Já faz algum tempo que o Tesouro Direto lançou um simulador que permite comparar a rentabilidade de investimentos em títulos públicos com outros investimentos de renda fixa como poupança, CDB, LCI/LCA e Fundos DI.

Pessoalmente, como pequeno investidor e educador financeiro, nunca gostei da ideia de tomar decisões de investimento utilizando um simulador desenvolvido pela instituição que vai lucrar com essa decisão.

Sempre busquei os conhecimentos necessários para criar minhas próprias simulações. Esse conhecimento não é nada muito além do básico sobre Excel e os juros compostos que todos nós aprendemos no ensino médio.

Vou mostrar nesse artigo que você deve ter alguns cuidados antes de tomar decisões de investimentos com base nas comparações que o novo simulador do Tesouro Direto oferece.

Você já sabe que bancos frequentemente disponibilizam simuladores para seus clientes, que foram  projetados para vender planos de previdência privada, títulos de capitalização e fundos. Construtoras e imobiliárias frequentemente oferecem simulações “maravilhosas” que vendem financiamentos e até investimentos imobiliários com juros que todos podem pagar. Montadoras oferecem simulações que nos mostram que um carro zero custa pequenas parcelas que cabem no nosso bolso.

O problema é que as empresas frequentemente desenvolvem simuladores “tendenciosos”, no sentido de conduzirem a pessoa para uma tendência, tendendo a ser parcial ou favorável a uma decisão em detrimento de outra.

Simuladores desse tipo normalmente atendem aos interesses de quem cria o simulador. Se quem cria o simulador quer vender algo, a simulação tende a motivar uma decisão de compra. É isso que todas as pessoas deveriam esperar de um simulador produzido por uma empresa que está vendendo algo. Nada mais natural. O problema é que nem sempre as pessoas encaram esses simuladores dessa forma.

Por trás do Tesouro Direto existe uma empresa que está nos vendendo algo. Devemos lembrar que o Tesouro Direto é operacionalizado pela bolsa de valores brasileira (B3). Você pode observar que o Tesouro Direto é apenas mais um dos serviços que a bolsa oferece (veja aqui). A Bolsa não é uma entidade pública, ou seja, não pertence ao governo. Ela é uma instituição financeira privada que não possui concorrentes no seu setor. Inclusive as ações da bolsa (B3SA3) são negociadas na própria bolsa. Qualquer pessoa pode se tornar sócia da B3 e receber parte dos dividendos que ela distribui.

Para comprar títulos através do Tesouro Direto as pessoas precisam pagar uma taxa anual de 0,30% que é calculada sobre o saldo investido. Isso significa que se você tem R$ 10.000,00 investidos em títulos públicos você pagará pelo menos R$ 30,00 por ano, metade disso a cada semestre, para a B3 pelos serviços que ela presta. Como o total de recursos investidos no Tesouro Direto está próximo de R$ 50 bilhões (fonte), esses 0,30% produzem uma boa receita anual para a bolsa.

Mesmo assim, 0,30% por ano é uma taxa bem menor do que você pagaria se investisse em títulos públicos através de fundos de investimento como fundos DI e fundos de renda fixa que os grandes bancos oferecem. Isso explica o nome “Tesouro Direto”, pois no passado as pessoas físicas só podiam investir em títulos públicos através dos fundos.

Só que na prática o Tesouro Direto não é tão direto assim, pois entre você e o Tesouro Nacional (órgão do governo que emite títulos da dívida pública) existe a B3 fazendo o papel de intermediária. Como a B3 não atende pessoas físicas diretamente, ainda existe outro intermediário entre você e a B3 que é uma corretora de valores que pode ser uma corretora independente ou a corretora de um banco.

Dessa forma, devemos perceber que o Tesouro Direto é um serviço e as pessoas pagam por ele.

Tudo isso talvez explique a maneira como o novo simulador do Tesouro Direto foi configurado. Nesse artigo eu vou comentar essas configurações para que você possa fazer as suas configurações. Também vou aproveitar para mostrar algumas inconsistências que identifiquei no novo simulador, principalmente quando ele tenta simular a rentabilidade da Poupança. Talvez isso possa ser corrigido pelo Tesouro.

Primeiro vamos utilizar o simulador básico, mais antigo, que ainda está operando no site do Tesouro. Depois vamos comparar o resultado com o resultado do simulador novo. Esse simulador antigo eu conheço com mais profundidade. Compreendo e consigo replicar todos os cálculos que ele faz até atingir os resultados que apresenta.

Quem adquire minha série de livros (veja aqui)  recebe diversas planilhas de Excel que realizam os mesmos cálculos com objetivo educativo. A vantagem de ter esses cálculos em uma planilha é a possibilidade de visualizar as fórmulas e compreender como os cálculos são feitos. Isso permite ao meu leitor desenvolver seus próprios simuladores. Isso faz uma enorme diferença. O próprio Tesouro oferece documentos que explicam a matemática por trás dessas simulações, veja aqui.

Veja uma foto da simulação que fiz no simulador antigo. Caso queira repetir a simulação basta usar os dados abaixo no formulário que está nesse endereço aqui.

Simulei um investimento no título Tesouro Selic 2023 realizado no dia 20/06/2018 com vencimento no dia 01/03/2023. O valor investido foi o equivalente ao preço de um título público Tesouro Selic, que no dia estava custando R$ 9.555,63.

A taxa no dia da simulação era de 0,02%. Informei uma taxa zero de administração, pois várias corretoras não cobram essa taxa. A taxa Selic, no período eu preenchi com 6,40%. Essa é a “Taxa no dia” que aparece nessa página de indicadores do próprio Tesouro. Vale destacar que existe uma diferença entre Meta da Selic e a taxa Selic do dia. O Tesouro remunera os títulos públicos com a taxa Selic e não com a meta da taxa Selic.

O resultado da simulação pode ser vista na figura acima. A rentabilidade líquida seria de 5,30%, já com o imposto de renda e a taxa de custódia de 0,30% anual descontada. Isso significa que o valor bruto foi de R$ 12.785,39 e o valor líquido (com impostos e taxas descontadas) foi de R$ 12.167,24.

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Com essa atual taxa Selic diária de 6,4% ao ano a Poupança está tendendo apenas 0,3715% ao mês como foi possível consultar nesse endereço aqui, e também na página de indicadores do próprio Tesouro que fica aqui.

Se você utilizar o nosso conversor de taxas de juros equivalentes verá que 0,3715% ao mês equivale a 4,5315% ao ano. Aqui nós já temos pistas de que o Tesouro Selic 2023 renderia mais do que a poupança se a taxa Selic se mantivesse 6,40% até 2023 e se a poupança mantivesse essa remuneração diária.

Como vimos, a rentabilidade do Tesouro Selic 2023 foi de 5,3% com todos os impostos e taxas descontados e isso é 0,7685 pontos percentuais acima dos 4,5315%, ou seja, o Tesouro IPCA 2023 líquido de impostos e taxas renderia 6,95% mais que a poupança.

Com todos esses dados vamos fazer a mesma simulação, utilizando os mesmos dados no novo simulador do Tesouro Direto.

Ele fica no endereço: https://simulador.tesourodireto.com.br/

No simulador antigo todas as variáveis ficavam em um único formulário. Agora você vai fornecer alguns dados em páginas separadas. Na minha opinião ficou confuso. Por isso eu tirei fotos do roteiro que você deve seguir para fazer a mesma simulação. Siga as telas.

Agora vamos para a próxima etapa que é escolher o título.

Agora você vai selecionar a opção que permite informar quanto você deseja investir.

Finalmente estamos perto do fim. Vou preencher o valor equivalente a 1 título público Tesouro Selic 2023 para que possamos comparar o resultado dessa simulação com o resultado do outro simulador.

Finalmente chegamos na página com o resultado da simulação. Essa simulação utiliza parâmetros definidos pelo Tesouro e que podem não ter relação com a sua realidade.

Aqui temos o resultado padrão da simulação. Ele tem parâmetros definidos pelo Tesouro, mas que podem não representar a sua realidade. Por esse motivo iremos editar esses parâmetros para simular novamente. Para isso você deve clicar no link indicado na figura abaixo. Antes disso nós já podemos observar algumas coisas estranhas.

No gráfico da Rentabilidade Líquida, logo abaixo, a poupança está rendendo mais que o Tesouro Selic e isso já sinaliza que algum problema com essa simulação.

Agora vamos editar os parâmetros para que possamos observar as estranhezas desse simulador.

A rentabilidade desse título no dia em que a simulação foi feita era de 0,02%. Isso significa que ele vai render a taxa Selic acumulada + 0,02% até o vencimento. O campo de taxa administrativa vamos trocar o 0,15% por 0,00, pois grande parte das grandes e boas corretoras não cobra mais a taxa administrativa e na simulação anterior deixamos esse campo zerado. Veja a lista de corretora que não cobram essa taxa nesse ranking aqui.

Vamos configurar LCI/LCA, CDB e Fundo DI rendendo 100% da taxa DI para que possamos observar o que o simulador vai fazer com essas taxas. A taxa de administração do fundo DI também deve ser zero.

A expectativa IPCA (inflação) não tem qualquer utilidade nessa simulação. Ela não interfere no resultado. Poderia interferir se o título fosse o Tesouro IPCA, mas estamos simulando o Tesouro Selic. Você pode deixar qualquer valor nesse campo.

Vamos colocar no campo de expectativa da taxa Selic o mesmo valor que colocamos no outro simulador que foi de 6,40% ao ano.

Agora vamos analisar os resultados.

Quando você passar o mouse sobre a simulação no site do Tesouro verá uma pequena janela abrindo com a taxa que representa a rentabilidade líquida dos investimentos. Para ativar todos os investimentos você deve clicar sobre o nome deles no menu superior.

Ao clicar em um botão azul chamado “Simulação detalhada” no menu inferior você verá a tela abaixo:

Primeiro problema

Aqui temos a primeira inconsistência. O novo simulador do Tesouro indicou que a rentabilidade bruta do Tesouro Selic 2023 seria de 6,32%. No simulador antigo a rentabilidade bruta seria de 6,42%. O custo com a custódia no simulador antigo ficou em R$ 157,27, no simulador novo foi de 154,84. O imposto de renda sobre o rendimento foi calculado como sendo de R$ 460,87 no simulador antigo e 476,50 no simulador novo. A rentabilidade líquida no simulador antigo foi de 5,30%. Já o novo simulador exibe 5,13 %.

Fiz outra simulação definindo a taxa Selic como sendo a meta da Selic que é de 6,50% e não a Selic do dia para ver se foi isso faria diferença. O custo com custódia ficou em R$ 155,20, o imposto de renda ficou em R$ 484,93 e a rentabilidade líquida atingiu 5,22%. Continua sendo bem diferente do resultado do simulador antigo.

Acredito que o Tesouro Direto deveria publicar na página do simulador a metodologia e as fórmulas que ele utiliza no simulador novo. Essa transparência não custa nada para o Tesouro Direto, mas pode fazer diferença nas decisões do pequeno investidor.

Eu acredito que os resultados apresentados nos dois simuladores deveriam ser os mesmos quando utilizamos os mesmos parâmetros. Já recebi vários e-mails de pessoas confusas diante dos resultados dos dois simuladores.  A confusão resulta em insegurança. A insegurança gera medo. O medo faz as pessoas desistirem do investimento. Imagino que esse não é o objetivo do Tesouro Direto.

Segundo problema

Agora vamos observar a segunda inconsistência no resultado do novo simulador. O problema está na rentabilidade da poupança. Já recebi mensagens de pessoas assustadas quando observam a rentabilidade da poupança acima do rendimento líquido do Tesouro Selic no simulador.

O simulador exibe uma rentabilidade de 5,61% ao ano quando utilizamos uma taxa Selic de 6,4% e 5,68% quando utilizamos a taxa Selic de 6,5%. Sabemos que pela nova regra da poupança a sua rentabilidade deveria ser equivalente a 70% da meta da Selic quando essa meta for menor ou igual a 8,5% (fonte).

Se a taxa Selic configurada na simulação foi de 6,5% isso significa que 70% seria 4,55% (6,5 x 70% = 4,55). É muito difícil entender como o Tesouro encontrou essa taxa tão elevada para a poupança. Mais uma vez seria importante o Tesouro exibir informações sobre como o cálculo foi feito.

Quando visitamos o site do Banco Central que exibe a remuneração diária da poupança encontramos o valor de 0,3715% ao mês que é uma taxa equivalente a 4,55% ao ano. Isso seria equivalente a 70% da meta Selic que está em 6,5% no momento em que esse artigo foi escrito. A diferença entre 4,55% e 5,68% exibida no simulador é muito grande e pode induzir o pequeno investidor ao erro.

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Nesse caso o investidor pode desistir do Tesouro Selic por visualizar a poupança com uma rentabilidade maior.

Para que a poupança pudesse render 5,68% ao ano, como mostra o simulador, seria necessária uma rentabilidade mensal de 0,4614% ao mês. Seria como se a poupança fosse capaz de render 88,8% do CDI de 6,39%. A própria página de indicadores no site do Tesouro nos diz que essa não é a rentabilidade da poupança no dia da simulação.

Agora vamos ver a simulação que fiz utilizando 6,5% ao ano como expectativa para a taxa Selic.  Configurei em 100% do CDI a rentabilidade da LCI/LCA, CDB e Fundos DI. Também zerei a taxa administrativa do Fundo DI.

Observe que a LCI/LCA do simulador exibe 6,38% de rentabilidade. Isso ficou próximo da taxa DI que atualmente é de 6,39% como podemos ver nessa foto abaixo retirada do site da CETIP.

A simulação envolvendo o CDB mostrou resultados iguais a outras simulações que fiz utilizando taxa DI de 6,39% e retorno de 100% do CDI. No caso rentabilidade líquida do fundo DI com simulação configurada para render 100% do CDI com taxa zero, devemos lembrar o efeito do come-cotas. Nos fundos o IR é descontado a cada 6 meses e isso prejudica a rentabilidade líquida do investimento.

Terceiro problema

O gráfico que aparece na simulação faz uma comparação entre a rentabilidade bruta do título público e a rentabilidade da poupança que é líquida, por ser isenta de impostos. Comparar rentabilidade bruta com rentabilidade líquida pode gerar uma confusão. É como comparar banana com maçã. São duas coisas diferentes. Para o investidor a comparação pelo gráfico só tem utilidade quando os dois investimentos estiverem com seu resultado líquido.

Quarto problema que gera vários problemas

O Tesouro não deveria esconder a taxa administrativa e outros parâmetros importantes em uma página separada do simulador. Todos os parâmetros deveriam aparecer na página do gráfico. Ficaria mais visível para o investidor que aquele resultado depende de parâmetros predefinidos. Assim ele poderia observar rapidamente que esses parâmetros podem não fazer parte da sua realidade.

Exemplos:

Nem todo investidor paga taxa administrativa para corretoras e nenhuma corretora cobra 0,15% de taxa atualmente. Isso significa que 100% das pessoas que visitarem o simulador, sem modificar essa taxa administrativa, terão um resultado distorcido, pois ou corretora que ele usa cobra taxa zero ou a corretora cobra qualquer outra taxa diferente de 0,15% como podemos ver nesse ranking.

A taxa padrão de 74% do CDI para investimentos em LCI/LCA poderia ser revista. Qualquer pessoa que faça investimentos através de corretoras consegue taxas bem superiores a isso. Até bancos grandes possuem LCI/LCA com taxas acima de 74%.

O mesmo pode ser dito com relação ao CDB com taxa padrão de 82%. Qualquer investidor consegue taxas superiores a isso em qualquer corretora. Com uma taxa DI de 6,39% esses 82% produzem uma rentabilidade mensal de 0,3665% fazendo o CDB sempre perder para a poupança.

Na simulação padrão o Fundo DI supera o CDB e isso também não reflete a realidade. O investidor que só acessa CDB que paga 82% do CDI, provavelmente está fazendo investimentos em grandes bancos que costumam oferecer fundos com baixa rentabilidade.

Esses grandes bancos costumam praticar taxas administrativas tão elevadas nos Fundos DI que frequentemente seus fundos rendem bem menos que 80% do CDI. Muitos bancos oferecem fundos DI com taxas administrativas elevadas, entre 2% e 3% ao ano.

Uma taxa de 2% ao ano diante de uma taxa DI de 6,39% faria o fundo render menos de 70% do CDI. O problema é que o simulador não permite definir uma taxa menor que 80% do CDI para os fundos de investimento. Na simulação padrão, o Fundo DI vai sempre apresentar uma rentabilidade acima do CDB, mas essa não será a realidade encontrada pelos investidores medianos.

Dessa forma, todos os parâmetros deveriam aparecer na página primeira de resultado da simulação. Isso chamaria a atenção do investidor para o fato de que a simulação que ele está vendo reflete a configuração prévia que pode ser editada. O link apagado para a página de parâmetros motiva a pessoa a não rever os parâmetros.

Também seria muito importante um link direcionado para algum PDF ou página descrevendo a metodologia utilizada, os cálculos e fórmulas usadas na simulação. Isso significa transparência.

Esses são apenas alguns problemas que encontrei rapidamente observando as simulações do título Tesouro Selic. Existem outros problemas que podem gerar confusões no pequeno investidor nas simulações dos outros títulos.

Recomendo que as pessoas continuem usando o simulador antigo do Tesouro Direto ou que busquem conhecimentos para fazerem suas próprias simulações.

Tenho certeza que o Tesouro e a B3 podem melhorar esses simuladores no futuro. Também podem oferecer mais transparência sobre como esses cálculos são feitos. Todos ganham com a transparência.

Conclusão:

Esse artigo nos mostra a importância de investir na nossa própria educação financeira, pois somente isso pode nos livrar da dependência de simuladores desenvolvidos por terceiros para influenciar a nossa decisão de investimento.

Simuladores são ótimos, desde que você possa entender como eles estão funcionando, quais cálculos estão fazendo e se os resultados fazem sentido, principalmente se você estiver usando as simulações para tomar decisões sobre seus investimentos.

Prefira confiar no seu conhecimento. Invista nele primeiro e todos os outros investimentos serão uma consequência.

Livro recomendado: Como investir em títulos públicos.

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