Se você tem dúvida se é arriscado investir nos títulos públicos oferecidos pelo Tesouro Direto em situações de crise econômica, este artigo foi escrito para você. Estou recebendo muitas mensagens de leitores do Clube com medo do futuro dos investimentos que fizeram em títulos públicos. Muitos estão querendo guardar dinheiro em casa, outros querem comprar ouro, alguns até pensam em sair do país ou enviar dinheiro para contas no exterior. Estou tentando alertar que, apesar da situação econômica estar se deteriorando, precisamos manter o controle, agir com racionalidade e não através de emoções como o medo.

Investir em títulos públicos é mesmo seguro?

Não existe ativo mais seguro para investir em um país do que os títulos da dívida pública que o mesmo emite internamente. Isto acontece porque o pagamento destes títulos é garantido pelo Tesouro Nacional que é o caixa do Governo. De forma bem simples, podemos dizer que o Tesouro é uma conta bancária para onde vai todo dinheiro que o Governo tira da população e das empresas através dos impostos. Os recursos de caixa do Tesouro Nacional são mantidos em uma conta aberta no Banco Brasil como você pode ver no art. 4 do decreto 93.872.

Todo e qualquer dinheiro arrecadado pelo Governo Federal é obrigatoriamente recolhido para a conta do Tesouro Nacional. Da mesma forma, todas as despesas do Governo Federal são feitas através de saques na mesma conta. Quem “cuida” deste dinheiro público (de todos nós) é um órgão chamado Secretaria do Tesouro Nacional que pertence ao Ministério da Fazenda.

Mesmo arrecadando trilhões em impostos todos os anos, todo este dinheiro é pouco para a gastança de dinheiro público. Para conseguir o dinheiro que falta, o Tesouro Nacional precisa pedir dinheiro emprestado para a população, bancos, empresas e investidores internacionais.

Vamos imaginar que você está disposto a emprestar R$ 700,00 para o Governo. Ele recebe seu dinheiro e te entrega um cheque pré-datado no valor de R$ 1.000,00 que poderá ser descontado depois de 2 anos. É assim que funcionam (de forma muito simplificada) os títulos públicos. Quando você compra um título público se torna um credor do Governo e eles se tornam seu devedor. Eles devem dinheiro para você e prometem pagar a dívida + juros em uma data futura. Veja outros artigos que já escrevi sobre como investir em títulos públicos. Qualquer pessoa pode aprender.

Estas captações de dinheiro se dão pela emissão primária de títulos públicos, que são adquiridos por instituições financeiras (bancos), por meio de leilões. Já as pessoas físicas podem comprar títulos públicos através do programa chamado Tesouro DiretoSão estes leilões que determinam os juros dos títulos públicos que as pessoas compram no Tesouro Direto.

A dívida interna (em reais) fechou o mês passado (junho/2014) em R$ 2,2 trilhões, com alta de R$ 80,05 bilhões (3,77%) em relação a maio. A dívida pública externa (em dólares) encerrou junho em R$ 91,72 bilhões, com queda de 1,61% em relação ao valor de maio, quando tinha atingido R$ 93,22 bilhões. Se você acreditou naquele papo de que o Brasil tinha pagado a dívida externa, mentiram para você. A dívida ainda existe. A previsão do Tesouro é chegar no final de 2014 devendo R$ 2,32 trilhões. A dívida não para de crescer.

Para facilitar seu entendimento. A foto mostra 1 trilhão em notas de 100,00 na frente de uma carreta e de uma pessoa em pé. O Brasil deve mais que o dobro disso.

E se um dia faltar dinheiro para pagar as dívidas?

Faz tempo que o Governo não tem dinheiro para pagar suas dívidas e nem por isto o Brasil quebrou. Nosso Governo gasta mais do que arrecada. No ano passado o Governo arrecadou mais de R$ 1 trilhão e fechou o ano com dívida de mais de R$ 2 trilhões. Para a conta fechar o Governo pode tomar algumas medidas:

Governo vende títulos públicos: Para pagar os juros dos títulos públicos que estão vencendo e que foram comprados por investidores em anos anteriores, o Governo pode emitir e vender novos títulos públicos. É como empurrar a dívida com a barriga. O Governo literalmente assume uma nova dívida para pagar uma dívida velha.

Governo aumenta impostos: O governo pode aumentar a arrecadação de impostos para pagar os juros da dívida. E ele pode fazer isto de diversas maneiras, muitas delas o cidadão comum é incapaz de perceber. Como já falei neste artigo, todo ano o governo aumenta o Imposto de Renda sem que ninguém perceba.

Governo corta gastos e investimentos: Para economizar o dinheiro que será usado para pagar juros da dívida o Governo pode cortar verbas que seriam utilizadas para a educação, saúde, segurança, investimentos, etc. Isto prejudica a população, sem contar que muito do que é arrecadado acaba sendo desviado em esquemas de corrupção.

Governo privatiza empresas e vende concessões: O Governo pode aumentar suas reservas vendendo empresas públicas ou vendendo concessões para que empresas privadas explorem atividades que eram exercidas pelo Governo Federal.  Normalmente isto é feito através de leilões e o dinheiro arrecadado engorda os cofres públicos.

Governo imprime dinheiro: O governo é dono das impressoras da Casa da Moeda. Se necessário ele pode produzir dinheiro novo para pagar suas dívidas. Isto tem efeitos negativos como a desvalorização da moeda e a inflação. Nosso governo só pode produzir reais, por isto as dívidas em moeda nacional são fáceis de pagar. A dívida externa que é feita em dólares só pode ser paga em dólares e por isto é mais fácil encontrar países dando calote em investidores internacionais.

Você percebeu que a garantia de pagamento dos títulos públicos é o bolso de todos os 200 milhões de brasileiros? Ricos e pobres pagam impostos sempre que compram alguma coisa, pedem empréstimos, fazem investimentos, recebem alguma renda, etc. No Brasil até para morrer é necessário pagar impostos, do contrário a família do morto não tem direito a receber a herança. Muito dos impostos que o governo arrecada só serve para pagar juros dos títulos da dívida pública.

E se um dia o Brasil quebrar?

No dia que não for possível tirar dinheiro do povo para pagar as dívidas públicas, provavelmente estaremos vivendo em uma situação de caos tão grande que ninguém mais vai precisar se preocupar com o dinheiro. Provavelmente estaremos mais preocupados com nossa própria segurança e sobrevivência.

O não pagamento da dívida pública produz o chamado risco sistêmico. Não existe risco pior do que o risco sistêmico que é o colapso de todo sistema financeiro, com forte impacto sobre as taxas de juros, câmbio e todos os preços da economia.  Se o país quebrar, todos os bancos públicos e privados quebram primeiro e a desordem social se espalhará por toda parte.

Observe que não estou falando de dívidas que o país faz no exterior. Uma dívida externa feita em dólares só pode ser paga com dólares. O Brasil não pode imprimir dólares, a população brasileira não paga impostos em dólares. Se o país não possui reservas em dólares pode ficar sem dinheiro para pagar aqueles que emprestaram dólares para o Brasil. O que acontece atualmente na Argentina é exatamente isto. Os argentinos precisam dar calotes ou renegociar dívidas em dólares porque os estrangeiros não aceitam receber a moeda deles.

O Brasil já deu calote, ou default, como os técnicos gostam de falar. Isto aconteceu em 1987 durante o governo do José Sarney. O Governo da época resolveu decretar moratória da dívida externa brasileira e interrompeu o pagamento em dólares. Isto permitiu uma renegociação da dívida. O problema é que os reflexos negativos de um calote podem demorar anos, talvez até décadas para serem superados. É por isto que todos os governos fazem o máximo esforço para não aplicar o calote.

Em 2001 a Argentina também decretou moratória quando perceberam que a dívida era impagável. O não pagamento também permitiu uma negociação com os credores. Até hoje a Argentina sofre as consequências negativas do primeiro calote. No momento em que escrevo este artigo a Argentina está aplicando outro calote nos investidores estrangeiros. Isto gera uma enorme desconfiança nos mercados internacionais e acaba afastando os investidores definitivamente. Quem sofre com tudo isso é a população.

O Brasil é bom pagador de dívidas

O Brasil possui uma boa reputação como nação emissora de títulos. Somos vistos internacionalmente como bons pagadores. No momento em que escrevo este artigo as três principais agências de risco do mundo: Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch classificam nosso país e nossos títulos com a nota BBB- ou Baa2 que representa grau de investimento. Veja aqui como funciona as notas de risco, conheça a tabela.

Os governos também são avaliados pelas agências de classificação. Os investidores internacionais, antes de comprar títulos da dívida pública (parecidos com os que você pode comprar no Tesouro Direto) avaliam os riscos de levar um calote do Governo brasileiro.

Em 2014, uma das maiores agências de classificação de risco, chamada Standard & Poor’s rebaixou a nota do Brasil. Isto sinalizou que investir no país ficou um pouco mais arriscado. Em 2008 nossa nota subiu de BB+ para BBB-. Em 2011 subimos novamente de BBB- para BBB. Com a crise econômica de 2014 a nossa nota baixou de BBB para BBB-.

Quanto maior é o risco do investimento no Brasil, maior tende a ser a taxa de juros (Taxa Selic) que o Governo precisa oferecer para atrair investidores. Já que existem países mais seguros que o Brasil, eles só estão dispostos a encarar o risco se o país estiver disposto a pagar um “prêmio” que são taxas de juros maiores. O Brasil é atualmente o país que oferece uma das maiores taxas de juros reais do planeta, ou seja, descontando a nossa inflação, estamos pagando juros absurdamente elevados para quem investe em títulos públicos.

Veja quando o Brasil cruzou a fronteira de um país para especuladores (quando a nossa nota era BB+) e conquistamos a nota de investimento (BBB- e depois BBB). Infelizmente, estamos perdendo notas. No início de 2014 nossa nota de risco foi reduzida para BBB-.

O problema é que o fato da nossa situação economia não estar bem já pode produzir um novo rebaixamento no futuro. No início do mês, uma das 3 maiores agências criticou nossa economia e falou que a inflação elevada e o baixo crescimento da economia são pontos negativos para a nota que o Brasil possui hoje. Veja a notícia aqui.

A agência de risco Standard and Poor’s já considera que a Argentina deu calote técnico e rebaixou a nota do país nesta quarta-feira (30/07/2014), de -CCC/C (uma das piores notas) para SD (sigla em inglês para “selective default”, ou calote seletivo). A perspectiva da nota é negativa, o que indica que pode cair ainda mais. (veja a notícia aqui) Não preciso dizer que nenhum investidor estrangeiro terá coragem de investir na Argentina até que ocorra uma mudança dos atuais políticos. O governo local, ao invés de assumir suas responsabilidades e os erros do passado, prefere colocar a culpa dos estrangeiros que perderam dinheiro investindo na Argentina. Um novo inimigo nacional foi criado e a população, movida pela propaganda nacionalista acaba apoiando o governo que gerou todo esse problema e criticando os investidores internacionais que estão amargando prejuízos. Existe uma inversão das coisas. Quando o país precisa de dinheiro os investidores são bons amigos. Quando o país aplica o calote e prejudica os investidores eles se tornam inimigos.

É melhor emprestar para bancos ou governos?

Os bancos precisam pagar taxas de juros maiores que as taxas oferecidas pelo governo em títulos públicos já que o investimento em bancos é menos seguro que o investimento em títulos públicos. O problema é que isto não acontece. Quem garante o pagamento de uma dívida do banco é o próprio banco e não o Tesouro Nacional (a população brasileira).

Existe uma proteção do Fundo Garantidor de Créditos que devolve até R$ 250 mil por investidor que tenha investido em um banco que quebre. Já li alguns especialistas falando que o FGC nunca foi testado diante da quebra de um grande banco.

Bancos grandes não quebram todo dia e existe dúvida se o FGC conseguiria devolver todos os recursos investidos de milhões de clientes de um grande banco. Das vezes que o FGC foi acionado, após a quebra de bancos, estes bancos eram pequenos e tinham poucos clientes e poucos recursos.

É claro que os reflexos negativos de um grande banco quebrando são tão terríveis que o Governo inevitavelmente ajudaria a salvar este banco. O Brasil já ajudou a salvar bancos no passado. Na prática significa que o dinheiro público que está no Tesouro pode ser usado para evitar a quebra de um importante banco.

No Brasil os grandes bancos podem oferecer juros menores que os oferecidos em títulos públicos e mesmo assim atraírem investidores. Isto acontece porque a população não sabe investir em título público, a maioria nem sabe que isto existe. Desta forma a população sem informação e por acomodação aceita receber menos juros investindo em títulos do banco quando poderia ganhar mais investindo em títulos do governo.

Se a nota de risco do Brasil for rebaixada?

Se nos próximos anos a situação economia piorar, é possível que o Brasil seja rebaixado novamente pelas agências de classificação. Se isto acontecer o resultado será muito negativo. Estamos no limite, com a nota mais baixa entre todas que estão no grupo de países considerados como bons para investir. Mais um rebaixamento nos levaria para a categoria de países para especuladores. Por serem obrigados a seguir regulamentos e normas internas, muitos fundos de investimento, muitos investidores de fora serão obrigados a retirar seus investimentos do Brasil. Os investidores mais conservadores só investem dinheiro quando a nota de risco sinaliza um investimento seguro. Isto poderia produzir uma fuga de dólares e uma desvalorização do real.

Para atrair os investidores internacionais o Brasil será obrigado a aumentar ainda mais a taxa Selic se a nota for rebaixada no futuro. Isto tornaria os títulos públicos comprados no futuro ou títulos pós-fixados mais rentáveis. Quanto maior o risco, maior precisa ser os juros pagos para que o investimento se torne vantajoso aos olhos dos investidores.

Como você pode ver os títulos públicos são um bom investimento quando a situação não está boa para a economia. O investidor só precisa ter o cuidado de aprender que tipo de título comprar dependendo da tendência da taxa de juros. É fundamental que você conheça todos os títulos públicos e como eles se comportam. Baixe o ebook gratuito que escrevi sobre títulos públicos e se tiver condições invista na compra de cursos sobre investimento em tesouro direto. Comprar títulos públicos sem saber o que está fazendo é arriscado e pode gerar perdas. Invista primeiro na sua educação para que você saiba o que está fazendo.

Quando a economia vai mal a renta fixa vai bem

Quando a economia vai bem, as empresas investem, os investidores entram no país para investir no setor produtivo (fábricas, lojas, empresas que geram emprego) o PIB começa a crescer e a grande oferta de produtos, serviços e concorrência faz a inflação cair. Isto permite que o governo reduza os juros. Com juros menores as empresas fazem empréstimos para investir mais e aumentar as vendas, contratar e produzir mais. Já os consumidores compram mais, já que os juros estão baixos. Todo este cenário positivo torna o investimento em renda fixa menos atrativo. Fazer investimentos produtivos se torna mais lucrativo (como abrir um pequeno negócio). A bolsa de valores se beneficia quando a economia e as empresas estão bem. Quando a economia está bem o real se valoriza. Quando a economia está mal o real perde o valor.

Desta forma podemos dizer que a rentabilidade os títulos públicos e de todos os investimentos de renda fixa sofrem redução quando o país vai muito bem. Já quando as coisas vão mal é justamente o contrário. As taxas de juros se elevam, investir dinheiro em títulos e outros papéis se torna mais rentável. As empresas deixam de investir no produtivo e passam a fazer investimentos financeiros. As pessoas fazem a mesma coisa. Param de consumir e fazer dívidas e passam a poupar. A maioria das pessoas estão endividadas e por isto vai sobrar pouco para investir e aproveitar os juros elevados. No momento de crise elas percebem que deveriam ter poupado quando as coisas estavam melhores.

Quais são os títulos mais comprados?

Agora em junho de 2014 os títulos públicos mais demandados foram os que são indexados pela inflação (IPCA). Estou falando do NTN-B e NTNB-Principal que você pode conhecer clicando aqui. Eles representaram 55,3% de todos os títulos vendidos. Os títulos prefixados (LTN e NTN-F) corresponderam a 24,0% do total e os indexados à taxa Selic (LFT), 20,7%.

Veja as vendas de título com base nos indexadores utilizados. Observe que a maioria prefere os indexados pela inflação (NTN-B e NTN-B Principal). Depois as pessoas preferem comprar os prefixados e por último os pós-fixados que acompanham a taxa Selic.

Isto não significa que estes títulos serão os melhores para você ou serão os melhores no futuro. Por isto é importante entender como os títulos funcionam para que você não invista com a cabeça dos outros, participando de um efeito manada.

Hoje existem pouco mais de 406 mil pessoas que investem em títulos públicos no Brasil. É um número pequeno perto dos milhões que investem em Poupança. Logo abaixo você tem o perfil do investidor do Tesouro Direto. Observe que as mulheres precisam participar mais e as pessoas com idade acima dos 36 anos precisam aprender a investir em títulos públicos. Os jovens é o público que mais cresce, justamente por estar mais disposto a aprender coisas novas, por ainda não ter formado crenças e medos que ainda dificultam a entrada dos mais novos.

Aproveite para aprender mais sobre como investir em títulos públicos, leia todos os artigos que já escrevi sobre investimento em Tesouro Direto. Nos próximos dias voltarei a publicar artigos sobre outros investimentos conservadores. Recomende o Clube dos Poupadores para seus amigos. Quanto mais as pessoas aprendem, menos elas se comportam como na figura abaixo:

Livro recomendado: Como investir em títulos públicos. Conheça todos os nossos livros sobre investimentos visitando aqui.

Receba novos artigos por e-mail: