Uma pesquisa entre 67 instituições financeiras apontou que todas apostam em mais reduções nos juros até o final de 2019 (fonte). Entre as instituições temos gestoras de fundos, corretoras, grandes bancos nacionais e internacionais. Algumas instituições, incluindo dois dos maiores bancos do mundo JPMorgan e o BofAML (Bank of America) acreditam que a Taxa Selic termine 2019 em 4,75% (tabela).

A próxima redução da taxa deve ocorrer durante a reunião do Copom entre os dias 17/09 e 18/09/2019 com previsão de corte 6% para 5,5%.

No início desse último ciclo de queda dos juros, quando a taxa estava acima de 14% (reuniões do Copom), uma queda de 0,5% poderia passar desapercebida. Agora que estamos com taxas cada vez menores, uma queda de 0,5% tem impacto significativo na rentabilidade anual de qualquer investimento de renda fixa.

Basta considerar que 0,5 pontos percentuais representa 3,50% de uma taxa de 14,25 pontos percentuais. Os mesmos 0,5 pontos representam 8,33% de uma taxa de 6 pontos percentuais.

Devemos perceber que cada vez que o Banco Central corta a taxa básica de juros anual em 0,5% é como se ele estivesse “confiscando” mais de um mês de rendimentos de todos que possuem investimentos em renda fixa. Perde quem ganha juros na renda fixa e ganha quem paga esses juros pós-fixados.

Basta observar que com a meta da taxa Selic em 6% temos um CDI de 5,90% (histórico do CDI). Muitos investimentos de renda fixa rendem o equivalente a um percentual do CDI. Exemplo: CDB, LCI, LCA e diversos fundos de renda fixa. Títulos públicos como o Tesouro Selic rendem a Selic diária que também está em 5,9%.

Quando transformamos essa taxa de 5,90% ao ano em uma taxa mensal temos 0,47% ao mês (você pode usar o conversor de taxas) . Essa é a rentabilidade mensal nominal de todos os investimentos que rendem 100% do CDI. Se você tem investimentos pós-fixados, que pagam um percentual do CDI, um corte de 0,5% nos juros anuais é como perder um mês de rentabilidade anual do seu investimento. É menos dinheiro entrando na sua conta e mais dinheiro sobrando para os bancos que emitiram os investimentos de renda fixa. Redução nos juros também faz o governo gastar menos dinheiro com pagamento de juros para quem possui títulos como o Tesouro Selic.

Imagine como seria maravilhoso se você pudesse pedir dinheiro emprestado e tivesse o poder de ditar a taxa de juros que está disposto a pagar no futuro. Certamente você faria de tudo para reduzir os juros que paga para seus credores. É assim que funciona quando o governo eleva os juros (atraindo investidores de renda fixa) e depois passa a reduzir os juros que paga para esses investidores.

A poupança, sem dúvida nenhuma, é o investimento de renda fixa mais prejudicado nos ciclos de corte de juros, pois tem como regra render o equivalente a 70% da Taxa Selic (quando a Selic for igual ou menor que 8,5% ao ano).

Como podemos ver em uma tabela que existe nessa página aqui, quando a Selic está em 6% ao ano a poupança rende somente 70% disso ou 4,2% ao ano que equivale a 0,34% ao mês.

Com a Taxa Selic em 5,5%, a poupança renderá somente 3,85% ao ano ou 0,31% ao mês.

Se a Taxa Selic atingir 4,75% ao ano, como alguns bancos estão apostando nas pesquisas, teremos uma poupança rendendo 3,33% ao ano ou apenas 0,27% ao mês.

Isso significa que um corte de 0,5% na Taxa Selic produz um efeito similar a “confiscar” mais de um mês de rendimentos de milhões de investidores brasileiros. Só na Poupança, os brasileiros possuem mais de 800 bilhões (veja o saldo aqui).

Quando somamos todos os investimentos de renda fixa, incluindo títulos públicos, que possuem rentabilidade que varia dependendo da Taxa Selic, temos trilhões e mais trilhões de reais investidos que vão perder mais de 1 mês de rentabilidade no ano graças ao simples corte de juros de 0,50% (estoque dos investimentos).

Considerando que 2019 iniciou com uma Taxa Selic de 6,50% e CDI de 6,40% ao ano (0,51% ao mês), os cortes de taxa do início do ano até a previsão de 4,75% representam a perda de 1,75 pontos percentuais de rendimento no bolso de todos os investidores de renda fixa.

É como assistir o confisco de 3 meses e meio de rentabilidades da renda fixa ou como “perdoar” parte da dívida que o Tesouro e os bancos tinham com os investidores de renda fixa. É dinheiro que antes seriam pagos pelo governo para os investidores de renda fixa (títulos públicos) e dinheiro que os bancos pagariam para seus investidores que aplicam na poupança, CDB, LCI, LCA e fundos.

Também não devemos esquecer a inflação. Provavelmente teremos vários investimentos com rentabilidade menor que a inflação se os juros permanecerem baixos por muito tempo. Caminhamos para juros reais negativos. Aqui podemos acompanhar os juros reais que é a taxa Selic com a inflação descontada.

Existem dois fatores que podem impedir mais corte de juros no país. A manutenção da tendência de alta do dólar, que ajuda a elevar a inflação e por consequência desmotiva o Banco Central a reduzir os juros.

O segundo motivo seria alguma crise, algo inesperado, como uma crise internacional, guerras, ataques terroristas ou até mesmo crises políticas internas (demissão de ministros importantes, escândalos de corrupção, decisões políticas equivocadas, impeachments etc.) que pudesse gerar instabilidade provocando desvalorização da nossa moeda perante o dólar.

No exterior, a alta do dólar que poderia impactar a inflação nos países, acaba sendo compensada pela desaceleração da economia em todo o mundo, levando os juros para patamares negativos em muitos países e preços de commodities (alimentos, combustíveis, matérias primas) em declínio.

Mesmo com juros baixos,  o Brasil ainda está entre os países com as maiores taxas de juros reais (juros acima da inflação). Aqui no Clube dos Poupadores temos um ranking mundial de juros considerando as 24 maiores economias.

Juros cada vez menores exigem esforços maiores para manter a rentabilidade dos seus investimentos de longo prazo.

Leitura recomendada: lista de livros sobre investimentos.

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