve estar voltado para a criação de condições propícias ao investimento, com destaque para aqueles voltados à infraestrutura.

Pessimismo generalizado:

No momento que os donos das empresas e investidores (internos e externos) percebem que o governo não é capaz de conduzir a economia de forma a favorecer o investimento, eles simplesmente param de investir. O empresário que pensava em abrir novas lojas acaba desistindo. O industrial que planejava abrir ou ampliar fábricas desiste. O investidor que pretendia investir dinheiro nas empresas que iriam investir na produção, também desiste. Os trabalhadores percebem que as empresas estão desistindo de projetos e o medo do desemprego gera pessimismo no consumidor. Este pessimismo se reflete na queda do consumo que por sua vez faz as empresas venderem menos e o governo arrecadar menos. O governo que arrecada menos fica sem dinheiro para fazer o que ele precisa fazer. Quando o governo é corrupto e desvia parte do que arrecada a situação é ainda pior, gerando mais desconfiança, mais pessimismo e mais fuga de investimentos.

Não adianta o governo fazer cara feia, colocar a culpa nos empresários, investidores e sistema financeiro criando um duelo entre Governo (protetor do povo) e Empresas (inimigos do povo). Se não existe uma relação de confiança entre quem tem dinheiro (mercado) e quem tem poder (governo), não existe investimentos e as riquezas não são produzidas e muito menos distribuídas entre os trabalhadores e a população que não trabalha por algum motivo.

O governo não produz riquezas, ele só tira as nossas riquezas para redistribuir (isso deveria ser feito de forma inteligente e justa). Quem gera as riquezas do país são as empresas e seus trabalhadores. A sociedade se divide basicamente entre os que geram emprego, os que dependem de emprego e os que vivem dos impostos que estes dois são obrigados a pagar.

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Se o governo não faz a parte dele, que é criar um ambiente favorável para que as pessoas possam se sentirem confiantes em investir e empreender, o país continuará enfrentando problemas. Lembre-se que 99% das empresas brasileiras são micro e pequenas empresas e que juntas elas geram mais de 60% dos empregos privados.

O setor industrial gera 11% dos empregos no Brasil e este número está caindo pois vivemos um processo de desindustrialização. O empresário sem confiança para de investir. A pesquisa abaixo mede o Índice de Confiança da Indústria. Quanto menos confiante, menos o empresário investe, menos fábricas são abertas e menos riqueza produtiva é gerada. Se a sociedade não gera riquezas, o governo fica sem ter de onde tirar dinheiro.

Para onde vamos:

Se nada for feito pelo atual governo, as coisas vão se tornar complicadas e os problemas vão bater na sua porta. Eu torço para que o atual governo assuma que alguma coisa está errada. A quantidade de pessoas que não votaram ou votaram na oposição foi muito grande e o recado de que a coisa precisa melhorar já foi dado. Eu tenho esperança que eles tenham percebido que, no mínimo, a equipe econômica e a política econômica precisam melhorar.

Se estas mudanças forem favoráveis para o investimento e o aumento da produtividade, certamente as empresas e os investidores voltarão a investir no Brasil, da mesma forma que fizeram depois da eleição do Lula e do anúncio da equipe econômica que tinha Henrique Meireles no Banco Central e Pedro Malan no Ministério da Fazenda. Isto foi motivo de reclamações dentro do PT, mas o fato é que os empresários se sentiram mais confiantes e o Brasil cresceu como nunca, as empresas cresceram, venderam muito aqui e lá fora e com isto patrocinaram (através dos impostos) os avanços sociais com aumento da renda e sua distribuição.

Como ficam seus investimentos:

Poupança: Ela continua rendendo pouco e com sérios riscos de perder da inflação se ela não for controlada. Veja como ela é remunerada. Recomendo que leia os artigos que escrevi recentemente sobre a poupança.

Títulos privados: Os títulos pós-fixados emitidos por bancos como LCI e LCA devem se beneficiar se os juros voltarem a subir para controlar a inflação.

Títulos Públicos: LFT é o título público mais conservador por ser pós-fixado, entenda como funciona.  Como você pode ver neste artigo ele é uma alternativa para a poupança que possui dinheiro que só será usado no longo prazo. Para os mais experientes, os títulos prefixados podem oferecer uma ótima oportunidade quando os juros atingirem o topo, antes de um novo ciclo queda dos juros. Entenda mais aqui.

Dividendos: A melhor forma de ganhar dinheiro na bolsa no longo prazo é aprender a investir para ganhar dividendos. Os dividendos são os lucros que as empresas apuram regularmente e distribuem para todos que possuem ações preferenciais (PN) que podem ser compradas por qualquer pessoa na bolsa de valores através de uma corretora. Você já ouviu falar no Luis Barsi? Ele é chamado de “Rei dos Dividendos”. Fazem décadas que ele compra ações de empresas (principalmente quando as ações estão baratas em momentos de crise) para receber dividendos. Quando recebe estes dividendos ele compra mais ações que irão gerar mais dividendos. Veja a história dele. Existe um livro digital muito bom que ensina a investir em dividendos do Rafael Mariano, conheça o livro aqui. Se a economia não crescer a bolsa continuará em queda e você pode aproveitar este momento para investir em boas empresas que pagam bons dividendos pensando no longo prazo. O importante é perceber que ações são investimentos arriscados para quem não se prepara antes.

Fundos Imobiliários: Podem oferecer boas oportunidades de investimento, principalmente se os juros voltarem a subir. Os investidores de fundos tendem a vender suas cotas na busca de melhores rentabilidades na renda fixa quando os juros estão elevados. Isto permite uma oportunidade de compra de cotas que bons fundos. Não conheço ainda um livro fácil de didático sobre fundos imobiliários. Veja o primeiro artigo que escrevi sobre fundos imobiliários.

Mercado imobiliário: Esse continuará desaquecido enquanto os juros estiverem elevados e a inflação continuar corroendo a poder de compra das famílias. Observe que quanto mais dinheiro da família ficar retido no supermercado, conta de luz, posto de gasolina, escolas, etc, menos renda familiar sobra para comprometer em um financiamento. Juros elevados também exigem uma renda maior para pagar parcelas maiores. A maior parte da população depende de financiamento e da sobra da renda familiar para comprar imóveis. O número de imóveis à venda, em muitas regiões do Brasil, tende a aumentar. Quanto mais pessoas querendo vender imóveis e menos pessoas podendo comprar imóveis, menos espaço existe para aumento de preços dos imóveis e mais disposição dos proprietários para negociar bons descontos. Em momentos de desespero (desemprego, crise, falta de liquidez, doenças) as pessoas podem oferecer condições extremas de desconto para aqueles que possuem dinheiro e podem comprar imóveis à vista. Boas oportunidades podem surgir para quem tem planos de investir em imóveis bons para locação como apartamentos pequenos e bem localizados, flats em regiões que possuem demanda por este tipo de imóvel, salas comerciais em endereços disputados, etc. Os maiores grupos de investidores que conheço que investem em imóveis para locação, aproveitaram momentos de crise para comprar imóveis baratos. Com isto podem oferecer aluguéis com valores competitivos e assim nunca faltam inquilinos. Recomendo a leitura do meu livro Como Investir em Imóveis.

Leitura recomendada: lista de livros sobre investimentos.