Recentemente um grande banco contratou uma das consultorias mais respeitadas do setor energético para oferecer uma palestra (por teleconferência) para empresas clientes do banco. O objetivo do HSBC era mostrar para seus clientes institucionais quais são os riscos que correm com a possibilidade de apagões e racionamentos.

A preocupação do banco é justificada. Bancos emprestam muito dinheiro para empresas que por sua vez investem, lucram e pagam juros pelo que foi emprestado. O lucro dos bancos depende do lucro ou da renda de quem faz empréstimos. Se as empresas não tiverem energia e água para produzirem não conseguirão honrar seus compromissos.

A consultoria disse, para os clientes institucionais do banco,  que o risco de racionamento de energia já passou dos 50%.

O cidadão comum não tem acesso aos relatórios de consultorias especializadas. Nenhuma instituição financeira está preocupada se você está ou não bem informado sobre os riscos que corre em 2015 com uma eventual crise hídrica e energética. O governo (federal, estadual e municipal) faz todo esforço possível para esconder a realidade. Isto evitaria o pânico e a responsabilização de quem está no poder pela falta de planejamento dos recursos hídricos.

A população acaba sendo sempre a última a saber sobre a gravidade dos problemas, já que nenhum político quer carregar o peso de ter sido o responsável por decretar racionamentos ou assumir publicamente que existe uma crise.

Quando você assume que um problema existe, naturalmente as pessoas querem saber quem foi o responsável pelo problema. O governo tenta culpar a natureza, São Pedro e até Deus pelos problemas que estamos enfrentando. Para eles todos são culpados, até você que é o consumidor pagador de impostos. Ninguém fala sobre a falta de planejamento e investimentos no setor.

O problema não é antigo:

A situação é preocupante em diversos estados do Brasil desde o ano de 2012. Os primeiros sinais já haviam sido emitidos em 2010. No lugar de tomar uma providência o governo sempre acreditou que os níveis dos reservatórios se recuperariam no período de chuvas do ano seguinte. O problema é que a situação só piorou nos últimos anos.

O presidente da Agência Nacional de Águas já tinha alertado que seria necessário um dilúvio (repetiu isso 2 vezes) para recuperar apenas um dos sistemas que abastece São Paulo.

O problema está sendo empurrado com a barriga rumo a uma verdadeira calamidade. É revoltante quando observamos que todo problema se desenvolvia quando não faltava planejamento, muito menos dinheiro, para realizar a Copa do Mundo.

Um exemplo emblemático que se repete nos reservatórios de diversos estados pode ser visto no gráfico abaixo. Ele mostra o volume de água do sistema Cantareira em São Paulo. Cada linha representa o nível de água no reservatório durante 12 meses. Observe como os níveis não param de cair.

Observe que entre 2009 e 2013 o reservatório subia no período de chuvas mas sempre terminava o ano com uma forte queda. As chuvas de um ano não foram suficientes para suprir as perdas do ano anterior. Em 2014 a situação se agravou ainda mais já que as chuvas foram as piores de toda a série histórica.

Quando este gráfico foi feito pelo G1 o nível estava em 18%. Este aumento que você viu no gráfico, no meio de  2014, ocorreu quando o governo resolveu utilizar a água do chamado “volume morto”. O volume morto só deveria ser usado em situações de calamidade e começou a ser utilizado como se isto fosse a coisa mais natural do mundo. No momento em que escrevo este artigo o sistema Cantareira está com 5,1% da sua capacidade (praticamente seco). A foto mostra o local onde a água era captada antes da seca.

A Sabesp já informou que adotará medidas drásticas para evitar que o Cantareira seque totalmente. O corte poderia atingir 5 dias por semana. Seriam 2 dias com água e 5 dias sem água (fonte). O mesmo problema ocorre em reservatórios de várias regiões do Brasil, principalmente nas áreas mais populosas do sudeste e centro-oeste.

A foto mostra equipamentos retirando água do volume morto para abastecer parte de São Paulo. A aparência da água é péssima e muitos especialistas dizem que pode oferecer risco para a saúde das pessoas (fonte). As consequências, como a ingestão de metais pesados, só aparecem depois de muitos anos.

É fácil perceber que o problema é antigo e que sua gravidade estava sendo escondida da população. Nesta reportagem a ex-presidente da Sabesp disse que estava impedida de falar sobre seca e não podia falar da gravidade do problema em 2014. Em janeiro de 2015 ela deixou o cargo.

A verdade custa caro:

Grandes bancos, grandes empresas e investidores podem pagar por consultorias caríssimas para terem acesso a informações confiáveis. O jornal Valor Econômico entrevistou o Mario Veiga, presidente da PSR Energy, empresa de consultoria que foi contrata pelo HSBC para fazer a teleconferência com as empresas clientes do banco. O problema é que este tipo de reportagem também é restrita. Grande parte do conteúdo do site Valor Econômico é restrito para pagantes (R$ 464,20 por sua assinatura anual).

Fiz uma pesquisa entre diversos especialistas que já fizeram declarações sobre a situação atual. Resolvi escrever este artigo para te ajudar a entender o que está acontecendo e como isto afetará sua vida financeira em 2015.

Segundo Mario Veiga, da PSR: “…todos no governo estão dizendo meias verdades sobre o blecaute que ocorreu no dia 19” (fonte).  Outro especialista chamado Claudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil, que estuda a eficiência do sistema elétrico, disse que o apagão do dia 19/01/2015 (que afetou 11 estados e o DF) foi o primeiro de vários e que as soluções apontadas até agora são paliativas (fonte).

Só teremos energia até setembro?

O Veiga, da PSR também afirmou que, se não chover, ficaremos sem água suficiente nos reservatórios para geração de energia por volta de agosto ou setembro de 2015. O problema é que antes disso acontecer, já iremos sofrer com a falta de potência do sistema. Ele destaca que energia é a quantidade de água armazenada nos reservatórios. Potência (força) é quanto se pode gerar quando abrem as comportas das usinas hidrelétricas.

Segundo ele, hoje o sistema já opera com menos potência. A pouca geração provocou a queda na frequência do sistema e isto produziu o primeiro apagão de uma série de outros que podem ocorrer (se nada for feito).

Para o consultor, estamos vivendo esta situação porque o governo, em 2014, decidiu apostar que choveria no início de 2015 e que o verão seria ameno. Não foi feita nenhuma medida de racionalização de consumo, deixando os reservatórios chegarem ao pior nível da história. Na verdade esta aposta é feita desde 2012.

Nada indica que teremos um dilúvio que possa salvar todos os reservatórios do Brasil em 2015. Se a queda no volume de chuvas é consequência do aquecimento global (como acreditam muitos estudiosos) o problema veio para ficar e seria mais grave do que podemos imaginar. No final de 2014 a ONU emitiu um alerta de que o aquecimento global é um fenômeno irreversível. O relatório mostra que o mundo está mal preparado para os riscos das mudanças no clima, especialmente os pobres e mais vulneráveis, que contribuíram menos para este problema. Também falam que os cientistas já fizeram sua parte e que agora os políticos precisam fazer alguma coisa (políticos fazendo alguma coisa? estamos fritos!). (fonte). Um estudo feito por mais de 300 cientistas brasileiros aponta que todo Brasil sofrerá com a mudança no padrão das chuvas (fonte). Estamos sentindo isso na pele e no bolso.

Entenda o que provoca um apagão:

Veiga explicou que os apagões ocorrem da seguinte forma: O sistema funciona na frequência de 60 hz. Quando a demanda por energia aumenta nos horários de pico a frequência cai. Para evitar isso é preciso aumentar a geração de energia imediatamente. Este aumento na geração ocorre em frações de segundo e tudo funciona de forma automática. Por este motivo, dentro das usinas existem turbinas que ficam girando sem necessidade, ou seja, podem produzir energia em segundos se for necessário. Este mecanismo é chamado de reserva girante.

Para evitar apagões é necessário que este sistema seja capaz de produzir 5% de tudo que está sendo consumido para atender a demanda caso aconteça algum pico de consumo ou uma queda provocada por falha na geração ou transmissão nos diversos pontos do país. O mínimo aceitável seria 3% de reserva. No dia do apagão esta reserva era de apenas 2% (abaixo do recomendado).

Os especialistas dizem que existem duas hipóteses para a queda desta reserva de segurança que deveria ser 5% e não 2%:

  1. A primeira tem relação com a queda no volume de água nas barragens das usinas. Com um volume menor de água, a potência cai;
  2. A segunda hipótese seria uma sobrecarga nas termoelétricas. A cada 8 mil horas de funcionamento elas precisam parar para manutenção. Muitas estão operando 24h por dia (não foram feitas para isto). Um grande número de termoelétricas pode estar entrando em manutenção ao mesmo tempo.

O especialista que apresentou estas hipóteses não revelou o nome. (fonte).

O governo espera ajuda divina:

O próprio ministro de Minas e Energias (Eduardo Braga) já declarou que o problema nas usinas hidrelétricas brasileiras será muito grave se as reservas de água atingirem o patamar de 10% (fonte). Na semana em que estive escrevendo este artigo, os níveis dos reservatórios que atendem o Sudeste e o Centro-Oeste, os principais do Brasil, estavam próximos de 17% (fonte). Como estes níveis não param de cair, o ministro tentou tranquilizar a população dizendo o seguinte:

“Deus é brasileiro, nós também temos que contar de que Ele (Deus) vai trazer um pouco de umidade e um pouco de chuva para que a gente possa ter mais tranquilidade ainda” –  Eduardo Braga, Ministro de Minas e Energia. (fonte)

O mais grave é que neste momento já existem hidrelétricas pequenas parando de funcionar (fonte). A paralisação destas usinas agrava o problema e deve continuar acontecendo se os reservatórios continuarem diminuindo. No racionamento de energia decretado em 2001, no governo do Fernando Henrique, a represa de Furnas tinha 23,55% do volume útil. Agora, o total armazenado é de 11,25% e nenhum racionamento foi oficialmente decretado, nenhuma campanha foi iniciada nos meios de comunicação para informar e educar a população. O mesmo acontece em outros reservatórios que estão com volume inferior ao daquele período. Segundo o ONS, caso não chova, a água armazenada em Furnas daria apenas para um mês de consumo de energia no Brasil. (fonte).

O gráfico abaixo é um exemplo do que ocorre na maioria dos estados. Ele mostra a demanda residencial por energia em Minas Gerais desde o ano 2000, um ano antes do governo (FHC) tomar medidas para reduzir o consumo diante da queda nas reservas de água das usinas. O gráfico também mostra a situação dos reservatórios comparando a situação atual com o ano de 2001.

Fica evidente que desde a última crise pouco foi feito para aumentar as reservas de água e a produção de energia no Brasil.

Sem transparência sobre a situação em que nos encontramos as empresas e as pessoas não sabem se devem ou não começar a tomar medidas para evitar prejuízos com possíveis apagões. Muitos serão pegos de surpresa se o governo decretar racionamento, aumento de tarifas, teto pra o consumo, redução obrigatória do consumo, multas, etc.

Efeitos na economia:

Entidades internacionais como o banco suíço Credit Suisse já estão alertando seus clientes e investidores sobre os problemas que o racionamento provocará na economia brasileira. O banco está prevendo PIB de -1,5% em 2015, caso ocorra racionamento (fonte).

Como em 2014 a economia não cresceu e em 2015 o governo está tomando medidas para reduzir ainda mais a atividade econômica (aumentando juros e impostos), o racionamento significaria uma recessão, ou seja, um encolhimento da economia. Quando a economia para de crescer e começa a diminuir as empresas param de investir, algumas fecham as portas e demitem. Já existem educadores financeiros conhecidos como o André Massaro (autor de livros) alertando seus leitores para que possam se preparar para o desemprego (leia o artigo dele).

O banco estima que a probabilidade de restrição de acesso à energia está em 40%. As previsões estão piorando já que no final do ano passado eles acreditavam que a probabilidade era de 20%.

O mês mais provável para um racionamento seria o mês de abril por marcar o fim do período de chuvas nas áreas mais afetadas. Isto produziria um forte impacto negativo em todas as atividades econômicas no segundo e no terceiro trimestre de 2015.

O racionamento poderá pressionar ainda mais o preços dos produtos e serviços elevando a inflação (que já está alta). O Credit Suisse aposta em inflação de 7% para 2015 ou 7,8% se ocorrer racionamento. Sem energia e água as contas de luz e água continuariam subindo (mais do que já foi previsto para 2015). Isto encareceria todos os produtos e serviços que precisam de água e energia. Poucas chuvas também diminuirão a oferta de alimentos gerando aumento nos preços. Com a inflação pressionada não existirá espaço para redução dos juros. Isto interfere diretamente no custo de vida das pessoas e na rentabilidade dos seus investimentos.

Efeitos no seu negócio ou emprego:

As crises hídrica e elétrica vão mexer diretamente no seu bolso e podem afetar sua renda. O seu emprego pode ser afetado se o setor onde você trabalha for atingido por racionamentos de água e energia.

Se você tem um negócio é fundamental fazer um estudo para calcular o impacto (prejuízo) que você terá caso falte água ou energia. Calcule o tamanho do prejuízo por cada hora sem o fornecimento. Com base nisto você poderá tomar decisões sobre a necessidade e viabilidade de investir em formas alternativas de energia ou de captação de água. Veja o exemplo de pequenos empresários em São Paulo que estão tentando se adaptar para trabalhar quando faltar água durante a madrugada.

Para empresas que oferecem soluções para reduzir o consumo de água e energia o momento será de oportunidades.

Busca de soluções:

Dependendo o caso, talvez seja necessário que você invista em geradores de energia e até na possibilidade de cavar um poço profundo ou construir cisternas. Com tarifas mais elevadas a economia gerada pelo investimento em tecnologia poderá voltar rapidamente para o seu bolso.

Para quem mora em apartamento, precisa se reunir com outros moradores para estudarem soluções conjuntas. Para quem mora em casa é possível estudar a possibilidade de investir em captação de águas da chuva, armazenamento em cisternas, reciclagem das águas de máquina de lavar e do banho, etc. Para enfrentar o problema da falta de energia você também pode estudar a viabilidade de gerar energia elétrica (geradores que utilizam combustíveis, vento, energia solar, etc), aquecedores solares para a água usada no banho, investimento em lâmpadas de LED, troca de eletrodomésticos antigos por novos que consomem menos energia, etc.

Os custos para geração de energia em casa continuam muito elevados por falta de incentivos do Governo. Em muitos países o governo apoia as iniciativas de autogeração de energia em casa. Muitas famílias produzem a própria energia (solar e eólica) e vendem o que sobra para o sistema elétrico da região. Um exemplo a ser seguido é o da Alemanha que está mudando o modelo energético (veja o documentário) sem culpar São Pedro pelos problemas. Não falta tecnologia, o que falta é vontade política. No Ceará existe um projeto para construção do maior parque de geração de energia solar do Brasil. Não faltam investidores interessados em investir no Brasil para produção de energia. O problema é que o investimento esbarra na burocracia dos órgãos do governo brasileiros, veja aqui.

Algumas soluções:

  1. Captação de águas da chuva (vários vídeos que ensinam)
  2. Armazenamento em cisternas de polietileno (vídeos)
  3. Construção de cisternas (vídeos)
  4. Como reciclar água da máquina de lavar (vídeos)
  5. Como lavar um carro com 1 copo de água (vídeo)
  6. Saiba mais sobre o Movimento Cisterna Já (visite)
  7. Série de vídeos com dicas para quem pretende produzir energia em casa (vídeo 1) (vídeo 2) (vídeo 3) (vídeo 4)

 Estude a sua realidade:

O Brasil é muito grande e a situação hídrica e energética na cidade onde você pode ser totalmente diferente da média nacional.  O impacto da redução no fornecimento de água e energia será maior ou menor dependendo da sua realidade. O objetivo deste artigo é te convidar a refletir sobre a sua realidade no contexto que estamos vivendo. Perceba que até a quantidade de chuva que está caindo interfere no seu bolso e nos seus investimentos. Tudo está conectado.

 Colabore:

Se você conhece vídeos e sites com dicas e informações para quem precisa economizar e armazenar água ou economizar e produzir energia compartilhe na área de comentários no final do artigo.