2018: O pior ano da renda fixa


O ano de 2018 será lembrado como um dos piores anos da história para investidores com perfil conservador, que concentram os seus investimentos na renda fixa, principalmente em pós-fixados como poupança, CDB, LCI, LCA, fundos de renda fixa, Tesouro Selic e outros.

Foi em 2018 que a taxa Selic atingiu a sua mínima histórica. Essa taxa é definida pelo Banco Central a cada 45 dias e impacta diretamente todos os investimentos de renda fixa e indiretamente todos os demais.

O impacto é instantâneo na taxa DI (CDI) que é a referência para os fundos mais conservadores dos bancos e títulos privados que eles emitem como CDB, LCI, LCA, etc. A influência negativa gerada pela queda da taxa Selic na rentabilidade do título público Tesouro Selic também é imediata. A rentabilidade do “investimento” mais utilizado pelos brasileiros (a poupança) também é atingida, já que ela se limita a render 70% da taxa Selic quando a mesma está abaixo de 8,5%, como ocorre nesse momento. Logo abaixo temos o comportamento da taxa DI (CDI) acumulada nos últimos 12 meses.

O gráfico mostra quase duas décadas de uma grande tendência de baixa do CDI acumulado nos últimos 12 meses. Um investimento pós-fixado que rende o equivalente a 100% do CDI teria essa variação de rentabilidade nos últimos anos. Observe que a queda se dá na forma de diversos ciclos.

Veja que o início desse último grande ciclo de redução dos juros começou no dia 19/10/2016, quando a Selic foi reduzida de 14,25% para 14%, e terminou 518 dias depois quando a Selic atingiu a sua mínima (histórico da meta da Selic).

Essa redução da Selic fez o CDI cair 7,63 pontos percentuais, tornando a rentabilidade dos investimentos atrelados a ele 54,38% menor do que antes. Quando observamos o CDI de 2003 (26,22% ao ano) constatamos que hoje o CDI é 70% menor do que já foi 15 anos atrás.

É claro que o futuro é uma caixa de surpresas, mas se acreditarmos que tudo acontece seguindo tendências, para o futuro, podemos imaginar novos ciclos com um movimento de alta dos juros seguido de um movimento de baixa onde cada nova queda poderá nos levar para taxas ainda menores do que a registrada no ciclo anterior.

Observe a figura abaixo:

Veja na figura acima que podemos imaginar um “canal de tendência” e desenhar um novo ciclo (linha verde) respeitando a linha superior que faria o juro atingir algo acima de 8% nos próximos anos para depois cair para algo próximo de 5% ou até menos. Isso criaria uma nova mínima histórica para o CDI e taxa Selic. É claro que isso seria um cenário otimista para a economia do país. Podemos usar a imaginação para projetar todo tipo de cenário. São exercícios que todo pequeno investidor deveria ser capaz de fazer.

Quando o Banco Central reduziu a taxa Selic para a menor taxa da história, no primeiro trimestre de 2018, a sua verdadeira intensão era continuar essa redução dos juros por mais tempo. A inflação estava baixa e a atividade econômica precisava ser reaquecida. As manchetes da imprensa destacavam:

Diversos eventos impediram uma maior redução dos juros durante 2018. Em maio, tivemos greves e protestos que paralisaram o país (fonte). O desabastecimento fez a inflação disparar e muitos pediram o retorno do tabelamento de preços, especialmente o tabelamento dos combustíveis, como aconteceu na década de 80 durante os diversos planos econômicos desastrosos no governo Sarney (fonte). Depois, iniciamos um período eleitoral conturbado. Um pré-candidato estava preso (fonte). O outro estava hospitalizado após uma tentativa de homicídio (fonte). A tensão política no país atingiu níveis extremos. O dólar superou a sua maior cotação da história em relação ao real (fonte). A última vez que o dólar atingiu um preço tão elevado foi em janeiro de 2016, quando a taxa Selic estava na sua máxima (14,25%).

Enquanto tudo isso acontecia no Brasil, no exterior, os juros nos EUA continuavam a sua tendência de alta, a guerra comercial entre os EUA e a China se acirrava e o presidente Trump anunciava, para os seus 56 milhões de seguidores no Twitter, que “A Força Espacial (dos EUA) está a caminho”. Ele determinou a criação do sexto braço das forças armadas dos EUA que será uma “Força Espacial”, como aquelas dos filmes do “Star Wars” (fonte).

Mesmo com toda essa turbulência interna e externa, os juros no Brasil continuaram na sua mínima histórica. Isso nos sugere que se 2018 não tivesse sido um ano tão complicado, provavelmente o Banco Central teria encontrado espaço para reduzir ainda mais os juros para estimular a economia.

Tudo isso nos leva a creditar que os juros devem se manter baixos por mais tempo, principalmente se a recuperação da nossa economia continuar muito lenta. Além disso, se o governo conseguir implementar as reformas necessárias para equilibrar as contas públicas e se os níveis de irresponsabilidade fiscal e de corrupção no futuro forem menores, teremos mais motivos para que a taxa de juros se mantenha baixa por mais tempo. Mesmo com novos ciclos com aumento e redução de juros, os valores máximos e mínimos provavelmente seriam descendentes (cada vez menores).

Já se nada for feito e nenhuma reforma sair do papel, é bem provável que os nossos filhos e netos aprendam na prática como foi a vida econômica dos seus pais e avós nas décadas de 80 e 90, antes do Plano Real (recordando).

Uma nova realidade (de juros baixos) obrigará o investidor que se classifica como “conservador” a buscar os conhecimentos e as habilidades necessárias para se tornar um conservador de verdade.

Vou mostrar o que seria isso. Existe uma grande diferença entre ser um investidor conservador de verdade e ser um investidor que se classifica como conservador para mascarar diversas limitações que do investidor. Se o único investimento que você sabe fazer é aplicar dinheiro na poupança ou em um fundo oferecido pelo gerente de um grande banco onde você tem conta, você ainda não é um investidor conservador de verdade. Talvez você se classifique como conservador por uma limitação na sua capacidade de investir.

Vou apresentar um exemplo. Observe essa imagem que encontrei na internet e que foi atribuída a uma reportagem da revista Exame (não localizei a reportagem). Ela reflete a carteira de investimentos dos investidores conservadores, moderados e agressivos seguindo um padrão que podemos encontrar nos EUA ou em qualquer país onde a educação sobre investimentos é mais desenvolvida e os juros básicos da economia são baixos.

O gráfico acima mostra que o investidor conservador é aquele que possui pelo menos 5% do seu patrimônio em investimentos de renda variável, como ações ou fundos de ações (1%) e fundos imobiliários (4%). O conservador ainda teria até 13% dos seus investimentos em fundos multimercado. Esse tipo de fundo pode aplicar uma parte do dinheiro dos seus participantes em investimentos de renda variável como ações e fundos que investem em ações.

O conservador ainda teria 30% do seu patrimônio investido em títulos de renda fixa (como um CDB pré-fixado ou Tesouro Prefixado) ou fundos que investem nesses mesmos títulos de renda fixa. Teríamos ainda 12% do patrimônio investido em títulos públicos atrelados à inflação como Tesouro IPCA. Os 40% restantes estariam em títulos conservadores, pós-fixados, com Tesouro Selic, títulos privados como CDB, LCI e LCA ou fundos DI que investem o seu dinheiro nesses mesmos títulos cobrando elevadas taxas administrativas.

Eu conheço poucas pessoas que se classificam como investidores conservadores que possuem ações, títulos públicos, fundos imobiliários, fundos de ações e multimercado. As pessoas que possuem esse nível de diversificação no Brasil dificilmente se consideram conservadores, mas dependendo da parcela investida em investimentos de maior risco, elas são conservadoras.

Veja a tabela que encontrei em uma publicação estrangeira. O material sobre educação financeira que encontramos no exterior sugere que o investidor conservador possua entre 10% e 20% dos seus investimentos em ações ou em fundos que investem em ações. Isso parece muito distante da realidade do investidor conservador brasileiro.

O que chamamos de conservador no Brasil poderia ser chamado de “ultraconservador”. O problema é que esse tipo de investidor costuma seguir esse perfil por ter conhecimentos limitados, medos, preconceitos e até pouca vontade para dedicar algum tempo estudando e experimentando outras modalidades de investimento.

Esse tipo de investidor ultraconservador será o perfil mais atingido negativamente se o ano de 2018 for apenas o primeiro de muitos anos ruins para a renda fixa. Se 2019, 2020, 2021 e os outros anos apresentarem resultados tão ruins, certamente muitos projetos de aposentadoria e até de independência financeira estarão comprometidos por um histórico de juros muito baixos.

A independência financeira depende de três variáveis: o quanto podemos poupar, os juros dos investimentos que sabemos fazer e o tempo para atingir essa independência. Rentabilidade baixa e inflação elevada obriga o investidor a poupar mais ou buscar formas de elevar a rentabilidade dos seus investimentos. Na prática, só temos algum controle sobre duas variáveis (o quanto podemos poupar e a rentabilidade da nossa carteira de investimentos), já que o nosso tempo de vida é uma variável que ignoramos, mas sabemos que é limitada.

Se você acredita que é um investidor ultraconservador ou um conservador que pode melhorar, minha sugestão para 2019 é a de que você defina como prioridade deixar de ser conservador por limitação dos investimentos que você domina. Se você conquistar o conhecimento necessário para investir uma pequena parcela do seu patrimônio em investimentos de maior risco, certamente os seus resultados financeiros nos próximos anos serão potencializados, caso a economia volte a crescer.  É fundamental que você aprenda a tomar esse tipo de decisão livremente em qualquer cenário (de juros em alta ou em baixa)

Observe que a diferença entre um investidor conservador, moderado e agressivo não é a existência ou inexistência de investimentos de risco, mas sim, a proporção do patrimônio que o investidor consegue expor ao risco, com segurança, para obter rentabilidades maiores.

Teoricamente todos os investidores deveriam ter os conhecimentos para investir e qualquer ativo de renda fixa ou variável. Através de uma decisão consciente, esse investidor poderia estabelecer qual o tamanho do seu investimento exposto a riscos maiores. Neste caso, o investidor se classificaria como um conservador de verdade, plenamente consciente de suas escolhas em qualquer cenário.

Aqui no Clube dos Poupadores já temos centenas de artigos sobre todos os investimentos de renda fixa. Para um estudo mais rápido e aprofundado eu recomendo os meus livros mais recentes sobre como investir em títulos públicos e o livro como investir em CDB, LCI e LCA, mas tudo deve começar pelo seu projeto para atingir um maior nível de independência financeira.

Novidade: Na semana anterior ao dia do Natal, no dia 20 de dezembro, pretendo lançar o meu novo livro sobre investimentos na bolsa. Ele será voltado para o investimento de médio e longo prazo utilizando análise de gráficos. Para o futuro, pretendo escrever outros livros utilizando outros tipos de análise e outros tipos de investimento.

Nota importante: Para que eu possa ter mais tempo livre para escrever novos artigos e ainda possa concluir outros livros para 2019 e 2020, não teremos mais área de comentários nos artigos do Clube dos Poupadores. O tempo que utilizo para ler, aprovar e responder comentários se tornou maior do que o tempo gasto para escrever novos artigos gratuitos e livros. Nosso site já tem mais de 47.000 comentários respondidos por mim. Mesmo com todo o meu esforço, sempre existe uma fila com 2000 a 3000 comentários para serem lidos, aprovados e respondidos. A fila não para de crescer. Acredito que uma área de comentários só tem valor quando pode ser administrada, com cada comentário lido e respondido, mas isso exige tempo e esforço que poderia ser utilizado de outra forma. O nível do conteúdo das áreas de comentários dos sites de jornais e revistas comprovam isso. Para manter contato comigo teremos um formulário de contato.

Dia da sorte...

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Sobre o Autor:

Leandro Ávila acredita que o conhecimento é uma riqueza que precisa ser dividida para ser multiplicada. É formado em administração de empresas e se especializou em educação financeira e de investimentos. Escreveu livros sobre Independência Financeira, Investimentos em CDB, LCI e LCA, Investimentos em Títulos Públicos e em Imóveis.

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