Existe um tipo de risco oculto que todos os investidores correm, inclusive você. Não é um assunto muito discutido, pois muitos negócios no mundo dos investimentos se beneficiam desse mecanismo.

A base desse risco é bem mais antiga do que a invenção do dinheiro e dos investimentos.

Todos nós nascemos programados para sentir grande aversão a qualquer tipo de perda. Muitas vezes tendemos a criar relações emocionais com tudo que acumulamos, até nossos investimentos. No mundo primitivo isso tinha grande utilidade, mas no mundo moderno isso pode se transformar em um grande limitador do seu crescimento.

Aversão

Vários estudos que já tive oportunidade de ler sobre o tema mostram que a dor de perder algo pode ser duas vezes maior do que a alegria de ganhar algo. Essa aversão a perda não é racional, não depende da sua vontade, mas pode ser observada e julgada por quem está consciente de sua existência.

Essa aversão à perda pode dificultar muito o nosso julgamento quando se trata de investimentos. Isso inclui todos os investimentos, mas no caso dos investimentos de renda variável como ações, imóveis, moedas e outros, as coisas podem ficar críticas. Sem perceberem, as pessoas lentamente adquirem vínculos emocionais com os investimentos que fazem. Veremos neste artigo que isso não deveria acontecer e poderá ser evitado.

Mesmo quando a decisão de investir em algo foi tomada racionalmente, com o passar do tempo vamos nos apegando emocionalmente. Veja o caso das ações. No meu livro sobre como investir em ações através da Análise Fundamentalista (conheça o livro aqui) eu ensino (e mostro na prática) como qualquer pessoa pode avaliar os resultados financeiros das empresas com ações negociadas na Bolsa.

Nesse processo de estudo é necessário que você escolha alguma empresa para analisar, pois precisamos de exemplos práticos para aprender a teoria. No livro, eu recomendo iniciar os seus estudos utilizando empresas que você conhece, que possuem negócios que você entende ou simplesmente que você gosta por ser cliente. Isso é útil por tornar o estudo mais interessante, curioso e divertido. Esse envolvimento torna o estudo agradável.

Inclusive esse é sempre o meu grande desafio como educador financeiro. Estou sempre me esforçando para desconstruir toda a complicação que os especialistas criam quando falam sobre investimentos. Tudo parece propositalmente complicado e talvez seja, pois estamos diante de uma atividade altamente regulada, cheia de dificuldades e complicações que cria uma enorme massa de leigos dependentes de quem entende a complicação gerada. Complicar o que não precisa ser complicado é um mal desnecessário.

O envolvimento emocional do investidor com o investimento pode acontecer na fase dos seus estudos, mas deve ser evitado depois que o investimento for feito. Isso evitará que você se sinta como parte de um fã clube ou torcida de investidores.

Fã clubes de investidores

Eu já vi muitos, aqui mesmo na internet, defendendo empresas e suas ações como se fossem membros de um fã clube. Criam uma relação emocional que lembra uma torcida. Os argumentos que utilizam são emocionais e muitas vezes essas pessoas gastam enorme tempo na internet defendendo seus argumentos em áreas de comentários, fóruns, redes sociais, sites de vídeos etc.

Pessoalmente eu não recomendo aos meus leitores que gastem tempo nesses ambientes onde as pessoas se reúnem para justificar por qual motivo gostam ou desgostam, investem ou desinvestem em determinadas ações ou investimentos. Essa influência externa sempre será muito danosa para o investidor, principalmente para o iniciante que está na fase dos estudos.

É surpreendente como temos uma tendência de confiar nas opiniões de qualquer estranho que encontramos na internet. Isso torna tudo muito perigoso, principalmente quando essas pessoas estão tomadas pelo apego emocional aos investimentos que fizeram.

Quando você encontrar alguém defendendo um investimento calorosamente, não importa se defendem um fundo imobiliário, as ações de uma determinada empresa ou alguma criptomoeda, aperte o botão vermelho e fique atento. Talvez você esteja diante das opiniões de alguém que foi apoderado por uma forte relação emocional com o investimento que fez.

Lembre-se quem está tranquilo com suas decisões sobre investimentos, gasta seu tempo fazendo qualquer outra coisa mais proveitosa. Quem não está em paz com o investimento que fez, perde muito tempo procurando essa paz ou iniciando uma guerra de defesa de suas emoções envolvendo o investimento.

Deixe a plateia

Evite se tornar plateia de quem vive da atenção dos investidores inseguros que não sabem se odeiam ou se amam os investimentos que fizeram. Se você já está fazendo isso, reflita sobre o envolvimento emocional e os investimentos.

O principal perigo do envolvimento emocional com um investimento, além de perder tempo o defendendo, está na atribuição de um valor maior do que ele realmente possui. Isso pode fazer com que você fique relutante em se desfazer do investimento, mesmo quando todos os indicadores apontam para o fato de que não vale mais a pena permanecer na escolha realizada no passado.

Qualquer investidor com alguma experiência já descobriu que as ações, imóveis, moedas e até títulos públicos prefixados ou indexados pelo IPCA só valem, no presente, aquilo que o mercado está pagando por ele no presente.

Já o valor futuro que você está atribuindo é algo que vive em um lugar que ainda não existe, que é o futuro. Qualquer expectativa sobre qualquer futuro sempre é uma especulação e toda especulação envolve o risco de estar errada, não importando o tipo de análise ou estratégia de investimento que você fez. Não existe nada de errado quanto especular sobre o futuro, por ser a única coisa que podemos fazer com relação a ele. Talvez o errado seja a confusão que existe em confundir especulação com uma certeza. O envolvimento emocional com os investimentos cria falsa certeza.

Manter investimento ruim

O quanto achamos que nossas ações valem, que nosso imóvel vale, que nosso carro vale, que nossas coisas valem, não importam para mais ninguém que as queira comprar. Quando um imóvel é colocado à venda, o melhor preço é aquele que faz o imóvel ser vendido, não é o preço que você acha que o imóvel vale. Se existir uma discrepância entre o que você acha e o que todo o mercado acha, o imóvel continuará sem ser vendido.

Manter um investimento ruim por muito tempo, por apego emocional ou para evitando o sentimento de perda, talvez já represente uma perda, pois esse mesmo valor poderia ser investido em algo com melhores perspectivas. Perder uma boa oportunidade produz um tipo de perda invisível.

Se você já tentou vender um carro usado ou qualquer outro bem caro e ficou ofendido quando o comprador fez uma oferta, então talvez você tenha se apegado emocionalmente ao objeto e tenha criado uma projeção fantasiosa sobre o seu verdadeiro valor. Muitas vezes acreditamos que tudo o que estamos vendendo é valioso e a quantia que estamos pedindo é muito importante.

O problema é que compradores em potencial que não veem dessa maneira, mas tendemos a encarar a situação como uma tentativa do comprador nos rebaixar, nos ofender ou tirar proveito. Existem pessoas que se ofendem muito quando investem na Bolsa e ficam ressentidas contra o mercado, contra investidores que vendem, compram ou que adotam determinadas estratégicas, como se isso realmente tivesse alguma importância. Na realidade, qualquer item vale apenas o que alguém está disposto a pagar por ele. Quando você supervaloriza seus investimentos ou seus bens estamos criando espaço para uma grande frustração que se origina de um envolvimento emocional quase infantil.

Experimentos

O economista ganhador do Prêmio Nobel, Richard Thaler, estudou esses temas. Segundo ele, as pessoas supervalorizam seus investimentos e bens simplesmente porque elas os possuem. Esse problema está relacionado com algum tipo de “efeito de propriedade” onde as pessoas que possuem um objeto tendem a valorizar mais esse objeto do que as pessoas que não os possuem. Isso também costuma ser chamado de “aversão ao desinvestimento”.

No caso das ações a situação fica ainda mais crítica quando você começa a receber dividendos e outros proventos que fazem você aumentar o número de ações sem ter pago nada por isso. Você sente mais dificuldade para vender ações que você “ganhou” ou adquiriu com dinheiro recebido dos dividendos do que vender ações que você efetivamente comprou.

Thaler e outros pesquisadores fizeram um experimento curioso sobre essa valorização das coisas que ganhamos sem ter custos. Eles reuniram estudantes de uma universidade e aplicaram um experimento no qual presentearam os participantes com canecas comuns, que não tinham nada de especial, compradas na livraria da própria universidade. Isso significa que receberam as canecas gratuitamente. Depois de algum tempo de uso das canecas, eles deram aos estudantes a oportunidade de vender essas canecas. Certamente muitas já estavam usadas ou encostadas em algum canto. Eles também podiam ficar com as canecas se achassem que era vantajoso.

Os que acharam vantajoso vender as canecas usadas, que receberam gratuitamente, queriam mais do que o dobro do preço original das canecas para achar a venda vantajosa. Os autores do estudo concluíram que o valor que atribuímos a um objeto que recebemos é quase instantâneo. No momento em que os alunos receberam a caneca, atribuíram-lhe um valor inflacionado, principalmente por não terem pago nada por elas. Além disso, quando informaram o preço real da caneca na livraria da universidade, vários estudantes ainda queriam mais dinheiro do que as canecas realmente valiam. Isso mostrou o enorme peso das questões emocionais.

Sem explicação racional

Muitos itens que compramos perdem valor no momento em que você os compra, dessa forma, esse comportamento não tem uma explicação racional, mas é explicado pela interferência das nossas emoções.

Existem pessoas que se apegam a ações de empresas que não possuem mais os fundamentos que já tiveram no passado. Muitas compram ações e deixam de fazer as análises (fundamentalista e técnica) que justifiquem a manutenção do seu dinheiro investido na empresa para os prazos e objetivos que escolheram.

Existem pessoas que compram ações de empresas que foram recomendas por investidores que estão apegados aos investimentos que fizeram  e nem sempre percebem que as recomendações que fazem são baseadas nisso.

Existem pessoas que recebem investimentos através de uma herança e nunca se desfazem deles. Já vi pessoas com muito dinheiro rendendo pouco na poupança ou imobilizados em imóveis que só produziam despesas e desvalorização, se recusando a investir em outras coisas, por ter relacionado esse investimento ao falecido. É como se fosse desrespeitoso trocar a poupança por outro investimento que o falecido não teria feito se estivesse vivo ou vender o imóvel que só gera prejuízos, mas que era um imóvel muito querido.

Robô de fazer dinheiro

A solução para esse problema é trazer para a luz da sua consciência os motivos que te fazem manter um determinado investimento. Não existe nenhuma técnica especial para que você possa fazer isso imediatamente. Você só precisa listar em algum lugar o que te faz manter uma determinada ação, título público, título privado, imóvel, fundo imobiliário, fundo de ações etc. Faça uma lista sincera de motivos e isso provavelmente te forçará a fazer uma coisa muito incômoda, mas muito poderosa, que é pensar por conta própria sobre suas decisões de investimento.

Pense nos seus investimentos como se eles fossem robôs que existem para trabalhar por você.

Entregue para os seus investimentos (robôs) uma missão bem definida que é ganhar dinheiro por você. Agora, a única coisa que você precisa fazer é avaliar, periodicamente, se os seus “robôs” estão cumprindo essa missão da melhor forma possível. Essa avaliação periódica é fundamental, precisa ser feita por você e vai exigir conhecimentos sobre o funcionamento de cada investimento que você possui.

A sua relação com seus investimentos deve ser semelhante à relação emocional que você teria com uma série de robôs e não com uma série de bichinhos de estimação.

Tony Stark tinha uma enorme variedade de armaduras robotizadas. Cada robô tinha características específicas para ajudar Tony a atingir seus objetivos. Muitas vezes essas armaduras foram destruídas, pois o importante era cumprir a missão e não preservar a armadura robótica. Assim deve ser a sua relação com os seus investimentos. Cada investimento é um robô com características específicas e um único objetivo que é fazer você ganhar dinheiro. Esse investimento só será útil enquanto for capaz de cumprir o objetivo.

Tente não dar bola para a emoção que você sente pela ação da empresa que você comprou ou qualquer outro investimento financeiro. Tente não se importar se no passado ela fez você se sentir feliz ou triste por ganhar ou perder dinheiro. Coloque sua atenção apenas no trabalho que esses investimentos estão fazendo e no potencial de continuarem ou não fazendo esse trabalho da forma mais fria possível.

O investimento é apenas um robô que pode ser substituído por outro que faça o seu trabalho direito, se isso for necessário no decorrer do tempo.

Se Tony Stark tivesse se apegado emocionalmente ao seu primeiro investimento (mark 1) certamente não teria conseguido atingir seus objetivos. Suas armaduras foram se tornando cada vez mais sofisticadas e poderosas à medida que Tony foi adquirindo novos conhecimentos e experiência. Isso também vale com seus investimentos, que devem evoluir junto com você e seus objetivos.

Aqui fica a última lição: antes de estalar os dedos, verifique se você está pronto e se a armadura (investimento) é compatível com o objetivo que você pretende atingir.

Leitura recomendada: lista de livros sobre investimentos.

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