Quando o mercado enfrenta dias de medo, incertezas e pânico, os juros de alguns títulos públicos disparam. Temos a impressão de que quanto pior, melhor. Expectativas negativas sobre o futuro da economia resultam em juros maiores, principalmente em títulos como Tesouro IPCA+ (NTN-B, NTN-Principal) e títulos Tesouro Prefixado (LTN e NTN-F).

Quem toma a decisão de fazer investimentos que pagam juros fixos, precisa fazer o exercício de prever o futuro. Na verdade, os investidores tentam identificar qual é o futuro mais provável entre muitas possibilidades. Para avaliar quais são os cenários mais prováveis, o investidor utiliza as informações que possui no presente e projeta as consequências do presente no futuro.

Podemos concluir que todo investimento em títulos que oferecem juros fixos é uma aposta em um determinado cenário futuro. Estamos apostando que se as coisas continuarem como estão, aquela taxa de juros oferecida será vantajosa.

Se não for possível identificar vantagem, o investidor simplesmente não compra. Para que os títulos se tornem atrativos diante de períodos turbulentos, as taxas sobem. O investidor precisa considerar a taxa atrativa diante do risco da incerteza.

De forma bem simplificada, é por este motivo que os juros de títulos como o Tesouro IPCA+ (NTN-B e NTN-B Principal) e Tesouro Prefixado (LTN e NTN-F) aumentam quando a percepção sobre o futuro da economia fica mais negativa. O efeito contrário acontece quando os investidores acreditam que teremos uma recuperação e juros menores no futuro.

Veja o que aconteceu neste dia 24/08/2015, quando este artigo foi escrito. O mercado estava em pânico. O resultado foi a alta dos juros para quem fosse adquirir títulos prefixados e indexados pela inflação naquele dia. Para investidores que costumam esperar esses picos de alta para comprar, o dia foi de compra.

O que aconteceu para gerar pânico no mercado?

  1. A bolsa brasileira atingiu seu menor patamar desde abril de 2009 (fonte).
  2. Com o índice da bolsa ajustado pelo dólar, a queda atingiu o menor patamar desde outubro de 2005 (fonte).
  3. Ações muito negociadas como a da Petrobras voltaram para o patamar de 2004 (fonte) e a Vale voltou para o menor preço dos últimos 10 anos. (fonte).
  4. A  bolsa chinesa teve a maior queda desde 2007 (fonte) gerando medo do tesouro de uma bolha chinesa.
  5. A bolsa americana registrou a maior queda diária em pontos de sua história no início do pregão (fonte)
  6. O real perdeu valor com o dólar atingindo seu maior preço nos últimos 12 anos (fonte).
  7. O seguro contra calote dos títulos brasileiros, atinge o maior patamar desde 2009 (fonte).

Podemos constatar que o dia 24/08/2015 não foi um dia comum.

Para completar o drama o mercado já espera 2 anos de recessão para a nossa economia (fonte). O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, resolveu se afastar por um tempo para “tratar de assuntos particulares” gerando muitos rumores (fonte). Temos todas as notícias negativas sobre as questões fiscais, crise política, operação Lava-jato, risco de perda de grau de investimento, aumento de impostos, etc.

Resultado de tudo isso sobre os títulos públicos:

Títulos que rendem inflação (IPCA) + juros fixos chegaram a oferecer rentabilidade real acima de 7% ao ano, enquanto títulos prefixados (Tesouro Prefixado LTN) ofereciam rentabilidade nominal (sem descontar taxas e IR) próximas de 14%.

Os Títulos IPCA+ rendem a inflação no período (IPCA) mais uma taxa de juros fixa que aparece na tabela acima. A taxas acima de 7% são boas taxas. Basta observar que o centro da meta de inflação estabelecida pelo Banco Central é de 4,5%, podendo chegar até o máximo tolerável de 6,5% (Em 2017 o teto será 6%). Fazer um investimento que garanti uma taxa de 7% acima da inflação significa ter uma rentabilidade de quase o dobro da inflação estabelecida como meta. Em qualquer país do mundo, uma taxa real (acima da inflação) de 7% poderia ser considerada como uma boa rentabilidade para um investimento de baixo risco (o baixo risco é para quem fica com o título até o vencimento).

Se no futuro distante a inflação atingir 4,5% esse título renderá 4,5 + 7 = 11,5% ao ano. Se a inflação futura for de 10% esse título renderá 10+7 = 17% ao ano. Lembre-se que o governo reduz a taxa Selic quando a inflação recua. Isso reduz a rentabilidade de todos os títulos privados (LCI, LCA, CDB, etc) e públicos (Tesouro Selic LFT) que são pós-fixados. Até a poupança perde rentabilidade com a queda da Selic.

O gráfico abaixo mostra a taxa para compra do título Tesouro IPCA+ (NTN-B Principal) que vende em 2035. Tivemos taxas acima de 7% no início de 2014. Você encontrará os históricos para montar gráficos como este aqui.

 

As pessoas buscam proteção nos títulos públicos:

O resultado de taxas tão elevadas pode ser visto nessa notícia aqui. O número de investidores (pessoa física) cadastrados no mês passado foi o maior da história. O Tesouro Direto atingiu a marca de 536.979 investidores cadastrados. O crescimento foi de 342,6% nos últimos 12 meses.

Os títulos mais comprados no mês que passou foram os indexados ao IPCA (Tesouro IPCA+ e Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais), cuja participação nas vendas atingiu 57,7%. Os títulos prefixados (Tesouro Prefixado e Tesouro Prefixado com Juros Semestrais) corresponderam a 9,8% do total e os indexados à taxa Selic (Tesouro Selic), 32,5%.

O Tesouro ainda informou que 12,5% das vendas no Tesouro Direto no mês corresponderam a títulos com vencimentos acima de 10 anos. Já as vendas de títulos com prazo entre cinco e 10 anos representaram 48,6% e as com prazo entre 1 e 5 anos, 38,9% do total.

Veja que títulos públicos as pessoas compraram no mês passado:

Agora veja o que os brasileiros possuem de títulos públicos comprados em suas carteiras:

Vale lembrar que na última reunião do COPOM, eles deixaram claro no parágrafo 28 da ata número 192 que não pretendem mais subir os juros por algum tempo. Veja o que foi dito:

28. Diante do exposto, avaliando o cenário macroeconômico, as perspectivas para a inflação e o atual balanço de riscos, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic em 0,50 p.p., para 14,25% a.a., sem viés. O Comitê entende que a manutenção desse patamar da taxa básica de juros, por período suficientemente prolongado, é necessária para a convergência da inflação para a meta no final de 2016. (fonte)

Traduzindo: Achamos que 14,25% é uma taxa suficiente para atingir a nossa meta de inflação no final de 2016. Por isto, vamos manter essa taxa por um período prolongado. (Saiba o que é Copom).

Se o mercado realmente acreditasse que 14,25% de taxa Selic fosse suficiente para fazer a inflação recuar e com isto resolver este grave problema, provavelmente a demanda por títulos prefixados e tesouro IPCA+ teria sido muito grande e o governo conseguiria vender estes títulos pagando taxas mais baixas do que as atuais. Entenda a política monetária.

Fica evidente que instabilidades externas e a crise política estão produzindo forte impacto nas taxas oferecidas para quem pretende comprar novos títulos. Neste tipo de ambiente fica muito difícil fazer previsões, já que toda semana acontece uma reviravolta. A única certeza é que saber investir em títulos públicos é uma vantagem para o pequeno investidor que não encontra boas taxas em fundos de investimento e em títulos privados mais arriscados como LCI, LCA e CDB (que exigem investimentos maiores para conseguir taxas maiores).

Claro que este artigo não é uma recomendação de investimento. Nada garante que as taxas apresentadas aqui serão mantidas no futuro. Não poderia existir dia melhorar para mostrar como alguns títulos públicos sofrem variações em suas taxas dependendo das expectativas do mercado.

Você precisa de proteção:

É importante saber que taxas de juros elevadas são péssimas para a economia do país. Elas desestimulam o setor produtivo, o empreendedorismo, a criação de empregos e produção de riquezas. Quanto pior a economia, pior para todo mundo, principalmente para aqueles que não sabem adotar medidas de proteção. Você precisa entender como tudo isso funciona para poder proteger o seu patrimônio, que certamente foi construído com muito trabalho. Por falta de conhecimento milhões de brasileiros estão perdendo da inflação com o dinheiro guardado na poupança.

Para quem ainda precisa aprender a investir em títulos públicos eu recomendo a leitura dos artigos gratuitos que já publiquei aqui. Para um aprendizado mais rápido eu recomendo investir em cursos. Visite aqui para conhecer alguns que eu recomendo.

Livro recomendado: Como investir em títulos públicos.

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