Veja como fica a rentabilidade dos seus investimentos de renda fixa e o impacto na renda variável com a nova Taxa Selic de 4,5% ao ano.

A cada 45 dias (8 vezes por ano) um comitê formado por membros o Banco Central (COPOM) define qual será a taxa básica de juros da nossa economia.

Essa taxa é utilizada como referência de diversos investimentos de renda fixa. Ela também interfere na demanda e consequentemente no preço de ativos de renda variável como ações e cotas de fundos imobiliários. Decisões como poupar, consumir, fazer dívidas, fazer investimentos financeiros ou investimentos produtivos sofrem interferência dessa taxa básica de juros.

Por isso a Taxa Selic também produz efeitos na atividade econômica e consequentemente na inflação. O Banco Central considera diversas variáveis como inflação (IPCA), atividade econômica (PIB), contas públicas, expectativas do mercado interno, câmbio e fatores externos. Ele observa dados passados e tenta fazer projeções sobre o futuro.

Decisões do COPOM

Todas as decisões do COPOM são publicadas nesse endereço aqui enquanto o histórico fica publicado aqui. No Clube dos Poupadores podemos acompanhar a Taxa Selic graficamente, veja aqui.

Inflação e Selic futura

A nota que divulga a última decisão (11/12/2019) (fonte) destaca as expectativas do mercado com relação a inflação futura que é de 3,6% ao ano para 2020, 3,75% para 2021 e 3,5% para 2022. Também destacam que em um cenário com dólar de R$4,20 a inflação projetada poderia ser de 3,7% em 2020. Nessa condição a expectativa citada na nota é de que a Taxa Selic possa atingir 4,25% no início de 2020 encerrando o ano em 4,50%.

Para 2021 a expectativa atual é de Selic em 6,25% ao ano. Isso significa que teoricamente, se todas as projeções se confirmarem, 2020 seria o fim do ciclo de quedas seguidas da Taxa Selic.

Todas as essas informações são importantes para o pequeno investidor.

Poupança

Quando a meta da Selic é igual ou menor que 8,5% a poupança rende o equivalente a 70% da meta da Selic (mais detalhes). Com meta da Selic em 4,5% podemos calcular que a poupança renderá 3,15% ao ano (4,5 x 70% = 3,15). Transformando 3,15% ao ano em uma taxa mensal temos a poupança rendendo 0,2588% ao mês (conversor de taxas equivalentes).

Fica bem evidente que a Poupança será incapaz de manter o poder de compra do dinheiro em 2020 caso ela ofereça um rendimento de 3,15% contra uma inflação esperada de 3,6% ou 3,7%.

A perda do poder de compra significa que os preços dos produtos e serviços devem aumentar mais no decorrer do ano do que o valor investido na poupança no mesmo período. Perceba que isso naturalmente estimula o consumismo imediato e desestimula a poupança. É por isso que o governo tende a reduzir os juros e a rentabilidade da renda fixa para aumentar a atividade econômica.

No Clube dos Poupadores temos uma página que mostra o saldo de todo dinheiro que existe aplicado na poupança. São mais de 800 bilhões aplicados por milhões de brasileiros. Todo esse dinheiro perderá seu poder de compra no decorrer de 2020 se as expectativas se confirmarem.

O ideal seria o investidor se “equipar” com os conhecimentos e as ferramentas necessárias para que continue poupando e investindo pensando no seu próprio futuro. O mundo dos investimentos possui oportunidades em qualquer cenário de taxa de juros, mas nem todos estão preparados para enxergar essas oportunidades.

Fundos de Renda Fixa

Os maiores fundos de renda fixa que temos no Brasil costumam ser os piores fundos com relação a rentabilidade. São fundos oferecidos por grandes bancos que normalmente cobram taxas administrativas tão elevadas que ficam com grande parte da rentabilidade que o investidor poderia ter na renda fixa.

Também estamos falando de bilhões que podem render menos que a inflação em 2020 dentro de diversos fundos de renda fixa. Existem muitos fundos que rendem pouco por culpa da cobrança de taxas administrativas elevadas e a cobrança de imposto na forma de come-cotas (15% dos ganhos a cada 6 meses).

É importante que você aprenda a buscar e analisar os fundos de renda fixa para investir nos que oferecem menores taxas e maiores rentabilidades, pois qualquer pequena diferença fará grande diferença neste ambiente de juros baixos e inflação muito próxima da taxa Selic.

Fiz uma busca para saber quais são os fundos de renda fixa do tipo “simples” e de “duração baixa” que renderam menos que 3,96% neste ano, ou seja, que renderam menos do que a poupança até novembro de 2019. Veja o resultado do filtro visitando aqui. Observe que grande parte dos fundos listados que renderam menos que a poupança são grandes fundos de grandes bancos. Em breve vou escrever um artigo falando mais sobre fundos de renda fixa.

Título Público Tesouro Selic

Aqui no Clube dos Poupadores temos um simulador de renda fixa online. Ele é baseado nos conhecimentos e planilhas que ofereço para os leitores dos meus livros que tratam de renda fixa.

As simulações que fiz mostraram que um investimento em Tesouro Selic 2025, mantido por pelo menos 2 anos, poderá ter um rendimento de 3,6% ao ano já líquido de impostos e da taxa de 0,25% da B3 que operacionaliza o Tesouro Direto. Se a inflação para 2020 se confirmar em 3,6% teremos o Tesouro Selic sendo capaz apenas de repor a inflação.

Com isso, o Tesouro Selic perde a sua função como investimento e se transforma em um meio para obter correção monetária. Se o dinheiro for retirado antes de 2 anos o imposto sobre a renda será maior e consequentemente a rentabilidade será ainda menor, podendo ficar abaixo da inflação.

Devemos nos acostumar com a ideia de que será cada vez mais difícil rentabilizar a parte do nosso dinheiro que precisa ter liquidez diária (pode ser sacado a qualquer momento) e que faz parte da nossa reserva de emergência.

CDB Pós-fixado

A vantagem do CDB pós-fixado em relação ao Tesouro Selic está na inexistência da taxa, como você sabe é necessário pagar uma taxa para a B3 para se investir em títulos públicos (0,25% ao ano). A desvantagem está na falta de liquidez e o fato dos bancos com os CDBs mais rentáveis serem bancos de menor porte que oferecem maior risco. O pequeno investidor precisa aprender a avaliar a relação de risco e retorno oferecido.

Um CDB que paga 120% do CDI, diante de uma taxa Selic de 4,5% e CDI em 4,4% ao ano terá uma rentabilidade de aproximadamente 4,58% ao ano se o investimento for mantido por pelo menos 2 anos.

Para 110% do CDI teremos 4,18% ao ano. Para 100% do CDI teremos 3,79% ao ano. Alguns bancos grandes oferecem CDBs que pagam somente 85% do CDI e isso produzirá uma rentabilidade de 3,20% ao ano. Para investir em CDB será importante buscar oportunidades que pagam mais de 100% do CDI. Essas oportunidades geralmente não estão nos grandes bancos. Através de várias corretoras é possível investir através desses investimentos emitidos por bancos menores.

Um ponto a ser observado sobre o CDB pós-fixado é que os que possuem melhores ganhos não possuem liquidez, ou seja, você precisa esperar a data do vencimento para ter seu dinheiro de volta + juros.

No meu livro sobre Como Investir em CDB, LCI e LCA eu ensino com mais detalhes sobre como encontrar CDB, LCI e LCA com as maiores taxas considerando as questões dos riscos e avaliações dos bancos.

 LCI e LCA

A vantagem da LCI e LCA está na isenção de imposto sobre o rendimento. O problema é que as LCIs e LCAs que pagam mais de 90% do CDI são raras, mas podem ser encontradas nas corretoras que oferecem investimentos de diversos bancos em um único lugar. Com Selic de 4,5% e um CDI de 4,4% uma LCI que paga 90% do CDI renderá 3,95% ao ano.

Com 95% do CDI, você terá 4,18% ao ano. É muito importante considerar a data de vencimento para só investir aquele dinheiro que você não vai precisar até o vencimento. Também considere os conhecimentos que você precisa adquirir para avaliar se o banco que oferece a LCI/LCA apresenta algum risco e por isso oferece investimentos com rentabilidades maiores que o restante do mercado.

Simulação de Renda Fixa

Veja o resultado de uma simulação de exemplo que fiz utilizando o nosso simulador online de renda fixa onde você pode utilizar seus próprios parâmetros:

 

No exemplo acima temos um investimento entre 12/12/2019 e 01/03/2025 considerando essa data com base no vencimento do título Tesouro Selic 2025. A simulação considera “Taxa Selic do dia” de 4,4% (que é sempre um pouco menor que a Meta da Taxa Selic) e CDI de 4,4% (que costuma ser próximo ou igual a taxa da Selic Dia). A Poupança está com rendimento de 0,2531% ao mês que equivale a 70% da meta da Selic. Estamos considerando um CDB que paga 110% do CDI e uma LCI ou LCA que paga 95% do CDI. No simulador você pode configurar percentuais diferentes para CDB e LCI/LCA.

O investimento simulado foi de R$ 10.000,00 e no simulador você também pode configurar qualquer valor. Os resultados são líquidos, ou seja, temos taxas e imposto de renda descontado. Podemos observar que neste exemplo a Poupança ofereceria a menor renda no vencimento.

CDB, LCI e LCA teriam o melhor resultado. Esse melhor resultado dos títulos emitidos por bancos como CDB, LCI e LCA não é gratuito. Ele precisa existir para compensar o risco maior de se investir em instituições menores que pagam juros maiores e a falta de liquidez, pois será necessário esperar até o vencimento.

Você pode fazer suas próprias simulações visitando simulador online de renda fixa. Nunca esqueça que simulações não são previsões. As taxas de juros podem e certamente vão mudar muito no futuro atingindo valores impossíveis de prever com alguma certeza. Como estamos estudando investimentos pós-fixados, mudanças nas taxas mudam a rentabilidade dos investimentos imediatamente. Vale lembrar que tudo que produzo aqui no Clube dos Poupadores tem objetivo educativo para estimular você a aprender mais sobre os investimentos.

Ações e Fundos de Ações

As ações são beneficiadas com a queda dos juros por diversos motivos. Existe a demanda maior por ações no momento que muitos investidores passam a destinar uma pequena parte dos seus investimentos de renda fixa para renda variável. A compra de ações diretamente ou indiretamente (através de fundos) elevam os preços das melhores ações e isso vem ocorrendo desde o final de 2016 quando os juros atingiram seu topo e existia expectativa do início de um ciclo de queda dos juros.

O gráfico acima mostra o índice Bovespa (linha preta) que reflete o desempenho das ações mais negociadas na bolsa brasileira. A linha azul mostra a Taxa Selic. Observe que em 2016, quando a Taxa Selic atingiu seu topo (acima de 14% ao ano), o desempenho da bolsa começou a melhorar diante dos primeiros sinais de queda da inflação e a possibilidade de início de um ciclo de queda dos juros (ciclo que dura até os dias de hoje).

Ações do setor elétrico e utilidades públicas que pagam bons dividendos regularmente são as mais demandadas pelos investidores em momentos de juros em queda. Juros baixos também estimulam o consumo e as vendas de empresas de diversos setores como as empresas do setor de varejo. Com a retomada do crescimento, as empresas tendem a vender mais, seus resultados financeiros serão melhores e isso vai se refletir em maior demanda por suas ações (produzindo valorização do patrimônio de todos que possuem essas ações).

Você pode consultar o ranking das ações que mais valorizaram no ano visitando aqui. Você verá muitas empresas que tiveram valorização de mais de 100% somente neste ano. Mas é importante destacar que nem todas as empresas que tiveram grande valorização no curto prazo são boas empresas quando pensamos em objetivos de longo prazo, pois muitos resultados positivos na bolsa são especulativos.

Nunca compre ativos de renda variável olhando o resultado passado. É importante aprender a avaliar os resultados financeiros das empresas e o seu histórico antes de investir pensando no longo prazo. Aqui no Clube já temos alguns artigos gratuitos sobre esse assunto. Também temos um livro completo sobre o tema, visite aqui.

É possível investir indiretamente em ações através de Fundos de Ações e Fundos Multimercado. Alguns fundos dessas categorias estão livres da cobrança de imposto de renda na forma de come-cotas (leia esse artigo) e isso é importante para o investimento de longo prazo. Também já mostrei uma ferramenta para buscar e estudar fundos de investimentos.

Fundos Imobiliários

Fundos imobiliários também são mais demandados pelos investidores com a queda dos juros. Essa maior demanda eleva os preços das cotas desses fundos que são negociados na bolsa através das corretoras. Muitos fundos imobiliários distribuem lucros mensalmente e os investidores costumam utilizar esses recursos para comprar ainda mais fundos imobiliários. Isso permite receber mais lucros no futuro.

A retomada do crescimento da economia estimulada pela queda dos juros também pode elevar os resultados financeiros dos fundos imobiliários. Muitos fundos lucram com o aluguel salas comerciais, lojas em shoppings e galpões que são mais demandados pelas empresas em momentos de crescimento da economia.

Esses ganhos são distribuídos entre os cotistas dos fundos e por consequência isso ajuda na valorização das cotas dos fundos (gerando ganho de capital).

Para consultar uma lista com todos os fundos imobiliários disponíveis e seus resultados visite aqui. É possível acessar mais informações criando uma conta gratuita. Esse site especializado também possui cursos online sobre investimentos em fundos imobiliários.

Títulos Prefixados

Existem títulos públicos prefixados e indexados pela inflação e também existem CDBs, LCI e LCA prefixados e até que pagam juros fixos + inflação. Pode ser tentador comprar títulos prefixados que pagam juros maiores que a Taxa Selic quando estamos com taxas tão baixas, mas antes de fazer isso você precisa prestar atenção em detalhes que nem todos costumam contar na internet.

É importante considerar que muito provavelmente estamos próximos de atingir as menores taxas de juros da história. Não teremos juros em queda para sempre e para baixo o limite está cada vez mais próximo. Para cima não existem limites.

No Brasil temos eleições a cada 4 anos. Sempre existe o risco de grandes mudanças nas políticas econômicas a cada troca de governo. Podemos julgar nossa habilidade em eleger bons políticos observando que na nossa história recente já tivemos diversos impeachments e casos de presidentes e vice-presidentes que foram presos e soltos acusados por diversos crimes. Tivemos até tentativa de assassinato na eleição mais recente. Isso é o Brasil.

Tudo isso significa que devemos ter muito cuidado ao realizar investimentos com juros fixos e prazos longos. O investidor deve ter em mente que prazos maiores representam riscos maiores e prazos menores representam riscos menores quando escolhemos investimentos com juros fixos ou juros fixos + inflação.

Não significa que você deva evitar investimentos com juros fixos. Significa que você deve entender os juros maiores que eles oferecem como um “prêmio” pelo risco que você corre ao apostar em uma determinada taxa até um determinado vencimento.

Você, como pequeno investidor, deve verificar se os juros para prazos longos justificam o risco de se viver em um país como o Brasil. Você deve considerar o custo e os problemas que sofremos pelo nível intelectual e moral dos políticos que costumamos eleger.

Quem é mais conservador deve selecionar investimentos prefixados que tenham vencimentos com prazos menores considerando que sempre existe o risco de os juros dispararem no futuro e da inflação disparar com base na incompetência das pessoas que tomam decisões no país e da rotatividade dessas pessoas a cada eleição.

Conclusão

Juros cada vez menores nos convidam a investir em conhecimentos e ferramentas que possam melhorar nosso desempenho como pequenos investidores.

Se você é um investidor conservador e acredita que o conservadorismo está mais ligado com falta de conhecimento, experiência e preparo, considere o custo no longo prazo de se manter esse tipo de conservador (não será barato).

Veja se não seria melhor investir um pouco de tempo para ler, estudar, fazer algum curso que traga o conhecimento necessário para que você se torne um investidor mais moderado.

Evite a tentação de investir considerando somente as recomendações de terceiros, sem adquirir a capacidade de avaliar se o que os outros recomendam faz algum sentido. Muitas vezes as recomendações não fazem sentido, pois os outros não conhecem sua vida, seus planos, seus valores, seu nível de conhecimento, habilidade e experiência sobre os investimentos e o seu dinheiro.

Você é o melhor especialista sobre sua vida. Com um pouco de conhecimento você se tornará o melhor especialista sobre sua vida financeira. Coloque isso como um objetivo para 2020.

Leitura recomendada: lista de livros sobre investimentos.

Receba novos artigos por e-mail: