Sem uma reserva de emergência você corre sérios riscos no mundo em que vivemos hoje. Adversidades podem acontecer na vida de qualquer pessoa. Problemas sempre acontecem, só não sabemos quando irão acontecer. Mesmo que você espere que tudo na sua vida dê certo, você sempre deve estar preparado para o pior.

Imagine que acabou de acontecer um imprevisto na sua vida (fatalidade, acidente, tragédia, má sorte, injustiça, etc). Este imprevisto fez você perder a sua renda mensal. No mês passado você ganhou um salário X e nos próximos meses você não terá salário. Exemplo: demissão, acidente, falência do seu negócio, etc.

Diante deste cenário imprevisível, responda a seguinte pergunta: Por quantos meses você conseguiria manter o padrão de vida que possui hoje, sem mergulhar em dívidas, até conseguir recuperar a renda perdida?

A maioria das pessoas quebraria imediatamente, já que costumam acumular dívidas sem pensar no amanhã. Diversas pesquisas mostram que o brasileiro possui uma das menores taxas de poupança do mundo. Mais da metade das famílias gastam tudo que ganham. A outra metade usa o dinheiro que sobrou no final do mês para satisfazer desejos imediatos (roupa nova, calçado da moda, eletrônico que acabou de ser lançado, viagem, etc).

São poucos os que conseguem criar e manter uma reserva financeira para emergências. A maioria, quando o inesperado acontece, acaba recorrendo ao cheque especial, cartão de crédito, empréstimos consignados e outras modalidades de endividamento. Este comportamento do brasileiro é a alegria dos donos de bancos e financeiras.

Os bancos brasileiros são um dos mais lucrativos do mundo (fonte) graças a nossa falta de educação financeira e baixa poupança. O brasileiro literalmente passa a vida toda sustentando os lucros dos bancos por acreditar ser natural recorrer a eles sempre que precisa de dinheiro para uma eventualidade.

Até quando as compras são previsíveis (compra de um carro, casa, eletrônicos, viagem, etc) a população acha absolutamente natural assumir dívidas para consumir. O fato de o Brasil ser o país com as maiores taxas de juros do mundo não faz nenhuma diferença para pessoas que não sabem o que isto significa. (fonte)

Durante nossa vida, aprendemos que precisamos depender dos bancos e do crédito para realizar todos os nossos sonhos. Conquistar através do trabalho, poupança e investimentos é uma possibilidade quase que descartada. Conheço pessoas que satirizam aqueles que optam por fazer algum sacrifício hoje para comprar o que desejam amanhã com o próprio dinheiro, sem construir dívidas.

A mensagem que o banco quer passar no comercial abaixo é a seguinte: “Solicite nosso dinheiro emprestado e seja uma família feliz. Você não precisa planejar e muito menos se sacrificar para pagar IPTU, IPVA, matrícula e material escolar no início do ano. Gaste seu dinheiro viajando com sua família e quando ficar sem nenhum fale com seu gerente. Nós temos dinheiro para emprestar de forma rápida e fácil. Você passará o resto do ano pagando juros, só que isto é apenas um detalhe, o importante é ser feliz agora. Deixe o futuro para depois.”

Veja como este tipo de raciocínio, que atenta contra a educação financeira das pessoas, é ensinado para a população utilizando os meios de comunicação:

No próximo comercial a mensagem transmitida é a seguinte: “Se você é aposentado, não possui uma reserva de emergência e nem planejou sua aposentadoria no passado, não fique preocupado. O banco é o seu melhor amigo. Você pode contar com o credito consignado do banco para ser feliz agora. Veja nas imagens como os nossos clientes são felizes! Não importa se você passará 72 meses pagando juros que irão comprometer sua qualidade de vida ao reduzir a sua renda mensal. O importante é ser feliz hoje!”. Veja como isto é ensinado para as pessoas:

Veja que não importa se os bancos são públicos ou privados. Os bancos não falam de taxas de juros, prazos, riscos e outras questões que possam levar o cliente a tomar uma decisão racional e consciente. Os comerciais exploram questões emocionais que fazem as pessoas tomarem decisões movidas por impulsos. Eles utilizam personagens felizes, famílias felizes e crianças felizes graças ao crédito rápido e fácil que oferecem. Não podia ser diferente. O objetivo destes comerciais é apenas um: elevar os lucros dos bancos. A saúde financeira da sua família sempre será um problema seu.

Bancos lucram com a diferença entre os juros que pagam aos investidores e o quanto cobram para emprestar o mesmo dinheiro aos outros clientes (isto é chamado de spread bancário). Quanto menor é a poupança das pessoas, mais elas precisam do dinheiro emprestado pelo banco. Quanto menos educação financeira, maiores são os riscos dos bancos e por isto maiores são os juros que eles cobram para assumir estes riscos. Quanto maior a ignorância financeira das famílias, mais fácil elas aceitam pagar juros elevados sem questionamentos. Os impostos que o governo cobra dos bancos também colaboram para que o spread bancário do Brasil seja um dos mais elevados do mundo (fonte).

Para não passar a vida toda sustentando os bancos com os frutos do seu trabalho, comece fazendo o básico que é construir uma reserva de emergência. Antes de investir e antes de se endividar é fundamental que você construa a sua reserva. No momento que você cair, terá o seu próprio colchão financeiro para amortecer sua queda até que possa se recuperar.

Quanto ter de reserva para emergências:

A sua reserva de emergência deve ser suficiente para manter o seu padrão de vida por no mínimo 6 meses. O ideal seria construir uma reserva para pagar todas as suas contas por até 1 ano. Exemplo: se você tem uma despesa mensal de R$ 1.000,00 a sua reserva deveria ser entre R$ 6 mil e R$ 12 mil.

Se você não consegue formar reservas por não sobrar nada no final do mês, reveja o seu padrão de consumo. Provavelmente você adotou um estilo de vida mais caro do que o seu salário pode pagar. Neste caso, ou você busca meios de aumentar a sua renda familiar ou você deverá reduzir o seu padrão de consumo.

Funcionário Público: Se você é funcionário público e possui estabilidade no emprego, o risco de perder sua renda por uma demissão é menor. Mesmo assim, existem outras situações inesperadas como doenças, acidentes e todo tipo de imprevistos que podem gerar impacto negativo nas suas contas. Existem prefeituras e estados inteiros que podem enfrentar problemas financeiros e atrasar os pagamentos dos funcionários públicos. A reserva de emergência oferece proteção contra a necessidade de pedir empréstimos, principalmente os consignados que são fartamente oferecidos para funcionários públicos e aposentados.

Funcionário Privado: Quem é funcionário da iniciativa privada deve manter uma reserva de emergência maior. Exemplo: entre 6 e 12 vezes o valor mensal das suas despesas. Você deve avaliar quanto tempo levaria para encontrar um novo emprego se fosse demitido hoje. Existem profissões onde a recolocação é rápida, em outras o tempo de espera pode ser maior. Quanto maiores forem o seu salário, sua idade e sua qualificação profissional, mais tempo você levará para se recolocar em momentos de crise e por isto maior deverá ser a sua reserva para emergências.

Quem é demitido sem ter nenhuma reserva fica desesperado e corre o risco de aceitar qualquer oportunidade ruim que aparecer. Quem possui a reserva consegue tempo e tranquilidade suficiente para pesquisar novas oportunidades. A diferença entre as duas situações é enorme.

Recentemente conheci uma pessoa altamente qualificada que trabalhava em um setor específico da indústria brasileira que está passando por sérias dificuldades neste exato momento. O corte de investimentos de uma grande estatal provocou um efeito cascata que prejudicou várias empresas de diversos estados. Esta pessoa trabalhava em uma destas empresas que sofreu corte de projetos para esta estatal. O resultado foi que profissionais altamente qualificados, com altos salários, forma demitidos, já que os projetos foram paralisados e não existia previsão de quando seriam retomados.

O tempo necessário para este profissional qualificado conseguir se recolocar foi grande. Felizmente esta pessoa sabia desta situação e dos riscos que corria. Ela fez uma boa reserva de emergência quando a situação do mercado estava favorável. Graças a esta reserva a pessoa estava tranquila neste momento. A família não sofreu nenhum impacto financeiro. Existiam recursos suficientes para que a família pudesse se manter por mais de 1 ano com as reservas.

Empresários e Profissionais: Os profissionais liberais, autônomos e pequenos empresários precisam ter um cuidado maior com as reservas de emergência. Como pessoa física é fundamental ter reservas e como pessoa jurídica também. Dependendo da atividade onde você atua pode ser necessário manter reservas capazes de manter o seu padrão de vida e a operação da empresa por mais de 1 ano. A atividade empresária é a mais arriscada de todas. Se você é empreendedor, precisa estar preparado para todo tipo de adversidade. Trabalhar alguns meses no prejuízo costuma fazer parte de muitos negócios.

Endividados: Quando você assume dívidas de valor elevado e por prazos muito longos, a reserva de emergência se torna fundamental. Ela que garante o pagamento das parcelas caso você enfrente algum problema financeiro. Quem possui dívidas assumidas para a compra de imóveis e veículos precisa ter uma reserva. Basta ficar poucos meses sem pagar as parcelas para que o banco retome o imóvel ou o veículo para leilão. Atualmente os bancos conseguem tomar e vender o imóvel do devedor com uma enorme facilidade. O mesmo acontece com os veículos financiados. A reserva de emergência evita a perda do bem caso você passe por algum momento de turbulência financeira. Quanto maior a dívida e quanto mais longa for maiores são os riscos.

Investidores: Quando você tem investimentos de longo prazo, as reservas de emergência servem para proteger este dinheiro dos acontecimentos inesperados. Vamos imaginar que você está investindo em um título prefixado ou indexado pela inflação com o Tesouro IPCA pensando na sua aposentadoria ou na sua independência financeira. Você comprou títulos que só vencem em 2035 e não pode vender estes títulos, principalmente se as condições não estiverem favoráveis. As reservas seriam utilizadas para proteger o dinheiro que você destinou para a sua aposentadoria.

Existem pessoas que não conseguem manter dinheiro investido por muito tempo. Elas alegam que sempre acontecem problemas que as obrigam a sacar o dinheiro do investimento. O pior é que podem ocorrer perdas se o investimento for prefixado, possui carência ou sofrer muita volatilidade (renda variável como ações, imóveis, fundos imobiliários, etc).

Para evitar este problema é importante que todo investidor tenha uma parte do patrimônio investido em uma reserva para emergências. Mesmo aqueles que investem em renda variável e títulos prefixados de longo prazo precisam ter reservas aplicadas em investimentos de liquidez diária, pós-fixados, mesmo que isto signifique uma rentabilidade menor.

São estes investimentos mais conservadores e de baixa rentabilidade que oferecem a tranquilidade e segurança para os outros investimentos.

Onde investir a reserva de emergência

Como já falei neste artigo (leia aqui), não existe investimento perfeito. Cada investimento possui pontos fortes e fracos e você deve escolher os investimentos que mais atendem as suas necessidades. No caso da reserva de emergência o mais importante seria a liquidez, ou seja, a velocidade e facilidade com que você pode colocar o dinheiro investido no seu bolso.

Sabendo disto, não podemos dizer que imóveis são bons investimentos para uma reserva de emergência. Se você precisar do dinheiro imediatamente, terá que vender o imóvel por um preço abaixo do praticado pelo mercado para conseguir o dinheiro rapidamente.

Bons investimentos para uma reserva de emergência seriam: Caderneta de Poupança, CDB com liquidez diária, LCI e LCA com liquidez diária e fundos de investimento DI e Renda Fixa. Dólar e ouro não são bons investimentos como reserva de emergência já que seus preços costumam variar muito (volatilidade). Se você der o azar de precisar do dinheiro no momento em que a cotação do dólar ou do outro estiverem muito baixas, você terá perdas.

O título público Tesouro Selic também pode ser usado com parte do dinheiro da sua reserva de emergência. Desta forma, você teria uma parte da sua reserva de emergência com liquidez diária e outra parte com liquidez em alguns dias. Também existem alguns bancos que oferecem LCI/LCA com liquidez diária depois de uma carência de 90 dias (são raros).

Quando você consegue ter acesso a fundos que oferecem taxas administrativas baixas (abaixo de 1%) pode ser interessante trocar a poupança por fundos DI e fundos de Renda Fixa. Como a taxa Selic está elevada no momento em que escrevo este artigo, é provável que mesmo pagando IR sobre os rendimentos, mesmo com o efeito do come-cotas, mesmo com a taxas administrativa, os fundos possam ganhar da poupança. Tudo depende da taxa que você irá conseguir. Normalmente os bancos cobram taxas maiores de quem tem pouco para investir e menores para quem tem muito.

Nos meus livros sobre educação financeira e investimentos eu falo detalhadamente sobre cada um desses investimentos e ofereço diversos simuladores e planilhas que todo investidor deveria ter.

Desejos não são emergências

Conheço pessoa que não conseguem manter reservas de emergência por não saberem diferenciar o desejo de consumo da necessidade de consumo. Nem tudo que você deseja é realmente necessário. Na maioria das vezes você mesmo sabota a sua reserva de emergência criando todo tipo de justificativa para que desejos se tornem necessidades.

Recentemente conversei com uma pessoa que possui um iPhone (versão antiga). Ela se convenceu que deve mexer nas suas reservas para substituir o aparelho ultrapassado pela última versão do iPhone que custa mais de R$ 3.000,00. Apesar do iPhone antigo estar funcionando perfeitamente, ela acha que versão nova do aparelho irá melhorar a qualidade do trabalho que desempenha como profissional autônoma (na área de saúde).

Não existe nenhum fundamento lógico que justifique a substituição do aparelho. Não existe nenhum recurso no novo iPhone que esteja faltando no iPhone antigo que possa tornar o trabalho que ela desempenha melhor. Desta forma, o lançamento do novo iPhone não produz uma situação de emergência que justifique comprometer reservas que não foram feitas para isto.

Ela pode realizar desejos de consumo sem comprometer sua reserva de emergência. Basta poupar mais (renunciando outros desejos) ou trabalhar mais horas para realizar o desejo de ter um iPhone de última geração sem comprometer as reservas.

Comprar um smartphone novo seria uma emergência se ela perdesse o iPhone atual ou se ele estivesse quebrado. Mesmo assim ela poderia adquirir um smartphone de outra marca, que custa menos de R$ 700,00 e que possui todas as funções que ela necessita para o seu trabalho, sem comprometer suas reservas de emergência.

Dei o exemplo de um smartphone por ser uma questão comum nos dias de hoje. Poderia dar muitos outros exemplos que já pude observar lendo as histórias que as pessoas me enviam.

Se você tem um carro comprado no ano passado e a montadora acabou de lançar a versão deste ano, não existe nenhuma situação emergencial que justifique mexer no seu fundo de emergência para trocar de carro. Se a marca de roupas que você gosta acabou de lançar uma nova coleção e está oferecendo promoções, isto não é uma emergência. Se a empresa aérea ou a agência de turismo acabou de lançar uma super promoção de férias, isto não é uma emergência. Outro exemplo que já vi era um cidadão que morava em uma casa de R$ 400 mil e acreditava ser uma emergência mudar para um outro imóvel que valia R$ 800 mil (de R$ 900 mil o imóvel estava sendo vendido por R$ 800 mil). Para comprar este imóvel ele teria que vender a casa rapidamente (com perdas) e ainda assumiria uma dívida enorme com o banco. Para quem não possui nenhuma dívida e tem a sorte de ter uma casa própria, comprar um novo imóvel não é uma emergência. Ficar sem reservas seria um grande erro.

A reserva de emergência pode salvar sua vida

Uma vez vi a história de uma pessoa que descobriu ter uma doença degenerativa. Só existia uma possibilidade de parar os efeitos da doença em uma instituição de pesquisa em um país europeu. O tratamento custava mais de R$ 200.000,00, sem contar os custos com a viagem. Quanto mais o tempo passava mais a doença prejudicava seus movimentos. Ela era uma profissional bem sucedida que nunca se preocupou em construir patrimônio ou formar reservas para emergências.

Apesar de ter uma renda elevada, passou a vida toda consumindo tudo do bom e do melhor (carros, eletrônicos, maquiagens, vinhos, restaurantes, viagens, etc). Não se preocupou em ter uma casa própria, não pensou em poupar para o futuro e não tinha nenhum investimento.

Sem ter de onde tirar os R$ 200 mil para fazer o tratamento, teve de pedir ajuda para amigos a parentes. Chegou ao ponto de pedir dinheiro no sinal de trânsito. No final de alguns meses ela conseguiu o dinheiro necessário para o tratamento. Conseguiu retardar os efeitos degenerativos da doença e sobreviveu, apesar de carregar as sequelas pelo tempo que perdeu arrecadando o dinheiro.

A qualidade dos planos a saúde no Brasil também não é das melhores. Existem aqueles que duvidam que eles sejam economicamente sustentáveis quando a população idosa do país superar a população mais jovem. Não temos certeza se poderemos contar com bons planos de saúde nas próximas décadas (hoje a situação não é boa). Acredito que a tendência dos serviços públicos e privados de saúde é piorar no futuro se nada for feito agora.

Quem não tiver condições de pagar por consultas, exames e tratamentos particulares no futuro terá sérios problemas que deixam de ser financeiros e passam a ser uma questão de vida ou morte.

Comece sua reserva de emergência agora. Aprenda mais sobre investimentos.

Leitura recomendada: lista de livros sobre investimentos.

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