Tudo indica que o Banco Central começou um novo ciclo de alta dos juros (taxa selic) que pode durar muitos meses. A Valor Econômico entrevistou uma autoridade do governo com trânsito na área econômica (sem revelar nomes) que confirmou: “o início de um novo ciclo de aumento de juros, embora ainda seja difícil mensurar sua intensidade e duração”.

Li a opinião de diversos analistas, outros amigos educadores financeiros e resumidamente o que todos dizem é o seguinte:

Mentiram para a população:

Elevar os juros 3 dias depois das eleições sinalizou que o Banco Central estava segurando os juros por sofrer interferências políticas. Se suas decisões fossem técnicas, ele já teria subido os juros antes para evitar que a inflação ultrapassasse o teto da meta (coisa que já aconteceu recentemente fonte).

Fico muito triste quando vejo políticos mentindo para a população, aproveitando da falta de educação financeira das pessoas (não importa se vestem vermelho ou azul). Durante toda a campanha ouvi gente do governo falando que a inflação estava controlada. O discurso era direcionado para uma população que não tem o conhecimento necessário para verificar se isto era verdade (veja um exemplo). As contas públicas também estão descontroladas como você pode ver aqui.

Inflação controlada significa uma inflação próxima do centro de meta (4,5%) e não querendo romper o teto (6,5%) com uma clara tendência de alta. Hoje já estamos com a inflação em 6,75%/ano. O gráfico mostra a situação quando o governo começou a falar que a inflação estava controlada durante as eleições.

Ciclos de alta e de baixa dos juros

Como você pode ver no gráfico abaixo, os juros tendem a subir e descer com o tempo. Temos ciclos de alta, ciclos de baixa e momentos de estabilidade onde o Banco Central fica observando a economia para decidir o que vai fazer. A última alta de 10,75% para 11% foi em abril de 2014. Depois foram três reuniões do COPOM onde decidiram que os juros ficariam em 11% (mesmo com a inflação subindo e perdendo o controle).

 

Governo precisa provar que é confiável

Muitos analistas continuam pessimistas e desconfiados. É bem fácil observar que muitos empresários, investidores, analistas de investimento, consultores e até economistas conceituados não gostam da política econômica do governo Dilma. Um exemplo disso foi o manifesto de 164 professores de economia, das principais faculdades brasileiras, contra o que eles chamaram de “argumentos fantasiosos” divulgados para a população durante a campanha (veja a notícia, leia o manifesto).

Para a economia voltar a crescer o governo precisa restaurar a confiança, pois sem ela nenhum empresário vai querer investir, os investidores vão transferir seus recursos para os outros países e os analistas vão continuar recomendando uma posição defensiva das pessoas e das empresas em relação aos investimentos.

As pessoas e as empresas (por enquanto) possuem a liberdade de fazer o que bem entendem com o dinheiro que possuem. Se você confia na economia e nos governantes, você investe. Se você não confia, você fica com medo e para de investir ou de consumir.

O aumento dos juros sinaliza que o governo voltou a combater a inflação e este sinal é positivo, embora os juros prejudiquem as empresas, já que o dinheiro fica mais caro e isto desestimula empréstimos para investimentos e consumo. Todos entendem que é melhor enfrentar juros elevados por um curto período de tempo do que a volta permanente da inflação (que é muito difícil de controlar).

Eu pessoalmente continuo acreditando que o atual governo vai perceber os erros cometidos e vai tentar recuperar a economia. A reeleição e a permanência deles no poder depende disso. O controla rígido da inflação foi a abandonando com a entrada do Ministro da Fazenda Guido Mantega (em 2006, ainda no governo Lula). Acredito que o controle rígido da inflação foi a base que permitiu o crescimento durante o governo Lula.

O retorno da inflação nos levaria para “o fim do Brasil” que conhecemos hoje. Este Brasil com inflação controlada começou em 1994 com a criação do Plano Real e pode acabar se nada for feito. Creio que a reeleição apertada foi um sinal para o governo de que se o crescimento não voltar, estes podem ser os últimos quatro anos destes governantes no poder.

Lá fora os investidores também estão desconfiados e pessimistas com o futuro do Brasil. A revista de economia mais influente do mundo (The Economist) publicou uma matéria alertando que o Brasil pode se tornar uma Venezuela.

A glance at Venezuela ought to dissuade Ms Rousseff from pursuing such a course. It would not just be a disaster for Brazil; it would also, very likely, weaken her own position. Her allies have only a narrow majority in Congress. A partisan approach would make it harder for her to control it. (leia tudo aqui)

A comparação é negativa, pois a inflação na Venezuela perdeu o controle (63,42% ao ano) graças a um governo populista e intervencionista que afastou os grandes empresários e investidores. Sem muitas empresas produzindo e sem concorrência os produtos começam a faltar e os preços não param de subir. O governo controla a quantidade de alimento que cada pessoa tem direito de comprar (fonte). As pessoas estão literalmente se matando dentro dos supermercados (fonte).

Se para quem mora aqui, esse tipo de comparação é assustadora, imagine para o investidor internacional que já investe no Brasil e para aqueles que estavam planejando investir. Por este motivo é importante reconquistar a confiança de todos. Eu sinceramente acredito que o governo vai tentar fazer alguma coisa. A alta dos juros já foi um começo, mas muita coisa ainda precisa ser feita.

Poupança fica menos vantajosa:

Logo depois da alta dos juros o Jornal Nacional da Globo exibiu uma reportagem falando que a poupança estava mais vantajosa graças ao aumento dos juros. Foi possível observar a exploração do analfabetismo financeiro das pessoas.

Já falei aqui que a poupança é uma forma que o governo e os bancos encontraram para conseguir dinheiro barato. Quanto mais a Selic sobe, mais desvantajosa se torna a poupança diante de outras modalidades de investimento. Juros elevados com a população investido na poupança é ótimo para os bancos e para o governo.

Na prática eles pagam juros pequenos para os poupadores e emprestam este dinheiro cobrando juros muito maiores. 65% do dinheiro das poupanças se transformam em empréstimos imobiliários que rendem lucros para as construtoras e juros de 20 ou 30 anos para os bancos.

Os bancos também podem usar o dinheiro para emprestar para o governo e são remunerados com os elevados juros da Selic.

A reportagem do Jornal Nacional ficou tão esquisita defendendo a poupança veja a reportagem. (obrigado Diego) que hoje publicaram uma reportagem falando que a poupança não é tão vantajosa assim, veja aqui. Os fundos de investimento são outros produtos que garantem enormes lucros para os bancos já que as taxas administrativas são muito elevadas. A única coisa que os fundos (DI e Renda Fixa) fazem é investir seu dinheiro em títulos públicos (coisa que você mesmo pode fazer).

Para não ficar cheio de dúvidas veja os artigos que já escrevi sobre a poupança e outras alternativas para quem só sabe investir na poupança. No site do Banco Central fica claro que a rentabilidade da poupança não sofreu nenhuma grande mudança depois da alta da Selic (veja aqui), já que a TR não segue a Selic na mesma proporção que o CDI. Entenda a rentabilidade da poupança.

Impacto da alta dos juros:

A CETIP divulga a taxa DI (CDI) que é usada como base para calcular a remuneração de títulos privados prefixados como o LCI, LCA e CDB pós-fixados. Antes da alta de 0,25% da Selic a taxa DI estava em 10,84%. Depois da alta a taxa foi para 11,09%. É importante lembrar que a Taxa DI pode flutuar dependendo das expectativas dos bancos sobre os juros no futuro.

Normalmente a taxa DI sempre fica um pouco abaixo da taxa Selic. Quem tem LCA, LCI e CDB pós vai perceber um aumento na rentabilidade. O mesmo acontece com aqueles que investiram em LFT que é o título público pós-fixado vendido pelo Governo no Tesouro Direto.

Quem comprou LTN no passado não perceberá nenhuma diferença na rentabilidade se esperar até o vencimento pois este título é prefixado, ou seja, a taxa é fixa até a data de vencimento. Já quem pretende comprar novas LTNs vai perceber que a taxa subiu um pouco. No momento em que escrevo ela está em 12,30% para LTN que vence em 2017 (veja aqui).

Já o NTN-B tem uma parte da remuneração calculada pelo IPCA e a outra é fixa, veja como o NTN-B funciona. Fundos de investimento DI também vão se beneficiar com o a alta da Selic.

Fica claro que enquanto durar o ciclo de alta da Selic aos títulos pós-fixados serão os mais vantajosos já que vão aumentar sua rentabilidade enquanto a Selic estiver aumentando. No momento que a Selic chegar no topo os títulos prefixados (Ex: LTN e NTN-B, NTN-B Principal) serão os mais vantajosos já que você comprará o título com uma taxa fixa elevada enquanto a Selic estiver caindo (início de um ciclo de queda). O problema é adivinhar quando o Banco Central vai parar de subir os juros.

Até quando os juros devem subir:

É uma pergunta que ninguém pode responder com total certeza. Tem gente que acredita que os juros vão subir até 12%. Tem gente que acredita que a inflação só será controlada em 2015 se os juros forem até 15%. Vamos chutar ou especular que a alta será até 12%. Em 2014 teremos mais uma reunião do COPOM no início de dezembro. Depois as reuniões seguem este calendário aqui para 2015. Se o Banco Central subir a Selic em 0,25% em cada reunião até atingir 12% este ciclo de alta terminaria em março de 2015. Veja:

  • Reunião de 2 e 3 de dezembro de 2014 -> 11,50%
  • Reunião de 20 e 21 de janeiro de 2015 -> 11,75%
  • Reunião de 3 e 4 de março de 2015 -> 12,0%

As outras reuniões em 2015 vão acontecer em:

  • 28 e 29 de abril de 2015
  • 2 e 3 de junho de 2015
  • 28 e 29 de julho de 2015
  • 1º e 2 de setembro de 2015
  • 20 e 21 de outubro de 2015
  • 24 e 25 de novembro de 2015

É claro que isso é um chute. O Banco Central avalia a economia, observa o comportamento do PIB, inflação e outras variáveis para determinar o que vai fazer com a Selic. Ainda não sabemos quem será o novo ministro da fazenda e se a nova equipe econômica vai combater a inflação firmemente (subindo os juros rapidamente) ou se eles vão continuar aumentando os juros lentamente.

O importante seria o governo restaurar a confiança das empresas, das pessoas e dos investidores internos e externos. Vamos esperar a ata do COPOM que deve ser publicada na próxima semana (nesta página aqui). Ela pode indicar se estamos mesmo iniciando um ciclo de alta dos juros e controle da inflação. O próximo acontecimento importante será a escolha do novo Ministro da Fazenda e Presidente do Banco Central.

Livro recomendado: Como investir em títulos públicos.

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